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A quadrilha dos criados gatunos com alcunhas de mulher

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Retrato-robô de José Lopes, mais conhecido por A Perpétua Cheirosa, uma quadrilha de criados ladrões

Eram criados de servir que gostavam uns dos outros e formaram uma quadrilha para roubar os patrões. Eram rapazes na casa dos vinte anos de idade, mas usavam alcunhas femininas. A Perpétua Cheirosa liderava-os. Esta é a quarta história de uma minissérie do “Crime à Segunda”, até ao regresso de mais uma temporada longa de criminosas portuguesas

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Roberto

João Roberto

ilustrações

Motion designer

Perante a gritaria, os desmaios e os choros dos restantes oito membros da quadrilha, José Pereira Lopes viu-se obrigado a confessar: fora ele quem roubara o subdelegado de um dos distritos criminais de Lisboa. Mas todos eram cúmplices do arrojado esquema. Se havia dúvidas, o agente Francisco Carapeto acabava de as tirar e os jornais diriam que “a trupe de A Perpétua Cheirosa & Companhia", identificada nos antetítulos por "Os Criados Gatunos", ia atuar para a cadeia do Limoeiro.

Augusto Ribeiro Vaz procurou o criado que contratara há uns dias, enquanto a mãe recebia as visitas na casa de ambos, um rés-do-chão na Avenida da República num edifício que será demolido em 1949. Eram dez horas da noite do sábado 23 de janeiro de 1915 quando o subdelegado encontrou, em vez de José, o cofre com menos dinheiro e o lugar do guarda-joias vazio. Neste caso não havia coincidências e a polícia, chamada a intervir, começou a caça ao homem.

A capital estava, judicialmente, dividida em distritos criminais, mas a imprensa nunca mencionará em qual a vítima do roubo exercia o cargo de subdelegado do procurador. Aliás, só há uma referência à função, de resto tratavam-no por “sr. dr.”. Apesar da sua formação em direito e de estar ligado à aplicação da justiça, Augusto Vaz seguia a norma, facilmente acreditava em quem admitia ao serviço doméstico e logo “depositou nele a maior confiança”. Do suspeito, portanto, sabia apenas o que ele disse, a si e à sua mãe: chamava-se José e trabalhara quatro anos no Porto em casa de um titular.

A nobiliarquia perdera importância com a implantação da República, mas cinco anos depois ainda servia de credencial, sobretudo para quem preferia ser governado por um rei. Para António Vaz, mais monárquico do que republicano e que andará pela casa dos vinte de idade tal como o criado desaparecido, trabalhar com alguém da nobreza era uma ótima referência, além disso terá engraçado com “o rapaz modesto, trabalhador e de boa aparência”, como o descreverá à polícia.

José Pereira Lopes, que, por vezes, trocava o apelido do meio por Pires, apresentava-se de aparência cuidada, bem vestido e cheiroso. E até poderá ter trabalhado, em tempos, na residência de um titular. Porém, ao oferecer os seus préstimos a Augusto Vaz, esqueceu-se de dizer que, pouco antes, estivera uns dias hospedado numa casa na rua da Cruz dos Poiais, próximo da calçada do Combro, de onde saíra, sem pedir à proprietária, com um cordão e três anéis de ouro, uma medalha de cinco mil réis e várias peças de roupa.

Desta vez, de acordo as primeiras notícias, datadas de 26 de janeiro, levara “uma importante soma em dinheiro e objetos de ouro e brilhantes de grande valor, e alguma roupa”. Com o diário da noite A Capital, ficava-se a saber que do n.º 57 da Avenida da República tinham desaparecido 200 libras, ouro, brilhantes e roupa, tudo num valor superior a dois mil escudos, dois contos na linguagem oral, o que significava mais de dois milhões na antiga moeda real que o primeiro governo provisório da República substituiu pelo escudo. em 1911. Durante alguns anos, falar-se-á nas duas moedas indiscriminadamente.

Os mais de dois mil escudos referidos com frequência serão dois milhões e quinhentos mil réis, como a dada altura se lerá nas notícias. O Carnaval estava à porta, José Lopes saiu de bolsos cheios da Avenida da República direto para uma ceia, seguida de baile, “numa certa casa” no Dafundo, onde se divertirá com alguns dos membros do grupo. Pelo caminho, em Alcântara, arrombou o guarda-joias e atirou-o para umas medas de pinho, onde será encontrado na manhã seguinte e entregue à polícia do Calvário.

JOSÉ PEREIRA LOPES, A PERPÉTUA CHEIROSA, PRESO EM SETÚBAL UM DIA ANTES DA IMPLANTAÇÃO DA DITADURA

Muito embora o criado gatuno fosse pouco ou nada conhecido, na tarde seguinte ao roubo José Pereira Lopes estava a ser preso em Setúbal. A polícia encontrou-o numa hospedaria da praça do Bocage, depois de ter andado a fazer algumas perguntas e ter batido à porta certa. “O Lopes, que é indivíduo de péssimos costumes, mantinha ali relações com um outro de não menos equívoca moralidade, chamado José Luís Calado, que foi quem o indicou”, esclarecia O Século, três dias depois, dando conta de que a caixa de folha tinha sido recuperada, em Alcântara, esvaziada das joias.

As investigações da polícia deveram ter começado logo na noite da queixa dos Ribeiro Vaz, mas os jornalistas andavam muito ocupados com os acontecimentos nacionais. Só assim se compreende que um caso tão badalado seja publicitado dois dias depois. Na manhã de 24, o Presidente da República chamara os partidos a Belém, todavia a crise política impôs-se e, pelas 16h, o governo liderado há pouco mais de um mês por Vítor Hugo de Azevedo Coutinho, do partido Democrático, anunciaria a demissão. Durante a madrugada, a Guarda Nacional Republicana dispersará vários grupos considerados suspeitos, mas quando o sol nasceu os rumores eram de que se frustrara um golpe de Estado, encabeçado por partidários do Governo, e se efetuara uma série de prisões de militares e de civis.

Joaquim Pimenta de Castro, general, chefe de um governo ditatorial entre fevereiro e maio de 1915

Joaquim Pimenta de Castro, general, chefe de um governo ditatorial entre fevereiro e maio de 1915

Wikipédia

Manuel de Arriaga assinou, nesse 25 de janeiro, a nomeação de Pimenta de Castro como presidente do ministério, ou seja, chefe de Governo, assim como ministro de todas as pastas. Quando o jornalista de A Capital que estivera horas à espera no Ministério da Guerra para ouvir o novo primeiro-ministro lhe perguntou qual iria ser a orientação do novo governo, o general respondeu: “O programa é simples: é pegar na lei e andar para a diante. É preciso acalmar os espíritos. Para isso é necessário haver ordem e haver liberdade. Os primeiros atos de governo foram orientados por essa necessidade: levantaram-se as suspensões de jornais, mandaram-se tirar os elos da Luta, mandaram-se soltar os oficiais presos… Aqui tem tudo o que posso por enquanto declarar a um jornalista”. Embora prometesse o contrário, o militar, ditador e autoritário, mandou fechar o Parlamento, cuja maioria era democrática, e iniciou o período que o próprio designará por “afrontosa ditadura”.

A PRISÃO DE A ROSA DA RIBEIRA TERÁ LEVADO À DESCOBERTA DOS PRIMEIROS PASSOS DO ROUBO

Voltando ao domingo, dia 24, antes da prisão do gatuno conhecido pela alcunha de “A Perpétua Cheirosa”, o agente Carapeto, com informações cuja origem se desconhece, terá feito uma busca no primeiro andar do n.º 81 da calçada do Combro — hoje sede de uma empresa que se dedica ao comércio a retalho de relógios e de artigos de ourivesaria e joalharia. Ali, não encontrou o produto do roubo, mas deteve o morador Roberto Augusto Rosa, de 27 anos, o qual optaria por denunciar os passos dados pelo cúmplice José Lopes, que talvez já tivesse também mencionado o seu nome.

Conhecido por A Rosa da Ribeira, provavelmente desde que vendera peixe no mercado desse nome, Roberto Augusto era conhecido da polícia por ter possuído uma casa no rua do Norte, no Bairro Alto, onde já se albergara a Perpétua Cheirosa e vários outros indivíduos suspeitos, na sua maioria criados de servir que terão decidido agir em grupo. Com exceção de casos pontuais, conseguiram ir escapando às autoridades até ao roubo a Augusto Vaz, homem que se relacionará bem com a imprensa e será diretor da revista do Automóvel Clube de Portugal.

Entretanto, os jornais começaram a dizer que José Lopes tinha confessado. O correspondente de O Século em Setúbal enviara um telegrama no dia 24, que o diário publicou a 26: “O Gatuno apoderou-se das chaves do cofre do patrão para cometer o roubo, confessando o facto e esclarecendo o sítio onde enterrou o dinheiro”. Mas Perpétua Cheirosa ainda não contara tudo, recusava-se a dizer o paradeiro exato do produto do roubo. E Rosa da Ribeira também não adiantava mais do que já dissera. Carapeto resolve então juntar os detidos e acareá-los.

Augusto Ribeiro Vaz, em 1929, num jantar de homenagem ao coronel Cristóvão Aires de Magalhães, a quem o presidente da República recusaria condecorar

Augusto Ribeiro Vaz, em 1929, num jantar de homenagem ao coronel Cristóvão Aires de Magalhães, a quem o presidente da República recusaria condecorar

Arquivo Nacional Torre do Tombo

Depois de ouvir os dois cúmplices no Governo Civil, o investigador da judiciária ficou a saber quem mais ir buscar para interrogatório. Foi direto à calçada de São João de Nepomuceno, também não muito longe da calçada do Combro, e surpreendeu quase todos os restantes membros da quadrilha. No 3º andar do n.º 32, o agente da Judiciária prendeu Eduardo Augusto Moura, a Zázá, Raul José Arez ou Brás, a Bibi, Manuel Simões Porto, a Petiza do Bairro Alto, e Januário Rosa, a Rita ou a Lili. E apreendeu duas peças de fazenda, compradas com o dinheiro do roubo e destinadas a belos fatos, e ainda “fotografias pornográficas”, como refere o Diário de Notícias.

De início, a polícia pensou que Roberto Augusto era o chefe da quadrilha. Este já uma vez fora apanhado, em 1911, num roubo de mobílias em Cascais com o seu companheiro à data - Florindo Garcia, o Catita. Mas quando verificou os cadastros dos indivíduos que mantinha presos, incomunicáveis, em várias esquadras, percebeu que se tratava de uma associação de malfeitores de larga folha corrida e que era uma daquelas quadrilhas em que todos os membros possuíam alcunhas femininas.

Esta quadrilha, concluiu o agente da Judiciária, era a da Perpétua Cheirosa, que, saberá mais tarde, já planeara fazer o próximo roubo na casa da família judia Zagury, onde servia o cúmplice José António Rosa, "por sinal um excelente criado” — por esta altura, o líder do gangue concorrente mais conhecido intitulava-se Rainha dos Pirilampos. Na verdade, chamava-se Carlos Rego e tinha 17 anos, era o chefe de Ernesto Jorge Castanheira, de 18, a Marquesa do Faial; de António Cândido Chaves, de 18, a Violeta; e de Francisco Nunes, de 17 anos, a quem tratavam por a Boneca.

No final de janeiro já eram seis os criados gatunos presos, mas Carapeto continuava sem saber onde Lopes enterrara uma parte do dinheiro e as joias de Augusto Vaz. Entretanto, entre as negações de autoria do crime, as denúncias iam surgindo e a poliícia fez uma busca no beco dos Birbantes, deitando a mão a José Luís de Matos, A Morna, José António Rosa, conhecido por Furlana, talvez por executar bem a dança italiana originária de Friul, e Arnaldo dos Santos, a Peixeira. A quadrilha, como refere O Século, é formada por “rapazes ainda novos, mas de péssimos costumes”.

ENTRA EM CENA GERTRUDES, A SALOIA, QUE É RECETADORA E ÚNICA MULHER ENVOLVIDA

Já se estava em fevereiro e ainda continuava por descobrir a cova das joias. Carapeto decide replicar o método anterior - juntou todos para uma acareação no governo civil. “Estabeleceram entre si uma tal discussão e acusaram-se de tais proezas que alguns deles foram acometidos de delíquios e choraram copiosamente”, contou o Diário de Notícias. Afinal, Perpétua Cheirosa tinha dividido uma parte do dinheiro com os seus companheiros de baile na noite do roubo: Eduardo Moura e Januário Rosa, cuja irmã há de entregar à polícia, por sua iniciativa, a quantia que aquele levara para casa.

“Nos bailes públicos é que o uranista mais se denuncia. Ama a dança extraordinariamente e, se a ocasião é propícia para o disfarce, como pela época de Carnaval, aparece vestido de mulher. Espartilha-se, cria formas provocadoras, à custa de balões de borracha, pinta-se e adorna-se com brincos e sapatos femininos.” A descrição é do prémio Nobel Egas Moniz, em “A Vida Sexual”, edição revista e aumentada de 1924, na qual explica esta “doença”, à luz do pensamento da época, com o nome “uranismo”, “introduzido na ciência por Ulrichs". Tratava-se de uma derivação “de Uranos, personagem que, segundo uma passagem do banquete de Platão, sofrera de perversão homossexual e tanto que teve uma filha, Afrodite, que, no dizer da lenda, nascera sem mãe”.

Gertrudes, a recetadora, conhecida pela alcunha de A Saloia, também teve honras de notícias e fotos nos jornais (recorte de O Século)

Gertrudes, a recetadora, conhecida pela alcunha de A Saloia, também teve honras de notícias e fotos nos jornais (recorte de O Século)

DR

A José Luís de Matos, a Morna, coubera o papel de intermediário na venda do roubo a Gertrudes Maria, de alcunha A Saloia, com “estabelecimento” no Largo do Regedor. Esta era conhecida por comprar objetos roubados por tuta-e-meia. Há anos que o fazia sem deixar provas que a condenassem, embora tenha “granjeado uma fortuna, dizendo ela à boca cheia que não rouba e que é uma injustiça pedirem-lhe contas dos seus ‘negócios’”, afirmava O Século. Desta vez, a polícia encontrou em sua casa 600 mil réis e, passando um interrogatório a ouvir negas, arrancou-lhe nos seguintes o paradeiro de todas as joias que pertenciam a Augusto Vaz.

No dia 7 de fevereiro de 1915 foram todos pronunciados como fazendo parte de uma associação de malfeitores e presos sem fiança. Só a Gertrudes Rosa ou Roque, o juiz dará a oportunidade de pagar três mil escudos. Todavia, ela preferirá a cadeia. Os criados gatunos, como também ficaram conhecidos, desenvolviam um sistema de certa forma original. Aqueles que estavam empregados roubavam para sustentar os desempregados, conforme confessaram estes "ladrões disfarçados em homens de bem”, que, quando foram fotografados, se riram e pediram que as suas caras ficassem perfeitas e simpáticas.

Terão sido condenados por crimes de associação de malfeitores, furtos, vícios contra a natureza, vadiagem e encobrimento de furto”. O médico legista e investigador Asdrúbal de Aguiar, no seu livro “Homossexualidade Masculina Através dos Tempos”, publicado no início da década de 1930, onde se refere a “dois grupos de sodomitas que já no século XX assentaram arraiais em Lisboa, não adianta qual foi a condenação, mas acrescenta que os membros da quadrilha de “A Rainha dos Pirilampos” foram igualmente presos, mais tarde, nesse ano de 1915, e acusados de sodomia, furto e vadiagem.

As associações dos Criados de Mesa e de Classe dos Empregados de Hotéis e Restaurantes — considerados trabalhadores domésticos pelo Código Civil desde o século XIX — fizeram um “veemente protesto” contra a quadrilha de gatunos que “exercia o mister de criados de mesa” com “arte para se meter portas adentro das casas particulares”. E, por causa da “trupe da Perpétua Cheirosa & C”, criaram uma “bolsa de trabalho”, uma “agência” para os associados e para quem quisesse ter, “por uma pequena percentagem”, a certeza de que empregava “gente de bem”.

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