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Rodrigo, que aprendeu os truques das pessoas antigas para dar porco preto de luxo à América

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O trabalho apareceu-lhe cedo, logo aos 12 anos no talho da família. Aprendeu e depois estudou, porque Rodrigo formou-se em hotelaria antes de se fazer à vida, que é lá fora: emigrou para a América aos 23 anos. Mais de uma década depois, fez do presunto pata negra um monopólio - mas primeiro teve de falar com “pessoas antigas, aprender os seus truques”

O porco preto alentejano chegou há sete anos aos Estados Unidos pela mão de Rodrigo Duarte, que esta terça-feira é o único produtor norte-americano de presunto pata negra, um produto de luxo que está a conquistar cada vez mais mercado.

"Amigos e até família disseram-me que era um erro, que nunca iria resultar. Mas não era só ambição. Além do amor que tenho por esta arte, sabia que havia mercado para este produto", diz à Lusa o empresário de 36 anos.

A importação de enchidos e presuntos é proibida nos EUA e há várias décadas que os migrantes portugueses produzem estes produtos para satisfazer as necessidades da comunidade.

"Quando cá cheguei, percebi que se tinha tornado tudo muito industrializado, muito preocupado com a produção em massa e que se tinha perdido a forma original de fazer as coisas." Conta que fundou a "Caseiro e Bom" em 2006, na cidade de Newark, em Nova Jérsia, para "fazer diferente, recuperar a forma tradicional e artesanal de produzir enchidos portugueses".

Original de Cantanhede, Duarte nasceu no seio de uma família humilde, com 9 irmãos, e começou a trabalhar num talho aos 12 anos para ajudar a família. Anos mais tarde, estudou na Escola de Hotelaria de Lisboa e, aos 23 anos, decidiu emigrar para os EUA

Começou a trabalhar nos Seabra's, uma cadeia de supermercados portugueses, e pouco tempo depois já era responsável pelo departamento de carnes do supermercado Kings de Short Hills. Quando abriu a "Caseiro e Bom", contava apenas com a ajuda da mulher, algumas receitas e uma grande paixão pela indústria.

"Seguiram-se muitos anos de trabalho, muitas noites sem dormir. Viajei por todo o país a falar com pessoas antigas, aprender os seus truques. Fui a Trás-Os-Montes, Minho, Alentejo, Ribatejo, Lisboa, a Espanha." Hoje produz mais de 150 produtos, incluindo diversos tipos de alheiras, chouriços, torresmos e salpicão e tem cerca de 15 funcionários.

Numa semana normal, consome 30 porcos e produz 1.400 quilos de enchidos. Nas semanas que antecedem o Natal, o número aproxima-se dos 4.500 quilos. No ano passado, vendeu cerca de 7 mil presuntos. Cerca de 300 deles eram presuntos pata negra, que são vendidos a mais de 2 mil euros cada um.

"Trouxe o sémen em 2008 e inseminei porcas de cá. Os animais são 80% porco preto, o que é suficiente para ter a classificação 'pata negra' [que exige 50%]."

Cria os animais segundo a técnica alentejana, ao ar livre e alimentando sem uso de ração, apenas bolota, castanha e verduras, alguns dos produtos importados de Portugal. Neste momento, finaliza a legalização para trazer oito exemplares vivos de porco preto para o país.

O processo deve estar terminado no início do ano e Duarte espera aumentar a produção dos produtos com carne de porco preto - aí já com animais 100% puros. "É uma carne maravilhosa e já faço muitos produtos com ela, além dos presuntos. Há muita procura." Neste momento, tem autorização para vender no estado de Nova Jérsia.

Alguns dos clientes viajam desde Nova Iorque, Pensilvânia, Connecticut e até Massachusetts apenas para comprar os seus enchidos. "Também estou a tratar da licença federal para poder vender em todos os estados, o que fará muita diferença. Os meus produtos vão chegar a todo o país."