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Expresso

Sociedade

Governo avança com equipas dedicadas na urgência

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Nuno Fox

Hospitais vão ter médicos com funções exclusivas no atendimento de casos urgentes. Medida tem como objetivo melhorar o tempo de resposta

A época festiva que se aproxima pode ser a última com as habituais dificuldades em garantir todos os médicos necessários para as escalas das urgências. O secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, anunciou esta quarta-feira que os hospitais públicos vão ter equipas dedicadas ao atendimento SOS, em alguns casos em todo o serviço e noutros integradas num modelo misto, juntando o atual escalonamento rotativo.

A medida já existe em alguns hospitais e tem sido proposta por vários especialistas e responsáveis do sector, caso do Sindicato Independente dos Médicos. Tem como objetivo garantir uma resposta mais célere aos utentes, muitas vezes penalizados por 'buracos' nas escalas. A concretização deverá acontecer ao longo dos próximos três anos e sob a orientação do coordenador nacional para a reforma dos cuidados de saúde hospitalares, António Ferreira.

O também presidente do Centro Hospitalar de São João, no Porto, foi um dos três especialistas convidados pelo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, para concretizarem a reforma que o Governo pretende para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). E esta quarta-feira apresentaram as prioridades para os cuidados hospitalares, primários e continuados integrados. "Esta não é uma nomeação para um grupo de trabalho. São pessoas com muita experiência e que nos vão ajudar a executar as medidas de acordo com o programa do Governo", afirmou o secretário de Estado Fernando Araújo.

Na rede hospitalar, a alteração do modelo de funcionamento da urgência é apenas uma das prioridades. António Ferreira referiu a melhoria da acessibilidade, da transparência, da qualidade e da eficiência, autonomizar e responsabilizar os gestores ou apostar muito na governação clínica. "Tudo para se avançar para a opção estratégica de um mercado interno para que os hospitais possam interagir e ajudar-se nas respostas aos cidadãos." Por outras palavras, permitir que o utente possa ser atendido onde a capacidade de resposta é maior e, logo, a espera menor.

SNS dotado de “afabilidade”

Henrique Botelho, médico de família e dirigente da Federação Nacional dos Médicos, fica encarregado de iniciar "um novo ciclo" nos cuidados primários. O objetivo prioritário é "tentar relançar a reforma iniciada no terreno em 2005/06 com a criação das Unidades de Saúde Familiar (USF), dando acessibilidade a um sistema de qualidade de cuidados e também introduzir afabilidade". E "isto é o mais verdadeiramente importante da reforma: maior acesso, maior qualidade, maior afabilidade".

Entre os aspetos mais práticos estão, por exemplo, mais USF e equipas de saúde familiar, com o enfermeiro a assumir um papel mais relevante; a expansão da figura do secretário clínico - que já existe nas USF e que faz a ponte entre o utente e os cuidados -, o reforço da resposta com meios complementares de acesso (como análises clínicas e exames do foro respiratório) e a assistência em psicologia, nutrição ou saúde oral.

No último elo do sistema de saúde estão os cuidados continuados integrados, a expandir com especial enfoque na saúde mental e na área pediátrica. A execução do plano está entregue a Manuel José Lopes, um dos coordenadores do Observatório Português dos Sistemas de Saúde e investigador na Universidade de Évora.

Mais cuidados no domicílio

"20% da população portuguesa é idosa e temos de encontrar uma resposta", disse o Coordenador Nacional para a Reforma dos Cuidados Continuados Integrados durante a apresentação das medidas centrais. "A falta de cuidados continuados é quase escandalosa."

Manuel José Lopes adiantou que a assistência no domicílio é essencial. "O objetivo é aproveitar a totalidade das equipas de cuidados continuados domiciliários, porque as suas capacidades só estão aproveitadas em 50% a 60%. Há uma clara necessidade de organização para aumentar a resposta em casa das pessoas, o local onde se sentem bem."

A mesma necessidade de articulação é proposta para o encaminhamento de doentes dos hospitais para a rede de cuidados continuados. Mais difícil será, no entanto, a assistência aos doentes mentais e aos menores. Manuel José Lopes explicou que "estas são áreas que nunca chegaram a ir para o terreno". "Falta fazer quase tudo, embora no papel esteja quase tudo feito." E sublinhou: "É preciso voltar a incutir esperança nas pessoas."