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Anda comigo ler as montras

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Rui Duarte Silva

As montras podem ser encaradas como um símbolo de uma sociedade consumista, mas uma iniciativa que decorre até 6 de janeiro em algumas ruas do centro histórico do Porto mostram-lhe que as vitrinas podem também espelhar vários sonhos

André M. Correia (texto) Rui Duarte Silva (fotografia)

A poucos dias do Natal, milhares de portugueses aproveitam para fazer as últimas compras. A procura pelo presente faz com que as ruas de várias cidades se encham de gente que procura nas montras a tradução consumista do afeto e dos laços que as unem. No entanto, as superfícies envidraçadas onde se anunciam descontos podem também ser um portal para a reflexão e para o sonho. É isso que em algumas ruas do centro histórico do Porto podemos perceber por estes dias e o Expresso partiu à descoberta.

Ao caminhar ao longo da Rua das Flores, aberta no ano de 1518 e que hoje faz as delícias dos turistas das mais variadas nacionalidades, verifica-se que o comércio tradicional tem um lugar privilegiado. Durante a quadra natalícia, os transeuntes deambulam num fluxo constante. Alguns caminham apressados e detêm-se apenas para observar uma ou outra montra. Outros, mais vagarosos, tiram fotografias, principalmente às fachadas antigas onde estão esbatidos séculos de história.

Aqueles que param para ver as montras são surpreendidos com as vitrinas decoradas com frases da escritora de literatura infanto-juvenil Adélia Carvalho e com ilustrações de Constança Araújo Amador. A temática é o sonho. Muitos e muito diferentes. Sonhos audazes, sonhos românticos, sonhos quentes, sonhos curiosos, sonhos tímidos, entre muitos outros. Todos eles com características humanas, onde cada um de nós se pode rever.

Caminhe e vá conhecendo cada um deles. “Sonhos doces cheiram a canela e trazem sempre um convite para um lanche”, lê-se na montra da Chocolataria das Flores. Prossiga e perceba que “Sonhos tímidos escondem-se atrás das árvores e esperam que alguém os descubra”. Na montra da Livraria Chaminé da Mota descubra que “sonhos poéticos vivem nos livros e todos os dias pensam em ti”. Mais à frente, aproveite para parar numa esplanada, tomar um café e perceba que “Sonhos atrevidos gostam de sorrir e aparecer à tua porta quando menos esperas”. Não se espante. Todos os sonhos o tratam por tu. É assim mesmo. Recupere o fôlego e continue a caminhar, porque há muitos mais sonhos para descobrir na Rua das Flores e noutros locais próximos, como o Largo dos Lóios, a Rua Sousa Viterbo e a Rua Ferreira Borges.

Esta iniciativa, intitulada “As Montras Ganham Vida”, é dinamizada pelo Porto Lazer e vai já na oitava edição, sempre com frases de Adélia Carvalho que ao longo do tempo foi colaborando com diferentes ilustradoras. Em edições passadas, as montras espelharam quadras populares de S. João, frases alusivas ao vinho do porto e até uma história em que Alice descobriu no Porto o seu país das maravilhas.

Sonhos aprisionados sonharam ser livres

Rui Duarte Silva

Rui Duarte Silva

Rui Duarte Silva

À conversa com o Expresso, a autora Adélia Carvalho afirmou que esta “é uma forma de mostrar que não há apenas o lado consumista” quando paramos para ver – ou ler – as montras e que o objetivo foi “dar-lhes um pouco mais deste mundo imaginário através da literatura e das ilustrações, levando a cultura às pessoas”. Serve também para mostrar que “o comercial é superado pelo emocional”, resume a escritora.

No fundo, como explica Adélia Carvalho, “andamos sempre à procura de uma infância perdida”, porque todos “queremos voltar a ser crianças” e “precisamos desse espantamento perante o mundo”.

As frases são pensadas especificamente para cada uma das edições desta iniciativa. Neste caso em particular, a ideia surgiu através de uma personagem, o João, que já não tinha a capacidade de sonhar e decidiu roubar os de outras pessoas, aprisionando-os num saco. Mas, como explica a autora, os sonhos têm personalidades e, com o tempo, “foram sonhando ser livres”. Quando esse saco imaginário se tornou demasiado pequeno, os sonhos espalharam-se pelas ruas e ficaram inscritos nas monstras, onde cada um de nós pode ver o seu próprio reflexo.

Na opinião de Adélia Carvalho, esta iniciativa “faz literatura com os comerciantes” e admite que, muitas vezes, quando está a escrever uma determinada frase já tem uma loja em mente onde se poderá enquadrar. Constantemente, pedem-lhe que a iniciativa se alastre a outras zonas da cidade e, em alguns casos, recebe o agradecimento de alguns lojistas. “Ó menina, nunca vendi tantas francesinhas na minha vida!”, revela Adélia Carvalho um dos vários testemunhos que já recebeu.

“Todos os dias vemos nas notícias exemplos de pessoas que já não conseguem sonhar. São tão egocêntricas, que a indiferença tomou conta delas”, lamenta, acrescentando que “as pessoas vivem mais para o ter do que para o ser”.

O seu maior sonho é “ter a cabeça limpa para fazer estas escritarias todas malucas” e poder viver exclusivamente disso, mas assegura que “em Portugal isso é quase impossível”.

Adélia Carvalho, que sempre trabalhou com crianças e que em tempos foi educadora de infância – até se ter cansado do modelo de ensino –, sustenta que “atualmente temos cada vez menos tempo para sonhar”, mas acredita que “é impossível parar o sonho”.

“Os sonhadores vão continuar por aí, ainda que em número mais reduzido”, remata. De montra em montra, deixe-se levar até 6 de janeiro pelos sonhos nestas ruas do centro histórico do Porto.

Rui Duarte Silva

Rui Duarte Silva