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Lojas antigas da nossa perdição

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Por amor à tradição, há ainda empresários da nossa praça orgulhosos do seu passado presente

Ana Soromenho

Ana Soromenho

Lisboa

Jornalista

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Porto

Jornalista

mário joão

Sejam luvas, grãos de café ou bombons a peso, fatinhos de bebé tricotados à mão, chapéus feitos à medida, livros ou botões de madrepérola, as lojas centenárias — como agora chamam a estas lojas tão especiais, cujo negócio pertence à mesma família há várias gerações — têm na sua singularidade uma coisa em comum. São sobreviventes do arraso que o comércio tradicional sofreu nas últimas décadas, tornando-se pequenas ilhas, cada vez mais isoladas, nas ruas da cidade. Quando as cruzamos, somos convidados a entrar para, por breves momentos, sermos transportados na nostalgia de um tempo em que a vida citadina corria devagar e as pessoas calcorreavam as ruas para adquirirem coisas precisas e únicas que cada uma dessas lojas vendia. Ainda hoje é assim. Umas boas luvas de cabedal ou de pelica, por exemplo, de cores suaves ou extravagantes, manufaturadas com cuidado e que se adaptam a cada dedo da nossa mão como se fossem pele, onde encontrá-las senão na Luvaria Ulisses, a lojinha minúscula que ocupa 4 m2 no número 87 da Rua do Carmo? Abriu porta em 1925, desde então, manteve um estilo de fabrico artesanal de qualidade irrepreensível e o mesmo toque na atenção aos pormenores. Um deles são os arranjos gratuitos que fazem sem prazo de expiração. Outro, é a prova de calçar a luva, com o cotovelo pousado na almofada rija, e as ferramentas utilizadas a preceito, para que sejam ajustadas à medida da nossa mão. Um mimo.

Em matéria de confeção artesanal e rigor, outra loja que merece visita é a Chapelaria Azevedo, ao Rossio, a praça de excelência dos chapeleiros de Lisboa no final do XIX. Dessa memória já só nos resta a Azevedo, inaugurada em 1886 pela mão de Manuel de Azevedo Rua. Há cinco gerações que pertence a esta família, que a conserva tal como o era na sua época de ouro, quando ninguém podia andar na rua sem cobrir a cabeça. Ainda exibe os mesmos balcões em madeira e os armários de vidro, com grande variedade de chapéus de feltro e bonés de caxemira e em tweed, como pede a estação. No verão, são os panamás e as palhinhas que dominam a chapelaria, onde também se encontram bengalas e chapéus de festa para senhoras e cavalheiros.

Na rota dos tecidos e das manufaturas, vale a pena dar um salto à Avenida da República e espreitar a Casa Xangai, mesmo ao lado da Versailles. São os únicos estabelecimentos sobreviventes dos sublimes anos 20, sistematicamente destruídos nesta artéria da cidade. A Casa Xangai abriu portas em 1931 como alfaiataria de sedas e algodões da China e só em 1953 foi adquirida por Caetano Soares da Fonseca. Desde então, conserva-se na família. Do projeto inicial manteve-se o interior da loja e as fabulosas montras art déco assinadas pelo arquiteto Norte Júnior, mas mudou-se-lhe a vocação. De alfaiataria passou a loja dedicada a artigos para recém-nascidos devido à sua localização mesmo em frente à antiga maternidade Pro-Mater. Hoje, que escasseiam as bordadeiras, aqui ainda se fazem enxovais completos bordados à mão, de linho e piquet, irrepreensíveis, com cueiros e casacos tricotados em lã e os sapatinhos de festa. Um encanto.

Paradas no tempo

Mudando de agulhas e voltando à Baixa, vale a pena espreitar as velhas retrosarias, das poucas que ainda sobram na freguesia de São Nicolau. Na Rua da Conceição, os reis da festa ainda são os botões de mil variedades, os fios de lã, as linhas coloridas ou as fitas para debruar com motivos fantásticos. Tudo apresentado em gavetas, caixas e caixinhas, ou num escaparate que é um regalo para os olhos. Destacamos a Adriano Coelho, por ser a mais antiga, contando, esta sim, mais de cem anos.

Também património municipal, a Manteigaria Silva exige visita obrigatória. Mercearia fina dedicada aos produtos nacionais, tal como o nome indica, começou por vender manteiga e laticínios a peso, como tantas no seu tempo. Foi um matadouro, ainda no final do século XIX, depois um talho, passando a manteigaria, já em meados do século XX. A casa conserva a traça original e nas paredes tem penduradas fotografias a preto e branco que nos mostram como era. Não precisava. Mal se põe o pé na porta, é um mundo de cheiros e de ambientes que nos transporta para uma Lisboa antiga, onde o preço do bacalhau era acertado em balança de pesos e cortado em balcão de pedra lioz. Sem precisarem de carimbos gourmet para validar a qualidade dos produtos — dos azeites aos enchidos, dos vinhos e dos queijos à fruta fresca da estação ou aos frutos secos em grande variedade — aqui tudo apetece, tudo nos faz salivar. Incontornável, continua a ser a Casa Pereira, que já foi uma das confeitaria de luxo do Chiado e que desde 1933 se dedica à venda de chás, cafés, biscoitos e chocolataria fina, assim como os acessórios que lhe competem, como os bules e as louças de porcelana, ou as máquinas de vidro para fazer café em água aquecida com lamparina de álcool. Tudo se vende, avulso ou a peso e tem um selo de garantia de qualidade. Mas o melhor continua a ser o café, puro ou de mistura, podendo cada cliente compor o seu lote, moído na hora, deixando no ar o seu inconfundível aroma tropical.

Comércio justo

Na Baixa da Invicta, alheios à voragem do tempo, são ainda alguns os comerciantes que não medem a atividade só pela força do lucro. É o caso da Pérola do Bolhão, a joia da coroa das mercearias tradicionais da cidade. Fundada em 1917 por António Reis, é gerida até hoje pelo filho homónimo e pelo neto, amigos do comércio justo e devotos de produtos nacionais. Por detrás da fachada Arte Nova, com azulejos ilustrativos da rota das especiarias, no princípio o grosso das vendas eram o chá e o café, moído na hora. Até hoje, dos frutos secos aos cristalizados, do bacalhau ao leitão, tudo é pesado sob o olhar da fiel clientela. O último dos ilustres a fixar para a posteridade a inspiradora casa dos Reis foi Mario Testino, que escolheu o Porto como cenário de moda para a “Vogue” norte-americana, de dezembro. A dois passos, na comercial Santa Catarina, o Majestic Café, imóvel de interesse público, caminha a passos largos para os 100 anos de vida. Quando abriu, a 17 de dezembro de 1927, chamava-se Élite para vincar o seu estilo aristocrático. Da autoria de João Queirós, o seu salão de chá de lanches perfeitos, famoso pelas rabanadas, continua a encantar turistas e locais, com os seus espelhos e dourados, colunas e capitéis, sofás de couro e elegante jardim de inverno. Após anos de decadência, o Majestic mudou de mãos nos anos 80, para a família Barrías, que devolveu ao edifício, outrora frequentado por Teixeira de Pascoaes ou Leonardo Coimbra, o seu antigo esplendor. Já a chegar aos Clérigos, inaugurada em janeiro de 1906 por José Manuel de Sousa Lello, impõe-se pelo estilo neogótico a Livraria Lello & Irmão, a catedral do livro no olhar e nas palavras de Manoel de Oliveira e Agustina. Património Nacional, distinguida internacionalmente como “uma pérola de arte nova”, há muito quem diga que é a mais bonita livraria do mundo. Desde que a saga Harry Potter celebrizou a sua singular escadaria, a Lello regista, em média, cinco mil visitantes por dia, o que levou a histórica livraria, que alberga mais de 60 mil obras, a cobrar €3 de entrada dedutível em livros, para ajudar a pagar a pegada turística.

mário joão

ambém património municipal, a Manteigaria Silva exige visita obrigatória. Mercearia fina dedicada aos produtos nacionais, tal como o nome indica, começou por vender manteiga e laticínios a peso, como tantas no seu tempo. Foi um matadouro, ainda no final do século XIX, depois um talho, passando a manteigaria, já em meados do século XX. A casa conserva a traça original e nas paredes tem penduradas fotografias a preto e branco que nos mostram como era. Não precisava. Mal se põe o pé na porta, é um mundo de cheiros e de ambientes que nos transporta para uma Lisboa antiga, onde o preço do bacalhau era acertado em balança de pesos e cortado em balcão de pedra lioz. Sem precisarem de carimbos gourmet para validar a qualidade dos produtos — dos azeites aos enchidos, dos vinhos e dos queijos à fruta fresca da estação ou aos frutos secos em grande variedade — aqui tudo apetece, tudo nos faz salivar. Incontornável, continua a ser a Casa Pereira, que já foi uma das confeitaria de luxo do Chiado e que desde 1933 se dedica à venda de chás, cafés, biscoitos e chocolataria fina, assim como os acessórios que lhe competem, como os bules e as louças de porcelana, ou as máquinas de vidro para fazer café em água aquecida com lamparina de álcool. Tudo se vende, avulso ou a peso e tem um selo de garantia de qualidade. Mas o melhor continua a ser o café, puro ou de mistura, podendo cada cliente compor o seu lote, moído na hora, deixando no ar o seu inconfundível aroma tropical.

Comércio justo

Na Baixa da Invicta, alheios à voragem do tempo, são ainda alguns os comerciantes que não medem a atividade só pela força do lucro. É o caso da Pérola do Bolhão, a joia da coroa das mercearias tradicionais da cidade. Fundada em 1917 por António Reis, é gerida até hoje pelo filho homónimo e pelo neto, amigos do comércio justo e devotos de produtos nacionais. Por detrás da fachada Arte Nova, com azulejos ilustrativos da rota das especiarias, no princípio o grosso das vendas eram o chá e o café, moído na hora. Até hoje, dos frutos secos aos cristalizados, do bacalhau ao leitão, tudo é pesado sob o olhar da fiel clientela. O último dos ilustres a fixar para a posteridade a inspiradora casa dos Reis foi Mario Testino, que escolheu o Porto como cenário de moda para a “Vogue” norte-americana, de dezembro. A dois passos, na comercial Santa Catarina, o Majestic Café, imóvel de interesse público, caminha a passos largos para os 100 anos de vida. Quando abriu, a 17 de dezembro de 1927, chamava-se Élite para vincar o seu estilo aristocrático. Da autoria de João Queirós, o seu salão de chá de lanches perfeitos, famoso pelas rabanadas, continua a encantar turistas e locais, com os seus espelhos e dourados, colunas e capitéis, sofás de couro e elegante jardim de inverno. Após anos de decadência, o Majestic mudou de mãos nos anos 80, para a família Barrías, que devolveu ao edifício, outrora frequentado por Teixeira de Pascoaes ou Leonardo Coimbra, o seu antigo esplendor. Já a chegar aos Clérigos, inaugurada em janeiro de 1906 por José Manuel de Sousa Lello, impõe-se pelo estilo neogótico a Livraria Lello & Irmão, a catedral do livro no olhar e nas palavras de Manoel de Oliveira e Agustina. Património Nacional, distinguida internacionalmente como “uma pérola de arte nova”, há muito quem diga que é a mais bonita livraria do mundo. Desde que a saga Harry Potter celebrizou a sua singular escadaria, a Lello regista, em média, cinco mil visitantes por dia, o que levou a histórica livraria, que alberga mais de 60 mil obras, a cobrar €3 de entrada dedutível em livros, para ajudar a pagar a pegada turística.

Luvaria Ulisses

Rua do Carmo, 87. Tel. 213 420 295

Casa Xangai

Avenida da República, 19. Tel. 213 540 857

Chapelaria Azevedo

Praça Dom Pedro IV, 72. Tel. 213 470 817

Retrosaria Adriano

Rua da Conceição, 121-123. Tel. 213 426 818

Manteigaria Silva

Rua Dom Antão de Almada, 1. Tel. 213 424 905

Casa Pereira da Conceição

Rua Garrett, 38. Tel. 213 426 694

Mercearia Pérola do Bolhão

Rua Formosa, 279, Porto. Tel. 222 004 009

Majestic Café

Rua de Santa Catarina, 112, Porto. Tel. 222 003 887

Livraria Lello & Irmão

Rua das Carmelitas, 144, Porto. Tel. 222 002 037