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Sócrates e o tema-tabu do dinheiro: seu ou do amigo, dado ou emprestado?

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Rui Duarte Silva

Até agora, o ex-primeiro-ministro não se explicou em público sobre como e por que é que viveu acima das suas possibilidades à custa do amigo Carlos Santos Silva, defendendo que isso é um assunto privado. Será que o vai fazer esta terça-feira à noite?

Sempre evitou, até ao momento, ir por aí: falar do dinheiro que o amigo Carlos Santos Silva, empresário da construção civil e de obras públicas, lhe foi cedendo de forma regular nos últimos anos. E essa é expectativa para a segunda parte da entrevista que José Sócrates concedeu à TVI e que vai para o ar esta terça-feira à noite, no Jornal das 8. Será que vai esclarecer o assunto agora?

Das duas únicas vezes em que aflorou o tema, a primeira foi precisamente numa entrevista à TVI, concedida por escrito e divulgada a 2 de janeiro, quando se encontrava em prisão preventiva na cadeia de Évora. Na altura disse: “Face a algumas dificuldades de liquidez que atravessei em certos momentos, sobretudo desde que tive parte da minha família em Paris e eu próprio vivi entre Lisboa e aquela cidade, recorri várias vezes a empréstimos que o meu amigo Carlos Santos Silva me concedeu para pagar despesas diversas.”

Um mês depois, a 3 de fevereiro, numa entrevista à SIC, também por escrito, acrescentou: “O facto de ter tido dificuldades de liquidez num certo período da minha vida não significa que não tivesse um horizonte financeiro, pessoal e familiar, compatível com o meu nível de despesas.” E aproveitou para contra-atacar a tinta que corria nos jornais acerca dos seus gastos elevados: “Tínhamos de acabar aqui: no meu estilo de vida, que dizem dispendioso, na crítica de costumes e no julgamento moral que inspira desde o início toda a campanha do Correio da Manhã contra mim. Não admito, nem alimento, esses julgamentos. Nem sequer para comentar a mesquinhez dos que acham que é um luxo tirar um mestrado em Sciences Po ou ter filhos a estudar numa escola estrangeira.”

Pelas contas do Ministério Público, só em dinheiro vivo o ex-primeiro-ministro terá recebido do amigo 670 mil euros entre 2013 e 2014, tendo sido identificadas 40 entregas em envelopes. Depois houve o resto: quase 90 mil euros de transferências bancárias para o seu motorista, por exemplo; ou 200 mil euros em pagamentos de voos e estadas em alojamentos. Ao todo, através de 10 esquemas diferentes, de forma direta e indireta, Sócrates terá recebido 1,5 milhões de euros de Santos Silva. Sem contar, entre outras coisas, com o apartamento em Paris de três milhões de euros, comprado em nome do amigo e que o procurador Rosário considera que é alegadamente do arguido principal da Operação Marquês.

Quando vendeu o seu apartamento no edifício Heron Castilho, na rua Braancamp, em agosto deste ano, por 675 mil euros, um dos seus advogados, João Araújo, disse ao Expresso que o valor era suficiente para cobrir integralmente aquilo que o seu cliente considerava estar a dever a Carlos Santos Silva. Entretanto, em outubro o ex-primeiro-ministro informou o Ministério Público que pagou nessa altura 250 mil euros ao amigo. Mas qual é o valor que ambos consideram ser a dívida entre os dois? E quanto falta pagar? Dúvidas que Sócrates tem agora a oportunidade de pôr a limpo.