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Drones no sapatinho. Um milhão deles são dor de cabeça para as autoridades

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HÁ QUALQUER COISA NO AR... Mais baratos ou mais caros, mais simples ou mais complexos, há drones para todas as bolsas, gostos e finalidades

reuters

Com as vendas de drones a disparar e estes aparelhos ao alcance de quase todas as bolsas, a escassa regulamentação causa preocupações. Só nos Estados Unidos devem ser vendidos neste Natal um milhão deles, o que está a preocupar a autoridades aeronáuticas e não só. Mas há já quem faça negócio com propostas de solução

E se um milhão de drones esvoaçassem pelos céus de um país? Isso era… a realidade pura e dura. Segundo a Administração Federal da Aviação dos Estados Unidos (FAA, na sigla inglesa), cerca de um milhão de americanos vão comprar aparelhos voadores não-tripulados durante esta quadra natalícia.

Estamos a falar de máquinas que vão de pechinchas da Walmart a 20 dólares (18,44 euros) a pássaros bem maiores que chegam às centenas de euros. Esta perspetiva preocupa as autoridades. “Muita gente que não tem formação de pilotagem vai andar com estas coisas pelo espaço aéreo”, avisou Rich Swayze, da FAA, numa cimeira recente do sector. As vendas duplicaram, nos Estados Unidos, entre 2013 e 2014 e, de novo, entre o ano passado e o corrente.

Além do receio de acidentes que possam causar danos a mais do que os drones – casas, automóveis ou, o mais grave, pessoas –, levantam-se questões de privacidade e segurança. Os drones são mais do que instrumentos com que fazer vídeos engraçados para publicar no YouTube. Este ano já houve centenas de incidentes. “Muitos pilotos assistem à utilização irresponsável de brinquedos”, diz o deputado Peter DeFazio, presidente da comissão de Transportes e Infra-estruturas do Congresso americano, citado pela revista “Popular Mechanics”. A seu ver “deviam estar configurados para não serem vendidos sem limites geográficos de altitude e perímetro”, ou seja, deviam estar pré-programados para não ultrapassarem certos limites. A falta de legislação é um problema no nosso e noutros países.

BARATO E FÁCIL. Muitos dos drones podem ser adquiridos por poucas centenas, ou mesmo dezenas, de euros, e o voo comandando a partir do telemóvel

BARATO E FÁCIL. Muitos dos drones podem ser adquiridos por poucas centenas, ou mesmo dezenas, de euros, e o voo comandando a partir do telemóvel

getty

É que os drones estão acessíveis a qualquer um em lojas ou na Internet e não são nada caros. “Um drone pequeno no valor de 600 a 1000 euros pode transportar 200 a 300 gramas de explosivos”, alerta Chaim Meirovitch, da firma israelita MCTech, que produz equipamento para detetar e bloquear a atividade dos drones. “Usá-los como brinquedos é maravilhoso, mas podem tornar-se armas ou instrumentos de recolha de informação. Embora muito sofisticados, são fáceis de usar e, em cinco minutos, qualquer um se sente um perito”, explicou o responsável da empresa ao Expresso, durante um périplo recente pela Europa para apresentar às autoridades, incluindo portuguesas, o seu bloqueador MCHorizon.

A ameaça do Daesh

Tudo começou quando o Governo israelita, a quem a empresa presta serviços há mais de dez anos, pediu a esta última uma solução para impedir drones de invadirem certas zonas ou para os neutralizar antes de lá chegarem. Na base da solicitação está o medo de que o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh no acrónimo árabe) cumpra a ameaça já feita de utilizar drones para cometer atos de terrorismo. Em abril último, fez furor no Japão o caso de -um drone que aterrou no telhado da residência do primeiro-ministro. E a chanceler alemã, Angela Merkel, também foi surpreendida por um quando fazia um discurso. E há também o caso dos drones que há meses sobrevoaram o centro de Paris.

Recintos como estádios ou aeroportos também são vistos como alvos preferenciais. Ficou na memória de todos o jogo Sérvia-Albânia de qualificação para o europeu de futebol de 2016, em que um drone que transportava uma bandeira albanesa sobrevoou o campo, provocando desacatos. Mas o primeiro uso indevido de drones, diz o empresário, “é por contrabandistas e narcotraficantes, nomeadamente nas prisões”. Munidos de câmaras de alta definição, também podem servir para obter dados sobre locais, como reatores nucleares ou armazéns de armamento.

O equipamento da MCTech tem várias soluções para impedir isto. Desde a formação de uma cúpula invisível que faça os drones regressar a um segundo sistema que deteta o aparelho voador e o neutraliza até, em casos mais drásticos, à destruição física do drone. O produto é personalizado, precisa Meirovitch. “Não é preciso ter todas as capacidades para proteger algo ou alguém. Por isso a estrutura é modular.”
Ao alcance do MCHorizon estão desde os microdrones aos quadcopters. De fora ficam os grandes aparelhos como os que os Estados Unidos usam nos ataques a terroristas, por exemplo, no Médio Oriente.

Autoridades portuguesas interessadas

A localização faz-se através de um sistema ótico com pedestal e uma câmara diurna ou noturna. O operador visualiza a ameaça e fixa e segue o drone. Por neutralização entende-se o bloqueio de toda a comunicação da aeronave não-tripulada: esta perde o controlo remoto, coordenadas de GPS e até a informação sobre o ponto onde deveria regressar. Qualquer rota programada desaparece da sua memória, ficando o drone à deriva até a bateria acabar. Em alternativa, quem bloqueia pode mandar o aparelho voar para onde quiser. A opção de destruição inclui a queima com laser.

O preço do MCHorizon depende da cobertura desejada e das capacidades desejadas pelo cliente. Vai de centenas de euros a milhares ou milhões, diz Meirovitch, que se regozija com o interesse das forças de segurança portuguesas, quer civis quer militares, por todas as funções do bloqueador, exceto as de destruição: GNR, PSP, Forças Armadas e serviços secretos.

Na mira das autoridades – que gostam pouco de falar em público sobre este assunto – estará, também, a dissuasão. O empresário alerta, contudo, para a grande necessidade de formação na matéria. Essa, como a regulação, parece tardar, como é hábito nos fenómenos recentes de rápida expansão.