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Por que razão ninguém chamou médicos para salvar David Duarte?

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Hospital de Sâo José

paulo vaz henriques

Enfermeiros de São José foram os primeiros a recusar estar de prevenção aos sábados e domingos devido aos cortes de 50%, “arrastando” o resto da equipa de neurocirurgia vascular. Por isso, o Hospital acabou por não chamar ninguém quando David Duarte deu entrada com um aneurisma numa sexta-feira, tendo depois morrido por ser fim de semana e não haver quem o pudesse salvar

Vera Lúcia Arreigoso

Vera Lúcia Arreigoso

com Lusa

Jornalista

A morte de David Duarte, 29 anos, no Hospital de São José, em Lisboa, na madrugada de domingo para segunda-feira, dia 14, por falta de equipa de neurocirurgia vascular para o operar durante o fim de semana, devido à rutura de um aneurisma, continua a gerar um coro de críticas e trocas de acusações.

Os enfermeiros atiram a culpa à anterior equipa do Ministério da Saúde, liderado por Paulo Macedo, garantindo ter apresentado uma solução ao ex-ministro para resolver a falta de especialistas em neurocirurgia vascular ao fim de semana na Grande Lisboa, problema que se arrasta desde 2014. Mas, segundo o presidente do Sindicato dos Enfermeiros, José Carlos Martins, a tutela não deu “seguimento ao caso”.

Paulo Macedo ainda não falou sobre o assunto, que provocou já três demissões: a dos administradores dos centros hospitalares de Lisboa Central e do Norte e do presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.

Já o atual ministro, Adalberto Campos Fernandes, considerou a situação no Hospital de São José “incompreensível”, sublinhando que não se pode resumir a uma questão financeira”. “A restrição financeira da Saúde, em alguns casos, foi longe demais”, admitiu. Mas houve “claramente um problema de organização dos meios”, afirmou. Até porque este serviço de assistência especializada funciona sem problemas no Norte e no Centro.

Uma das perguntas que muitos fazem é por que razão os responsáveis de serviço no São José não contactaram médicos e enfermeiros que pudessem operar David Duarte durante o fim de semana em vez de esperar por segunda-feira. Afinal, a intervenção era urgente. E uma percentagem elevada destes doentes tem grande probabilidade de sobreviver se sujeita à operação.

Mas contactar os especialistas para, excecionalmente, acorrerem ao hospital para tentar salvar o jovem ou transferi-lo para o Hospital de Santa Maria, também não foram alternativas tidas em conta.

A equipa recusava estar de prevenção desde abril de 2014 devido aos cortes de 50% impostos pelo anterior Governo ao trabalho extraordinário e este era apenas mais um doente. Na unidade vizinha também não havia ninguém. Optar por outro hospital com neurocirurgia vascular ao fim de semana — Egas Moniz, em Lisboa, Coimbra, São João e Santo António, no Porto, Gaia e Braga — implicava um risco demasiado grande.

“Teríamos um problema sério porque pode ocorrer uma segunda rutura durante a viagem”, explica Rui Vaz, presidente do Colégio de Neurocirurgia da Ordem dos Médicos. “Os hospitais com neurocirurgia — dez no continente, embora alguns com limitações —, têm de garantir uma equipa de vascular em todas as horas e dias do ano.”

Médicos e enfermeiros voltam a receber mais

No caso do São José, a indisponibilidade para turnos extraordinários aos sábados e domingos partiu dos enfermeiros, ‘arrastando’ o resto da equipa. Em números redondos, a recusa deveu-se a valores como 130 euros por 24 horas de prevenção (sem presença física no hospital) por cada dia de fim de semana no caso dos enfermeiros e de 250 euros para os médicos. Isto é, perto de metade do que era pago antes dos cortes feitos pela coligação PSD-CDS.

A denúncia da morte de David garantiu o acordo que faltava e que o anterior ministro da Saúde, Paulo Macedo, prometia resolver “em breve” desde setembro de 2013.

Um responsável do São José adiantou que “vão pagar mais, praticamente repondo a situação que existia antes dos cortes”, garantindo a disponibilidade de especialistas além da escala semanal. “Vamos ter já equipa, ainda com algumas horas a descoberto”, promete Nuno Reis, diretor do Serviço de Neurocirurgia do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), que integra o São José. Os turnos de fim de semana deverão estar a funcionar em pleno já a partir de janeiro.

paulo vaz henriques

Adalberto Campos Fernandes já ordenou ao CHLC e à Inspeção da Saúde a abertura de inquéritos e o próprio Ministério Público vai investigar.

Mas para o bastonário da Ordem dos Médicos, a história de David Duarte não é mais uma consequência dos “cortes cegos, insensatos e absurdos” feitos na Saúde nos últimos anos.

Por ano, 200 portugueses sofrem um aneurisma com indicação cirúrgica.

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