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Várias demissões em Lisboa devido ao caso do jovem que morreu por falta de médico

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Hospital de Sâo José

paulo vaz henriques

Em causa está a morte de David Duarte, de 29 anos, que morreu pelo facto de o Hospital de São José, em Lisboa, não ter a trabalhar ao fim de semana a equipa médica que o podia salvar. Demissões abrangem diversos responsáveis hospitalares

O presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Luís Cunha Ribeiro, a presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central (inclui o São José), Teresa Sustelo, e o presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (inclui o Santa Maria), Carlos Martins, apresentaram a demissão esta terça-feira. A decisão, anunciada em conferência de imprensa sem direito a perguntas, surge na sequência de um caso trágico que está a abalar o país: David Duarte, de 29 anos, perdeu a vida na madrugada de 13 para 14 de dezembro (de domingo para segunda-feira) no Hospital de São José, em Lisboa, porque a equipa médica que o poderia salvar recusa trabalhar ao fim de semana pelo valor que o Estado paga.

Na conferência de imprensa em que apresentou a demissão, no MInistério da Saúde, Luís Cunha Ribeiro garantiu que não se voltará a repetir o que aconteceu com David Duarte. “Foi autorizado que passe a haver resposta para situações deste género. Doentes em situações semelhantes não terão o mesmo destino daquele que ocorreu há uma semana.

Numa carta publicada esta terça-feira pelo Expresso, a namorada de David Duarte escreve um testemunho raro no qual explica o sucedido à chegada ao hospital. “Anunciaram-nos, descontraidamente, que se tratava da rutura de um aneurisma, que o sangue se espalhou pelo cérebro e que, geralmente, estes casos de urgência teriam de ser tratados de imediato, ou seja, o doente teria de ser logo operado. Mas como os médicos referiram, infelizmente calhou ser numa sexta-feira, logo não iria haver equipa de neurocirurgiões durante o fim de semana.”

A morte de David Duarte por falta de médicos na escala de fim de semana capazes de intervir em casos de rutura de aneurisma (provocando uma hemorragia cerebral) “acelerou” o desfecho de uma negociação que se arrastava. Fonte do hospital revelou ao Expresso que já foi possível chegar a acordo com a tutela para aumentar o valor pago aos especialistas pelo trabalho extraordinário aos sábados e domingos.

“Em janeiro, talvez já venhamos a ter equipa. Vão pagar mais, praticamente repondo a situação que existia antes dos cortes de 50% nas horas fora do horário normal”, contou a mesma fonte. A redução imposta pelo anterior Governo ditou a “suspensão da prevenção aos fins de semana da neurocirurgia vascular desde abril de 2014”, confirmou a administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), onde o São José está integrado.

Neurocirurgiões “especiais”

A neurocirurgia vascular é uma área especializada da neurocirurgia focada nas intervenções ao nível dos vasos sanguíneos do cérebro, por exemplo, e para a qual poucos neurocirurgiões estão preparados. No caso do Hospital de São José, há apenas quatro e são eles que asseguram o funcionamento da equipa — constituída por dois neurocirurgiões vasculares, um anestesista, três enfermeiros e assistentes operacionais também com preparação específica. “O hospital tem sempre neurocirurgia aos fins de semana, mas o neurocirurgião comum não está preparado para intervir em casos de aneurismas como este, que requerem uma cirurgia altamente diferenciada”, explica Nuno Reis, diretor do Serviço de Neurocirurgia do CHLC.

Os responsáveis pelo CHLC explicam que, “sendo a prevenção de regime voluntário, existiu indisponibilidade por parte de alguns profissionais para a fazer, o que se deve às alterações remuneratórias”. Referem ainda que “alguns daqueles profissionais rejeitaram os valores atualmente propostos para o pagamento dessas horas de prevenção, o que inviabiliza o indispensável trabalho de equipa”. O Expresso apurou que a recusa partiu dos enfermeiros.

Sobre a possibilidade de transferir o doente para outra unidade, Nuno Reis foi perentório: “Nestes casos, o transporte é terrível porque o doente tem de estar o mais estável possível.” Por ser próximo, o Hospital de Santa Maria poderia ter sido uma alternativa, mas também ali não há equipa de neurocirurgia vascular durante o fim de semana.

Em outros grandes hospitais do país, a situação é diferente. No Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, “o Serviço de Neurocirurgia funciona 24 horas, sete dias por semana, 365 dias por ano. Existe, desde 2004, um programa que garante a cirurgia precoce de aneurismas rotos nas primeiras 72 horas após a rutura, sendo que a grande maioria é operada nas primeiras 24 horas. São quatro neurocirurgiões que integram o programa, sendo que as equipas comportam ainda um ajudante (especialistas ou interno), um anestesista, três enfermeiros e um auxiliar”.

Mais a norte, “no Centro Hospitalar do Porto (de que faz parte o Hospital de Santo António), ao fim de semana está sempre uma equipa, que não inclui só médicos”. No vizinho São João, “o Centro Hospitalar dispõe de neurocirurgia vascular durante as 24 horas, todos os dias”.

Em Braga, por exemplo, há equipa “24 horas durante a semana e no fim de semana há mais de dez anos; a equipa é composta por nove médicos, sendo dois muito diferenciados”. Já no Garcia de Orta, em Almada, “o Serviço de neurocirurgia, aos fins de semana, resolve as situações emergentes que surgem no âmbito da neurocirurgia vascular”.