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Sócrates: confissões, interpretações e omissões sobre a vida faustosa

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Rui Duarte Silva

O ex-primeiro-ministro foi a jogo na segunda parte da entrevista que deu à TVI para falar sobre o dinheiro que o amigo Carlos Santos Silva, segundo ele, lhe emprestou. Mas ficou muito por dizer

Depois de mais de uma hora a ser entrevistado na noite desta terça-feira na TVI, a juntar-se a uma outra hora de entrevista que já tinha ido para o ar na segunda-feira, José Sócrates conseguiu chegar ao fim sem dizer quanto, afinal, é que considera que ficou a dever a Carlos Santos Silva, o amigo e empresário de construção civil que, tal como o ex-primeiro-ministro, está indiciado por corrupção, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. São 600 mil? 500 mil? Menos? A dada altura, disse: “Paguei para já 250 mil euros ao meu amigo e vou pagar-lhe o restante. As contas ainda não estão completamente saldadas”.

Essa afirmação significa duas coisas: a primeira é que esse valor não foi anotado à medida que o dinheiro foi sendo emprestado. E, por outro lado, que, ainda não o estando, a dívida estará quase paga. Mas com um montante muito diferente dos 670 mil euros contabilizados pelo Ministério Público como dizendo respeito apenas a entregas feitas em dinheiro vivo ao antigo governante pelo seu amigo. E que excluem muitas centenas de milhares de euros relativos, entre outras coisas, a despesas de viagens ou transferências bancárias para o seu ex-motorista.

Houve, além disso, um outro detalhe sobre as finanças pessoais de Sócrates que não tinha sido, até agora, assumido de forma clara pelo principal arguido da Operação Marquês. Pelo menos, em público. O ex-primeiro-ministro dispôs-se a explicar como é que se sustentou entre junho de 2011 e dezembro de 2012. Isto é, ao longo de apenas um ano e meio, desde que foi viver para Paris tirar um mestrado em Sciences Po. Contou que viveu de um empréstimo de 120 mil euros contraído na Caixa-Geral de Depósitos (uma situação referida diversas vezes por si em ocasiões anteriores), acrescentando que além disso teve ainda disponível o dinheiro dado pela sua mãe correspondente a 75% do valor recebido por Maria Adelaide Monteiro quando vendeu (por 600 mil euros) em 2012 o apartamento onde vivia a Carlos Santos Silva.

Pelo que se percebe da entrevista, esse dinheiro foi todo gasto na altura. Apesar de ter omitido o facto de o amigo ter comprado em 2011 outros dois apartamentos à mãe de Sócrates, de cujo dinheiro beneficiou, o ex-primeiro-ministro disse que em 2013 as suas despesas “cresceram muito” e que, então, teve de recorrer aos empréstimos do amigo. O que significa que admitiu ter gasto 570 mil euros num ano e meio, num contraste difícil de justificar com as acusações que fez relativamente àquilo que considera ter sido uma campanha difamatória por parte do jornal Correio da Manhã, a propósito da vida faustosa que terá levado em Paris.

No meio desses factos, foi ainda capaz de ironizar sobre o assunto com o jornalista José Alberto Carvalho, que conduzia a entrevista: “Sabe o que é ter uma vida faustosa?” É ir tirar um mestrado para Paris. E querer que os filhos acabem o liceu num escola internacional.” Dois argumentos que já tinha usado há quase um ano, de forma sucinta, quando em janeiro deu a sua primeira entrevista, precisamente à TVI, por escrito, a partir da cadeia de Évora. Mas que dizem pouco sobre como é possível não levar uma vida faustosa gastando 100 vezes o salário de um primeiro-ministro em apenas 18 meses.