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Lince-ibérico: um ano, nove sobreviventes e uma baixa

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O programa de reintrodução do lince ibérico em meio natural celebrou esta semana um ano. Nos montes alentejanos continuam a deambular nove dos 10 felinos ali libertados. Até agora, o projeto "está a ser um sucesso", garante o ICNF. Em janeiro a população nacional do felino em risco de extinção será aumentada com a introdução de mais seis exemplares

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Jacarandá e Katmandú encontraram-se pela primeira vez vez há um ano, num cercado na herdade das Romeiras, perto de Mértola. Ela, vinda do centro nacional de reprodução de linces ibéricos de Silves, ele nascido num centro idêntico em Espanha. A 16 de dezembro de 2014 formaram o primeiro "casal" de linces ibéricos reintroduzidos em meio natural em Portugal e continuam a viver nas imediações da herdade de caça próxima de São João dos Caldeireiro, sem reclamações sobre o habitat escolhido.

São vistos com frequência "a cumprimentar-se com marradinhas" ou "a miarem um pelo outro", conta Pedro Sarmento, um dos dois biólogos do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) que anda no terreno a monitorizar estes felinos que se distinguem pelas orelhas em forma de pincel, longos bigodes e cauda curta.

Katmandú comporta-se como o macho alfa da espécie em liberdade nos montes alentejanos. "Estabeleceu o seu território vasto nas proximidades do cercado das Romeiras e só deixa Jacarandá aproximar-se", conta o biólogo. Os outros encontraram "casa" nos terrenos contíguos, cada um com o seu, já que estes felinos são bichos "solitários, territoriais e pouco tolerantes com os exemplares do mesmo sexo", ou seja, se dois machos adultos se cruzarem no mesmo território há luta feroz.

Dos outros oito espécimes de Lynx pardinus libertados na região de Mértola ao longo do ano — Kempo, Kayakweru, Loro, Liberdade, Lluvia, Lagunilla, Luso e Lítio — um não sobreviveu. A fêmea Kayakweru acabou por morrer envenenada poucas semanas depois de sair do cercado. O caso está a ser investigado pelo ministério público.

UM CAÇADOR NATO

Lluvia é a fêmea que mais dispersou. "Saiu do Parque Natural do Vale do Guadiana para norte, foi até à Mina de S.Domingos, atravessou de novo o rio a nado e voltou a estabelecer-se no centro do Parque", relata Pedro Sarmento. O biólogo, que chega a dormir no campo "para não perder tempo em deslocações", sabe as características de cada um dos bichos que monitoriza.

No terreno, tem de verificar se as 40 câmaras estão a funcionar bem e se precisam de ser mudadas de lugar ou de pilhas novas e observa os comportamentos dos animais. "Os mais desconfiados são a Jacarandá e o Katmandu", confessa.

Loro e Lítio são dos machos mais seguidos e filmados por Pedro Sarmento que fez os vídeos aqui reproduzidos. São jovens e destemidos e convivem um com o outro ainda sem grande demarcação de território. Loro partiu uma pata há cerca de seis meses e teve de ser operado e ficar uns tempos em convalescença no centro de reprodução de Silves. Regressou ao matagal alentejano no final de outubro e revela-se um caçador nato.

Estes animais gostam especialmente de coelho-bravo e encontram-no em abundância nos montes da região de Mértola. "Mas também já aprenderam a caçar outras espécies, como aves aquáticas ou cervídeos", explica o biólogo. E quando apanham um animal maior, ficam vários dias a alimentarem-se da sua carcaça, não deixando que nenhum dos outros se aproxime.

Foi preciso tempo para Pedro e os outros técnicos do ICNF e do CIBIO (que formam as duas equipas de monitorização no terreno) aprendessem a seguir estes animais. "Não é possível aproximarmo-nos de todos eles e temos que fingir que não estamos interessados neles para não nos ligarem quando nos presentem", explica Pedro Sarmento.

Não foi filmada qualquer cópula entre estes felinos e, por enquanto, não há crias. Mas há três fêmeas que podem engravidar. Jacarandá, Lagunilla e Liberdade. As duas últimas tiveram recentemente o primeiro cio. Os acasalamentos já podem ter começado e prolongar-se para janeiro e se tudo correr bem, poderão aparecer crias na primavera.

UM PROJETO BEM-SUCEDIDO

"Temos uma taxa de sobrevivência de 90% e isso permite-nos dizer que o projeto de reintrodução está a ser um sucesso", afirma Pedro Sarmento. A ideia é corroborada por Sofia Silveira, vice-diretora do ICNF: "Fazemos um balanço muito positivo, já que há uma população bem estabelecida na região de Mértola".

Por isso, será nesta região que a partir de janeiro serão libertados mais exemplares de Lynx pardinus, no âmbito do projeto de conservação da espécie. Em 2016 seis fêmeas e três machos, nascidos em cativeiro em Espanha e Portugal, serão ali libertados dois a dois, adianta Sofia Silveira. "A expectativa do programa ibérico é alcançar uma população diversa e estável no território que permita que a espécie volte a ser viável em meio natural", acrescenta. O objetivo é ter ali uma população com 45 exemplares dentro de cinco anos.

O compromisso ibérico para a inversão do risco de extinção desta espécie no seu habitat natural já permitiu baixar o nível de risco de extinção. Na última revisão da lista vermelha das espécies ameaçadas, divulgada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em junho, o lynx pardinus passou de espécie "criticamente ameaçada" para "ameaçada". Porém, ainda "há um trabalho longo pela frente", assume a dirigente do ICNF.

Portugal e Espanha juntaram-se há meia dúzia de anos para devolver o lince-ibérico aos seus habitats naturais com o objetivo de criar quatro populações viáveis na península Ibérica: três em Espanha, na Andaluzia, Extremadura e Castela-La Mancha; e, para já, uma em Portugal (na zona de Mértola). Mas é preciso que cada uma destas populações tenha cerca de meia centena de exemplares para se poder falar em população viável.

O Plano de ação de conservação do Lince ibérico em meio natural conta com fundos comunitários, entre os quais €2 milhões do projeto Life Iberlince para serem usados entre 2012 e 2017. A estes acrescentam-se outros fundos para apoio agroflorestal e cerca de 400 mil euros anuais para manter o centro de reprodução em cativeiro de Silves a fornecer espécimes para mais tarde serem libertados na natureza. Neste momento existem em silves 30 exemplares, e a época de a casalamento começou agora.

OS DISPERSANTES

Em Espanha, já existem mais de três centenas de linces-ibéricos na natureza. Em Portugal, além dos nove que assentaram arraias no Alentejo, estimam-se atualmente dois linces errantes, oriundos das soltas feitas em Espanha.

Kahn e Kentaro, dois irmãos nascidos no centro nacional de reprodução de Silves (CNRLI), tinham sido soltos em Castilla La Mancha, mas retornaram a território português este ano, tendo percorrido mais de 1500 quilómetros. Khan desapareceu do radar há já algum tempo e suspeita-se de que a pilha da coleira transmissora tenha deixado de funcionar. Já Kentauro, anda a norte entre a região de Vila real de Trás-os-Montes e a Galiza.

"O comportamento destes dois linces ibéricos vem também confirmar o conhecimento de que um animal sem território definido pode percorrer grandes distâncias", explica Sofia Silveira, o ICNF. Porém, explica, "estes animais dispersantes pouco valor têm para o programa de reprodução na natureza". Por isso, uma equipa de técnicos espanhóis e portugueses tentaram apanhá-lo esta semana para o levarem de volta à comunidade de Castilla La Mancha, mas sem sucesso.

Outro dos exemplares que deambulou por Portugal nos últimos três anos foi Hongo, um macho nascido em Doñana que viveu uns tempos perto de Vila Nova de Mil Fontes e acabou atropelado na A23, próximo de Vila Nova da Barquinha, em outubro último. A sua passagem pelo território luso permitiu comprovar a capacidade da espécie transpor barreiras e usar habitat menos favorável.

A sua morte por atropelamento rodoviário relembrou que as estradas são das principais ameaças o que reforça a necessidade do trabalho de prevenção e sensibilização "para uma condução responsável e segura nas nossas estradas". Em parceria com a Infraestruturas de Portugal, o ICNF tem feito o levantamento dos "pontos negros dos eixos rodoviários com maior risco" de atropelamento de animais, sobretudo no concelho de Mértola, onde em parceria com a Estradas de Portugal foram colocados vários sinais de trânsido a alertar os condutores para o perigo de se atropelar um lince-ibérico.