Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A nossa mesa de Natal

  • 333

Tiago Miranda

A par da corrida aos ingredientes que se encontram no mercado, deveria ocupar-nos a presença indispensável de outros ingredientes, menos vistosos mas porventura mais decisivos

O saudoso Victor Cunha Rego dizia, com aquela brutalidade que lhe ficava tão bem, que a nossa sociedade transformou o Natal na festa do tubo digestivo. Também aí não se enganou. Basta ver como supermercados e mercearias se alucinam em propostas para a refeição mais esperada do ano. O que sinto é que facilmente se aceita substituir o investimento na qualidade humana do encontro pela enxurrada colorida, de iguarias e sabores, a quem se confia a tarefa de ser tudo. E, não raro, aquilo que o provérbio soletra com ironia, “mesa feita, companhia desfeita”, retrata fielmente o desfecho para esse exercício de solidão que a mesa familiar também pode ser. Talvez, por isso, a par da corrida aos ingredientes que se encontram no mercado, deveria ocupar-nos a presença indispensável de outros ingredientes, menos vistosos mas porventura mais decisivos: a hospitalidade, a escuta, a reconciliação, o poder salutar dos pequenos gestos, a capacidade de envolver pela palavra ou pela alegria. Seria triste constatar que a nossa mesa de Natal foi afinal uma oportunidade perdida, porque a abundância dos alimentos acabou por agravar a fome de afeto e de sentido que trazemos, todo o ano, connosco.

Sei que não é uma refeição de Natal aquela que maravilhosamente o escritor José Luis Sampedro relata no seu romance “O Sorriso Etrusco” (Editorial Teorema, 1994). Mas penso muitas vezes nela como guião daquilo que uma ceia ou um almoço de Natal poderiam ser. A história conta-se em duas palavras. Um velho camponês do Sul da Itália, região da Calábria, vai instalar-se em casa de um filho advogado que vive em Milão, para realizar numa unidade hospitalar daquela cidade uma série de exames médicos. O desconforto entre mundo rural e estilos urbanos torna-se indisfarçável. O velho homem da terra sente-se exilado naquela metrópole anónima e espanta-se que o filho, o seu filho, suporte aquela vida, aquele tráfico barulhento e extenuante, aquele prédio onde os vizinhos não se conhecem, aquela comida preconfecionada, sem cheiro nem sabor. Uma noite em que a nora está de viagem, e o filho chega a casa só à hora de jantar, o velho decide preparar-lhe uma surpresa. Pondo em campo a sua curiosidade no labirinto daquela babilónia, ele tinha conseguido desencantar uma escondida mercearia com ervas genuínas, impagavelmente perfumadas, e produtos caseiros.

Quando se sentam à mesa, já os pratos estavam colocados, oportunamente cobertos, e ele desafia o filho a descobri-los só pelo odor: “Esse odor conhecido, e contudo inclassificável; antigo e muito íntimo. Esse odor...” O pai tinha feito migas, umas apetitosas migas camponesas, temperadas com manjericão. À medida que as vai cheirando, abre-se lentamente uma porta na memória do filho. E ao seu pensamento acorrem pastores e castanheiros, fogueiras no campo e canções, fomes infantis e mãos maternais. De repente, o pai começa a dizer umas frases no dialeto calabrês e ele acompanha-o. São horas felizes como não haviam tido ainda desde o seu reencontro. O filho inclina-se para o prato e engole colheradas para ocultar os olhos que lacrimejam. E, no fim do jantar, antes de se despedirem para dormir, separaram-se com um abraço. Um abraço apertado que torna visível uma cumplicidade afetiva restaurada.

O pai está agora na cama e ainda tem o coração nesta noite do Sul que imprevistamente se acendeu em Milão, só para eles. Nos seus lábios de homem velho pousa um sorriso com que não contava e, mesmo antes de adormecer, diz para consigo: “Que grande é a vida!"

Texto publicado na edição do Expresso de 13 dezembro de 2014