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O HÍBRIDO. O Blackberry Priv utiliza o sistema operativo Android e pode correr o Apple Music, da Apple, e o Office, da Microsoft. Algo impensável há um ano

O HÍBRIDO. O Blackberry Priv utiliza o sistema operativo Android e pode correr o Apple Music, da Apple, e o Office, da Microsoft. Algo impensável há um ano

d.r.

Os principais sistemas operativos para dispositivos móveis estão a deixar de ser ilhas para se transformarem em verdadeiros continentes. Quer isto dizer que estamos a assistir ao fim dos ambientes proprietários onde os exclusivos eram a alma do negócio. Explicando: hoje, o Office da Microsoft, por exemplo, está disponível para os iPads, iPhones e para os milhões de dispositivos que correm Android. E, claro, está integrado de raiz nos terminais Windows. Outro exemplo: o Apple Music não é um exclusivo dos “iDispositivos” e quem tem um Android pode subscrever o serviço de música da Apple. A Google, precursora das plataformas abertas, há muito que estende as suas aplicações e serviços a sistemas concorrentes.

Depois de muitos anos marcados por batalhas judiciais, os principais players da mobilidade perceberam que a colaboração é um caminho mais inteligente de seguir do que o preconizado pela confrontação. Sim, a Microsoft quer as suas apps em todos os sistemas porque chegou atrasada à mobilidade e continua a não conseguir que o Windows descole para valores decentes – no segundo trimestre deste ano, a consultora IDC indicava que o Windows Phone tinha apenas 2,6% de quota de mercado nos sistemas operativos móveis, contra os 13,9% do iOS e os incríveis 82,6% do Android. Ou seja, se não é possível vencê-los, junta-te a eles! É este o mantra seguido pela Microsoft, que, pela primeira vez em anos, teve oportunidade de mostrar as suas apps Office num evento oficial da Apple.

E a empresa mais valiosa do mundo lançou o Apple Music e não se coibiu de abrir o serviço ao rival Android. Afinal, a Apple tem muito caminho a percorrer para atingir os mais de 20 milhões de subscritores pagantes do Spotify (o serviço de música por streaming de maior sucesso). O caminho faz-se caminhando e a estratégia de abertura seguida pela empresa de Tim Cook está a colher frutos. A Apple já tem mais de 6,5 milhões de subscritores em sete meses de funcionamento. Com cada um a pagar, pelo menos, 6,99 euros para ter acesso ao serviço.

No entanto, a Blackberry é o caso emblemático desta abertura forçada a plataformas rivais. A empresa canadiana quase não sobreviveu a cinco anos de extrema erosão, que a levaram de um dos players mais importantes da mobilidade para uma quota de mercado que hoje se fixa nuns inexpressivos 0,3% (dados da IDC referentes ao segundo trimestre de 2015 do mercado dos sistemas operativos móveis).
A empresa quis dar a volta e lançou o Priv, um smartphone Android. Sim, há um Blackberry que usa o sistema operativo da Google. Se alguém dissesse há cinco anos que a RIM (Research In Motion, hoje conhecida por Blackberry) iria fazer algo deste género, seria ridicularizado. Afinal, a Blackberry foi um dos principais fabricantes na história das telecomunicações mas, à semelhança do que aconteceu à Microsoft, a empresa subestimou o impacto do iPhone e quando acordou era tarde de mais. Tentou lançar novos terminais, mais apps… mas sem sucesso.

Hoje, corre atrás do prejuízo e é curioso ver que o Priv usa Android e tem a capacidade para executar o serviço Apple Music. Um exemplo acabado da forma como as fronteiras que delimitavam os sistemas operativos móveis estão a ser abolidas e a criar dispositivos amorfos que conjugam em si características herdadas de vários sistemas. Verdadeiros ornitorrincos digitais feitos para resistir às mudanças impostas pelos consumidores. Caminhamos, por isso, para um mundo cada vez mais convergente onde as diferenças entre as principais plataformas móveis vão dissipar-se.