Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Ex-espião diz que secretas faziam coisas mais graves do que aceder a listas de chamadas

  • 333

nuno botelho

Jorge Silva Carvalho assegurou esta quinta-feira em tribunal que obter registos telefónicos em qualquer operadora era fácil nos serviços secretos. “Era uma praxis habitual.” E sublinhou que os espiões faziam “coisas mais graves” do que essa

O ex-diretor-geral do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), o braço externo das secretas portuguesas, disse esta quinta-feira de manhã que os agentes operacionais, pelo menos até ter abandonado as suas funções em 2010, faziam “coisas mais graves” do que aceder ilegalmente a registos telefónicos de cidadãos. Essa era, aliás, uma “praxis habitual”, disse, respondendo às perguntas de um dos advogados de defesa. Mas não esclareceu que “coisas mais graves” seriam essas.

Em mais uma sessão do julgamento do caso das secretas, em que está acusado de violação do segredo de Estado, abuso de poder, corrupção e acesso ilegítimo a dados pessoais, Silva Carvalho afirmou que era possível nos serviços obter a faturação detalhada do telemóvel de qualquer pessoa em Portugal e que isso era tão fácil de obter na Vodafone ou na Meo como na Optimus (atual Nos), reforçando o que já dissera há semanas quando foi interrogado pela juíza Rosa Brandão.

O ex-espião garantiu que não havia forma de o então diretor operacional do SIED, João Luís, também arguido no processo, ter recusado a ordem que lhe deu para obter os registos telefónicos de um jornalista do “Público”, Nuno Simas, em agosto de 2010, com o objetivo de descobrir quem seriam as suas fontes dentro dos serviços. “Se o dr. João Luís tivesse recusado, teria sido afastado do lugar de diretor operacional”, disse. “Mas não havia sequer margem para isso”, esclareceu, justificando que havia uma cultura nos serviços em que se incentivava o recurso a meios ilegais.

O principal arguido do caso afirmou que essa cultura de uso de meios ilegais existia sobretudo no SIS, o braço nacional dos serviços, onde começou como agente operacional no início dos anos 90. Silva Carvalho acrescentou que o recurso a métodos ilegais fazia parte da doutrina interna e que isso aconteceu durante todo o período em que o SIS foi chefiado por procuradores, juízes ou professores de Direito. “Houve muito pensamento feito sobre isso.” E referiu alguns nomes: o ex-ministro socialista Rui Pereira, o procurador Daniel Sanches, os juízes Antero Luís e Margarida Blasco ou António Teles Pereira, juiz do Tribunal Constitucional.