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Na cidade do cardamomo, do dhal e onde não dá para andar a pé

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Sofia Henriques é coordenadora da instalação do Museu Nacional de Omã, na cidade de Muscat, inaugurado no passado dia 14 de dezembro

MOHAMMED MAHJOUB / Getty Images

Sofia trabalha num museu, mas comprova mitos deste tempo: “O mito do combustível é real e quase é mais barato do que a água engarrafada”. Emigrou para Omã, onde andar a pé é impossível e comprar carro - e abastecê-lo - é mesmo tão barato como a lenda das arábias popularizou. E depois há a forma de vestir, propícia a crises de identidade, a comida, que é atrevida e exótica (é da cozinha local que chegam os substantivos esquisitos do título), o verão, que é permanente, e a inesperada dificuldade em jantar com os colegas de trabalho. É o mundo de Sofia, que nos traz a terceira história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publica nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

Quando são quatro e meia da manhã em Lisboa, são seis e meia da manhã em Muscat. É a essa hora que Sofia se levanta para começar a trabalhar às oito. Dali até às cinco ou seis da tarde segue-se o seu dia de trabalho na capital de Omã, país vizinho da Arábia Saudita, do Iémen e dos Emirados Árabes Unidos. Por vezes, ao final do dia, Sofia Henriques faz ioga ou janta com alguns amigos.

Já passaram três anos desde que Sofia, 31 anos, se mudou de Lisboa para Muscat. Foi uma proposta de trabalho “muito desafiante”, em 2012, que a fez sair de Portugal em direção ao país árabe – e hoje é coordenadora da instalação do Museu Nacional de Omã, responsável pela instalação de artefactos no museu.

Quando chegou a Muscat, numa primeira fase, trabalhava nos escritórios do Ministério da Cultura, a dez minutos de casa. Agora que o museu já está instalado, vive a 35 quilómetros de distância do trabalho, os quais demora 45 minutos a fazer em hora de ponta.

É de carro que se desloca para todo o lado, tanto por causa do calor como pelo facto de as infraestruturas da cidade não permitirem deslocações a pé. Só que em Omã, como noutros países vizinhos, comprar um carro “é bastante mais barato” do que em Portugal. “O mito do combustível é real e quase é mais barato do que a água engarrafada. Isto só é possível porque é fortemente subsidiado pelo governo.”

Silhueta indefinida

Sofia conta que a vida na cidade de Muscat é tranquila e segura. “Às vezes é demasiado 'parada' para as pessoas da minha idade sem família e filhos.” E nos primeiros meses, após a chegada, o principal choque foi a forma de vestir: “mangas compridas e roupa larga (de preferência que não defina a silhueta) é o código a seguir, o que causa muita confusão e crises de identidade”, afirma.

“Claro que existe tempo e espaço para tudo. E uma vez absorvidos os hábitos e costumes locais, apercebi-me que também existem espaços e ocasiões onde se pode usar uma saia um pouco mais curta sem ofender ninguém.”

Outra das diferenças é a comida. “Naturalmente muito diferente, é o picante que predomina as primeiras experiências gastronómicas. Outros sabores mais aromáticos e exóticos como o cardamomo, canela, folhas de caril, leite de coco e as pétalas de rosa são notas dominantes na cozinha omanita.”

“Devido à população de origem indiana, e aos laços entre os dois países, a cozinha indiana sobretudo de Kerala e Mumbai são impossíveis de ignorar”, conta Sofia.

Chávena com 'karak tea', uma mistura de chá preto com especiarias

Chávena com 'karak tea', uma mistura de chá preto com especiarias

Sofia Henriques

Segundo as estatísticas das Nações Unidas, a população imigrante em Omã corresponde atualmente a 30% do total de residentes, num país com 3,28 milhões de habitantes. Cerca de 85,9% da população é muçulmana – a religião oficial do país, segundo os dados do World Factbook.

Já os portugueses são poucos. E de acordo com as estatísticas do Observatório da Emigração, recolhidas junto de fontes como os institutos de estatística de cada país, a ONU e os consulados, não há registos de cidadãos nascidos em Portugal ou com nacionalidade portuguesa no país – e, segundo os consulados, em 2010 viviam menos de 50 emigrantes ou descendentes de portugueses.

Mas Sofia teve uma surpresa há pouco tempo: “Recentemente descobri que os meus vizinhos são portugueses”. De resto, a falta de tempo – em grande parte ocupado pelo trabalho – não tem criado a oportunidade de encontrar mais portugueses, conta.

Souk al-Seeb, mercado de vegetais em Muscat

Souk al-Seeb, mercado de vegetais em Muscat

Sofia Henriques

“Os hábitos locais giram em torno da família, sair para comer é a atividade dominante seguida por longos e demorados passeios em centros comerciais ou pelos famosos mercados (‘souks’). À noite e fins de semana, os parques e praias enchem-se de famílias e amigos que se juntam para piqueniques e churrascos.”

Sofia não teve de se preocupar com o alojamento quando se mudou para Omã, pois normalmente é garantida casa a todos os consultores que trabalham ao serviço do Ministério da Cultura do país.

Ao longo do tempo, desde que chegou, as suas funções e responsabilidades no museu foram mudando. Começou por fazer a revisão do projeto museográfico quando chegou, “tentando racionalizar o desenho e adequar melhor os equipamentos ao conteúdo expositivo”.

Depois, participou na avaliação técnica das empresas a concurso para a obra de interiores, concebeu a distribuição dos artefactos museográficos, participou na revisão e aprovação de todos os desenhos técnicos de vitrinas e outros mobiliários, e coordenou a instalação e inspeção de qualidade de vitrinas e outros mobiliários.

Praia na capital de Omã, Muscat

Praia na capital de Omã, Muscat

MOHAMMED MAHJOUB / Getty Images

Para trás ficava a experiência profissional que teve no Museu Gulbenkian. Aos 24 anos, terminou a licenciatura em Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes em Lisboa. Estagiou no Museu Gulbenkian, primeiro de forma curricular e depois através de um estágio profissional, chegando a ter um contrato ao serviço do museu. “Agora, com 31 anos, sei que devo tudo o que sei a essa experiência inicial maravilhosa, mas que viajar e viver fora do nosso contexto social e familiar é extremamente enriquecedor.”

O facto de a proposta de trabalho ser fora do país, e ser um projeto de construção de um museu de raiz, levaram-na a aceitar o desafio. “É pouco comum, normalmente surgem trabalhos de remodelação ou apenas exposições temporárias.”

O museu onde Sofia está a trabalhar foi inaugurado a 14 de dezembro de 2015

O museu onde Sofia está a trabalhar foi inaugurado a 14 de dezembro de 2015

MOHAMMED MAHJOUB / Getty Images

Entre Portugal e Omã, há muitas diferenças e a cultura tem um peso significativo. “A cultura do Médio Oriente é muito diferente e as relações sociais acontecem sobretudo em torno da família. Não é muito comum grupos de pessoas de sexos diferentes conviverem se não existem laços familiares entre eles. Socialmente não é bem visto. O que não quer dizer que as pessoas não sejam simpáticas e afetuosas com os estrangeiros.”

Sofia conta que habitualmente, na rua, as pessoas são disponíveis e sorridentes. “Mas quando se tenta explorar uma relação, existe sempre uma barreira que não permite o contacto com a vida privada. Com os meus colegas de trabalho tentei por diversas vezes organizar jantares, lanches ou cafés, mas nunca houve uma resposta muito positiva ou interessada. Por outro lado, com pessoas de outras nacionalidades, outros expatriados, é muito fácil. Em festas ou jantares é normal juntar amigos de amigos, o que contribui muito para o enriquecimento social.”

Para fazer as compras, opta habitualmente pelas grandes superfícies, tanto pela variedade de produtos, como a qualidade e o preço. “Também frequento um pequeno supermercado inglês quando procuro produtos mais europeus ou mais especiais.” O que lhe fica a faltar é o acesso a meios culturais. À exceção dos cinemas, existe a Royal Opera House, “que exibe um programa clássico de ópera, ballet e concertos de setembro a maio”.

Edifício da Royal Opera House em Muscat

Edifício da Royal Opera House em Muscat

Sofia Henriques

O caril de lentilhas e as águas de coco

Fora os dias de trabalho, ao fim de semana, Sofia consegue ter uma vida diferente, optando pelas atividades ao ar livre. “No topo da lista está o mergulho, que tento sempre que possível fazer uma vez por semana, dias de praia ou passeios pelas montanhas e canyons da região interior.”

Muscat é uma cidade “de escala média fortemente povoada e como uma zona residencial suburbana muito extensa”, e é a cidade mais desenvolvida do país. “O que difere são os serviços, lojas, cultura e restaurantes. Todas as outras cidades são muito rurais e apesar de oferecerem um contexto natural muito rico, o nível de vida torna-se demasiado básico.”

As águas de coco são um dos hábitos que fazem parte da rotina da portuguesa em Omã

As águas de coco são um dos hábitos que fazem parte da rotina da portuguesa em Omã

Sofia Henriques

Há alguns hábitos que Sofia diz já não conseguir perder: a praia, o dhal (caril de lentilhas), as águas de coco e o verão permanente, o encontro de múltiplas culturas e sua troca de experiências e conhecimentos são os que destaca.

Quanto à parte de regresso a Portugal, Sofia diz que o país continuará a ser um bom destino de férias. “O meio profissional em que trabalho é bastante limitado em Portugal e todos sabemos que cada vez mais a cultura não é tratada como uma prioridade na agenda política”, diz. “Por outro lado, fascina-me a possibilidade de trabalhar com pessoas vindas de outros contextos e todo o crescimento pessoal e profissional que assim se adquire. Sinceramente, não faz parte dos meus planos regressar a Portugal.”

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