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Um lugar onde todos são campeões do mundo

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LUCÍLIA MONTEIRO

André M. Correia

O relógio marca as 16h30. No interior de uma sala, várias pessoas estão atarefadas com os preparativos para a Festa de Natal. Todas colaboram com o mesmo entusiasmo e ultimam-se os preparativos para o “momento alto do ano”, no qual apresentarão uma peça de teatro.

No Centro de Atividades Ocupacionais (CAO) das Antas, que juntamente com outros três compõe a Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) do Porto, os vários utentes com deficiência intelectual trabalham em grupo. Rúben, um dos mais entusiasmados, mostra os cantos da casa e apresenta os colegas. “São todos meus amigos”, garante. Ali os abraços e as manifestações de afeto são permanentes, explica ao Expresso a diretora geral da associação, Teresa Guimarães.

Chega a hora do lanche e na sala, entretido no computador, apenas fica Nuno Fernandes, 24 anos, portador de Síndrome de Down e residente na associação. Para além dos quatro centros de atividades, a instituição possui também quatro lares residenciais cedidos pela Câmara Municipal do Porto. “É um menino que está connosco desde os cinco anos, que vive na nossa residência, e que tem muito jeito para o desporto”, destaca Teresa.

Nuno tem mesmo muito "jeito" e entre 22 e 28 de novembro esteve na África do Sul a representar Portugal no 3.º Campeonato do Mundo de Atletismo IAADS (para pessoas com Síndrome de Down), onde obteve uma medalha de ouro, outra de prata e ainda uma de bronze, para além de ter batido um recorde mundial e outro europeu.

“Quero ganhar ainda mais medalhas”, afirma prontamente Nuno, que treina todas as terças e quartas-feiras, bem como ao fim de semana. Atualmente já só pensa nos Jogos Paralímpicos de 2016 que se vão disputar no Rio de Janeiro, cidade brasileira de onde diz querer trazer “a taça”.

Tem um ídolo. Chama-se Cristiano Ronaldo. “Dou uns toques como ele”, atira. Além do atletismo e do gosto pelo futebol, Nuno Fernandes pratica ténis e natação. O incentivo à prática desportiva é uma das características da APPACDM, onde os utentes têm também a oportunidade, entre outras atividades, de aprender a andar a cavalo.

“Quando conseguimos financiamento, organizamos colónias de férias”, refere o psicólogo e coordenador técnico do centro, Rui Duarte. Sobre a motivação que sente para desempenhar este trabalho, explica que “o mais enriquecedor é saber que a vida de uma pessoa é significativa para vida de muitas”.

Teresa e Rui, bem como os 131 colaboradores, não puderam acompanhar Nuno até à África do Sul, mas à chegada a Portugal lá estavam para o receber. “É muito importante para ele sentir que a família, que somos nós, está ali a torcer por ele”, conta a diretora.

O psicólogo, que tem acompanhado de perto Nuno Fernandes desde muito novo, relembra também o momento em que o atleta se sagrou campeão europeu, destacando que nunca o viu “gabar-se” das vitórias.

As pequenas grandes vitórias coletivas

LUCÍLIA MONTEIRO

Nesta instituição existem pessoas com diversas deficiências intelectuais e em alguns casos também motoras. Todas elas se superam e batem os seus próprios recordes. Há quem aprenda a tomar banho de forma autónoma, quem seja capaz de jogar ténis em cadeiras de rodas adaptadas, ao ponto de num ou outro caso as próprias famílias ficarem incrédulas.

“Nós temos o caso de uma pessoa que frequenta o nosso centro e que quando para aqui veio não andava. Os pais acreditavam que nunca iria conseguir. Houve um dia em que uma das nossas colaboradoras ligou para os pais desta utente e pediu-lhes que comprassem uns sapatos para a filha. E eles perguntaram: ‘Mas uns sapatos para quê?’ A nossa colaboradora apenas lhes disse: ‘Os senhores venham ver!”, narra orgulhosamente Teresa Guimarães.

Há um ano, a associação recebeu uma visita inesperada, alguém que “entrou na sala abraçando todos os meninos como se fossem dele”, recorda a diretora. Essa visita foi a do treinador de futebol André Villas-Boas, que se tornou padrinho da instituição e que liga constantemente para perguntar como estão "os nossos meninos" e se precisam de alguma coisa.

Agora, os “meninos” já só pensam nos preparativos para a Festa de Natal, que se realiza amanhã. O padrinho vai lá estar. E existem tantas vitórias para lhe contar.