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Encantou-se, encanta-se: na cidade daquela pimenta preta

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Filipe Duarte vive na cidade de Kampot, na zona costeira, no Cambodja

Filipe Duarte

Filipe encantou-se com o que encanta os curiosos: partir, viajar, sentir. Saiu de cá, foi por aí, mundo fora e vida adentro – regressará, mas por enquanto experimentará. Permanece encantado: abriu um restaurante português na cidade de Kampot, no sul do Camboja, no dia da liberdade de Portugal – 25 de Abril, no caso o deste ano. Este é o relato descomplicado e inspirador de Filipe, um português a viver num país quase sem portugueses – e a primeira história da série “Em pequeno número”, que o Expresso vai publicar nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

Quando chegou à cidade costeira de Kampot, no Camboja, Filipe passou os primeiros tempos a andar de mota, a descobrir a cidade e os seus arredores. Há já alguns anos que ele e uns amigos falavam sobre a ideia de trabalharem para eles próprios, de criarem um projeto comum, de montarem um negócio. Quando se mudou definitivamente para o Camboja, era com essa ideia que ia.

Para trás ficava um percurso preenchido, mas quando chegou ao Camboja, Filipe começou por gerir espaços de turismo em Kep e Kampot, mas sem sucesso. “Então aproveitei a abertura de um bar em Kampot para começar a cozinhar produtos locais, com sabores portugueses. Apesar de curta, a experiência deu para ter uma boa ideia do trabalho que viríamos a desenvolver.”

Hoje, juntamente com mais dois portugueses, Filipe Duarte é proprietário do Tertulia Restaurante Kampot, um restaurante português na pequena cidade com cerca de 39 mil habitantes.

Conhecida por ter a melhor pimenta preta do mundo, Kampot é a cidade onde Filipe vive, num dos países sem registos de portugueses, segundo as estatísticas recolhidas pelo Observatório da Emigração junto de fontes como os institutos de estatística de cada país, a ONU e os consulados.

Se nos primeiros tempos Filipe andava de mota a explorar a zona, a rotina entretanto mudou. Levanta-se às 6h30 da manhã para ir ao mercado local comprar marisco, peixe e vegetais. E essa é a sua atividade preferida. “De momento já todas as peixeiras me conhecem e quando passo é um constante chamariz.”

Por volta das 9h30 ou 10h acaba as várias tarefas. “Mas como vivemos no Camboja, e todos os dias aparecem problemas diferentes, o dia pode estender-se até às quatro ou cinco da tarde. A partir das 16h, o staff chega e às 17h abrimos o restaurante, até às 23h.”

Cataplana, lulas à algarvia ou carne de porco à alentejana são alguns dos pratos servidos no restaurante, a 11 mil quilómetros de Portugal.

“Abrimos no dia 25 de abril de 2015. O feedback e o interesse das pessoas têm ido para lá das nossas expectativas. Estamos muito contentes e prontos para fazer melhor.” Filipe conta que a maior parte dos clientes não conhece a culinária portuguesa, nem a variedade dos nossos vinhos. “Portanto, ficam quase sempre surpreendidos com os nossos sabores.”

Filipe Duarte

A polícia deixa de trabalhar

Quanto à vida no Camboja, o português diz que é “levada muito de leve e tranquilamente”. “Mas os locais também têm sempre um receio presente. Difícil de explicar, mas diria que vem do passado e das suas guerras e lideranças.” Filipe vê nos cambojanos vontade de fazer negócio e acha-os mais descontraídos que os tailandeses. “A comida também foi algo que me surpreendeu. Aqui a diversidade na oferta é muito pequena comparada com a Tailândia.”

Habitualmente, os cambojanos acordam cedo: entre as quatro e as cinco da manhã. “É fundamental concretizar o trabalho mais duro antes de o sol se pôr alto. São lentos a trabalhar, mas muitos. Por volta das cinco da tarde pára tudo. A polícia deixa de trabalhar, as pessoas em Kampot vão passear no passeio da marginal do rio.”

Filipe conta que do país ainda só conhece o sul e Phnom Penh, a capital e cidade mais populosa do Camboja. “Kampot é uma cidade mais pequena, sem grandes indústrias, mas que desde muito cedo se caracterizou por não querer certos tipos de turistas por cá. Fez com que se tornasse uma cidade mais segura e tenta atingir um turismo diferente e mais cultural. Diria que pode vir a ser um futuro Chiang Mai. E a não esquecer que Kampot tem a melhor pimenta preta do mundo.”

Rio, montanha, floresta, parques naturais, campos de pimenta, arroz e sal, templos, praia e ilhas, “tudo está ao alcance da pequena Kampot”. “Nas outras cidades maiores é tudo mais caótico e confuso, mas não menos interessante.”

E ainda que agora lhe reste pouco tempo livre, tendo em conta o trabalho que tem no restaurante, Filipe conta que, sempre que pode, gosta de ir visitar os amigos, ir à praia, à ilha de Kep, à capital ou a Sihanoukville, cidade no sul do país.

Encantava-me

Antes da chegada ao Camboja, Filipe teve um percurso preenchido. Nasceu em Lisboa e quando tinha oito anos partiu para Macau com os pais e o irmão, onde viveu durante dez anos. Voltou para Portugal em 1999. Dois anos depois, começam as primeiras viagens. “Na época de férias, comecei aventurar-me pela Europa em descoberta de novas culturas.” E já em 2003 começou a trabalhar no verão em Inglaterra, com o intuito de poder viajar pelo leste europeu. “Encantava-me.”

Com algumas mudanças pelo meio, regressa a Macau em 2009 – 20 anos depois de se ter mudado pela primeira vez. “Não me atraiu a ideia de ficar. Ainda em 2009 regresso a Inglaterra, com a crise financeira a bater em todos os sectores. E acabo por regressar a Portugal, onde permaneço ate inícios de 2013.” É no final de dezembro vai para a Tailândia. “Estava em busca de uma nova casa, que deveria ser encontrada na Tailândia, Camboja ou Laos.”

Filipe Duarte

E porquê o Camboja? “O que me fez mudar veio do descontentamento da vida, primeiro pela Europa e depois por Macau. Tanto as vibrações da Europa como de metrópoles como Macau e Hong Kong cansaram-me.”

Muito é diferente em relação a Portugal. “Em Portugal gosto de ter a família e muitos amigos por perto, as praias, os festivais culturais, a natureza... E sempre regressarei a Portugal para ficar.” Sente-se numa fase passageira: “Tudo é temporário e eu não fujo à regra.”

Filipe confessa ter curiosidade em saber como irão decorrer as eleições locais daqui a dois anos. “Apesar de um país seguro, continua a ser um país muito corrupto e os militares têm altos poderes. Apesar de não estar com receio, iremos prevenir-nos consoante as necessidades e acontecimentos.”

Já quanto aos portugueses, vão sendo também situações temporárias. “Desde que cá cheguei já encontrei portugueses de férias e de passagem, outros que ficam durante um tempo e outros que até arranjam trabalho por cá ou outras cidades do Camboja. Diria que a maior comunidade de portugueses está em Phnom Penh, mas sei que também que existem portugueses por Siem Riep, Sihanouk Ville e aqui em Kampot.”

Entre os casos que conhece, há professores e designers, por exemplo. “Aqui em Kampot, ainda na semana passada foi-se embora uma portuguesa professora de yoga.” Por lá vive ainda Francisco, o português que é chef de cozinha e sócio de Filipe no restaurante. “E chegou agora uma portuguesa para trabalhar connosco.”

Um regresso faz parte dos planos. “Mas não de momento ou nos próximos dez a 15 anos. Portugal é o nosso país apesar de não nos deixarem aí trabalhar. Ainda quero concretizar outros projetos pelo sudoeste asiático.” Criticando a situação atual do país, Filipe aponta para um futuro mais distante um regresso. “Há que ter esperança, e bem ou mal, um dia regressarei para as praias do sudoeste português.”

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    Ele vive num país em guerra e partilha casa com 15 pessoas de diferentes nacionalidades. E sim, existem dias ótimos - como quando salva um bebé e a mãe num parto complicado. E sim, existem dias dolorosos - como quando um pai carrega o filho a pé durante 50 km e chega tarde demais ao hospital. João salva e salva-se na República Centro-Africana e é um português a viver num país quase sem portugueses – é a segunda história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publica nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há