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“O SNS falhou neste caso, os cortes não permitiram ter recursos”

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Presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, que se demitiu na sequência da morte de um jovem de 29 anos por falta de equipa médica especializada ao fim de semana no Hospital de São José, garante que casos destes não voltarão a ocorrer. E aponta o dedo aos cortes no sector

Luís Cunha Ribeiro não tem dúvidas: "Neste caso, o Serviço Nacional de Saúde [SNS] falhou". E justifica porquê: "Nos últimos anos, por cortes que tivemos na área da saúde, estivemos impossibilitados de ter recursos humanos para dar respostas a situações de doentes como este", afirmou em conferência de imprensa sem direito a perguntas, esta terça-feira à noite.

"[O SNS] não teve capacidade de recursos humanos - de que não dispúnhamos porque não nos foram dadas as condições para o mesmo - e, portanto, não tivemos capacidade enquanto serviço, enquanto rede, de responder às necessidades deste nosso cocidadão cuja morte lamentamos profundamente", disse ainda Luís Cunha Ribeiro, numa declaração à RTP.

Nesse sentido, o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo anunciou na conferência de imprensa que apresentou a demissão ao ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes. A presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central (inclui o São José), Teresa Sustelo, e o presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (inclui o Santa Maria), Carlos Martins, também se demitiram.

Na hora da saída, Luís Cunha Ribeiro deixou uma garantia: casos como este não voltarão a acontecer. "A partir deste momento, e foi-nos autorizado pela equipa do Ministério da Saúde, em ambos os hospitais passa a haver resposta para situações deste género. Isto não limpa nem permite esquecer ou desculpar o que aconteceu, mas demonstra a vitalidade do SNS e a sua capacidade de resposta."

"Gostaríamos igualmente de comunicar que estes dois centros hospitalares são dos centros mais importantes deste país e indubitavelmente a força principal do sistema hospitalar na região de Lisboa e Vale do Tejo. Desde já, tomaram as medidas necessárias para que situações semelhantes não voltem a ocorrer, disponibilizando os recursos necessários a situações semelhantes àquela que infelizmente se verificou", referiu ainda à RTP.

David Duarte, de 29 anos, perdeu a vida na madrugada de 13 para 14 de dezembro (de domingo para segunda-feira) no Hospital de São José, em Lisboa, porque a equipa médica que o poderia salvar recusa trabalhar ao fim de semana pelo valor que o Estado paga. Numa carta publicada esta terça-feira pelo Expresso, a namorada de David Duarte escreve um testemunho raro no qual explica o sucedido à chegada ao hospital.

“Anunciaram-nos, descontraidamente, que se tratava da rutura de um aneurisma, que o sangue se espalhou pelo cérebro e que, geralmente, estes casos de urgência teriam de ser tratados de imediato, ou seja, o doente teria de ser logo operado. Mas como os médicos referiram, infelizmente calhou ser numa sexta-feira, logo não iria haver equipa de neurocirurgiões durante o fim de semana.”

A morte de David Duarte por falta de médicos na escala de fim de semana capazes de intervir em casos de rutura de aneurisma (provocando uma hemorragia cerebral) “acelerou” o desfecho de uma negociação que se arrastava. Fonte do hospital revelou ao Expresso que já foi possível chegar a acordo com a tutela para aumentar o valor pago aos especialistas pelo trabalho extraordinário aos sábados e domingos.

  • Carta da namorada do jovem que morreu por falta de médico ao fim de semana

    David Duarte, 29 anos, perdeu a vida na madrugada de 13 para 14 de dezembro (de domingo para segunda-feira) no Hospital de São José, em Lisboa, porque a equipa médica que o poderia salvar recusa trabalhar ao fim de semana pelo valor que o Estado paga. A namorada de David Duarte, Elodie Almeida, de 25 anos, estava com ele quando surgiram os primeiros sinais. Colocou em palavras escritas aquilo que não conseguiu contar ao Expresso de viva voz. É um testemunho raro