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Sócrates: as imputações do Ministério Público entraram numa fase “abracadabrante”

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Maário Cruz

O antigo primeiro-ministro negou que os 23 milhões de euros depositados na Suíça até 2010 sejam seus. “"Esse dinheiro não é meu, é do meu amigo Carlos Santos Silva. Ponto final”. Admitiu também, no futuro, agir contra o Estado português e pedir uma indemnização

Na segunda parte da entrevista que concedeu à TVI, que foi para o ar esta terça-feira à noite, no Jornal da 8, o ex-primeiro acusa o Ministério Público de “inventar” indícios contra si. José Sócrates diz que depois de não terem encontrado nada contra si sobre uma alegada corrupção a favor do Grupo Lena, o procurador Rosário Teixeira virou-se para os contornos como foi aprovado o Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROTAL), que teria beneficiado o resort de luxo Vale do Lobo, no Algarve.

"Como não encontraram nada no Grupo Lena viraram-se para Vale do Lobo. A investigação entrou numa área abracadabrante. Fui confrontado com isso com total estupefação no segundo interrogatório a que foi sujeito”, considerou.

O antigo governante admitiu agir contra o Estado português no futuro, no sentido de pedir uma indemnização, mas disse que não era ainda o momento para pensar nisso. Sócrates lamentou “quebras sucessivas” de normas de respeito por parte do Ministério Público. E lembrou que “o caso Freeport nasceu no gabinete do então primeiro-ministro Santana Lopes” e que “a história das escutas nasceu na Casa Civil do presidente da República [Cavaco Silva]”, acrescentando que tudo isso "sugere uma ação deliberada" para prejudicar o partido socialista e para afastá-lo da vida política.

O “melhor amigo” Carlos Santos Silva

José Sócrates negou que seja o verdadeiro dono de 23 milhões de euros depositados na Suíça até 2010 em contas cujo beneficiário era o seu amigo Carlos Santos Silva, uma tese defendida pelo procurador Rosário Teixeira, o coordenador da investigação da Operação Marquês. "Esse dinheiro não é meu, é do meu amigo Carlos Santos Silva. Ponto final”. O ex-primeiro-ministro disse que “é muito difícil para certas pessoas dar o braço a torcer”. E questiona: "Passa pela cabeça de alguém que eu tivesse 23 milhões de euros numa conta escondida e não tivesse um único papel que comprovasse que o dinheiro era meu?"

O principal arguido da Operação Marquês recordou, sobre os indícios de corrupção relacionados com o Grupo Lena, de que Carlos Santos Silva foi administrador: “ inda existe uma escuta de eu pedir uma reunião para a Lena, como se isso fosse algum crime ou pudessem apresentar isso aos portugueses... ah, vamos prender o vosso ex-primeiro-ministro porque ele se atreveu a marcar uma reunião em Angola para uma empresa portuguesa. Eu fiz para Angola como fiz para a Venezuela, para o Brasil, a várias empresas que me pediram isso.”

Sócrates negou também que alguma vez tivesse estado na origem do RERT II, o regime especial em 2010 que permitiu a Carlos Santos Silva repatriar os 23 milhões de euros que tinha escondidos na Suíça pagando apenas 5% de impostos. “Não tive nada a ver com isso. Foi uma decisão do Ministério das Finanças”.

Quanto à venda, em 2012, do apartamento da mãe ao amigo Carlos Santos Silva, Sócrates justificou que Adelaide Monteiro sentia-se sozinha e quis ir viver para Cascais. “Foi vendido por 600 mil euros. Dizem que é alto? Mas tenho uma novidade: eu vendi o meu apartamento, no mesmo prédio, por 675 mil euros.” Mas o ex-primeiro-ministro não referiu a compra por Santos Silva, um ano antes, de outros dois apartamentos que a mãe também possuía no Cacém.

A “vida faustosa” em Paris

“Sabe o que é ter uma vida faustosa? É ir tirar um mestrado para Paris. E querer que os filhos acabem o liceu num escola internacional.” Foi assim que José Sócrates classificou os gastos que teve nos últimos anos e que justificaram recorrer ao dinheiro do amigo Carlos Santos Silva, acusando o jornal Correio da Manhã de fazer uma campanha de difamação contra ele por causa do seu modo de vida.

Sócrates assumiu que desde que saiu do governo, em junho de 2011, e o final de 2012, viveu com 570 mil euros. De um primeiro empréstimo de 120 mil euros contraído junto da Caixa Geral de Depósitos e de 450 mil euros dados pela sua mãe, correspondentes a 75% da venda do apartamento de Maria Adelaide Monteiro a Carlos Santos Silva por 600 mil euros.“Do que é eu vivi? Quais foram os meus rendimentos? Basicamente da doação da casa da minha mãe. Foram cerca de 400 mil euros.”

“A partir de 2013 comecei a trabalhar e comecei a ganhar dinheiro. E ganhava razoavelmente. Mas a verdade é que em 2013 o meu filho mais novo ainda estava em Paris e eu estava em Lisboa as minhas despesas cresceram muito”, contou o ex-primeiro-ministro para justificar o dinheiro que o amigo passou a entregar-lhe.

Sócrates explicou: “Em 2013, apesar de eu já estar a trabalhar, recorri a empréstimos do meu amigo Carlos Santos Silva. Lembro-me bem de conversar isso com ele. Eu planeava hipotecar de novo a minha casa, mas ele disse-me que isso não era necessário, porque tinha meios que me podia emprestar. E que depois eu lhe pagaria quando pudesse”.

O ex-primeiro-ministro começou por dizer que tem uma "ideia precisa” sobre quanto deve ao amigo, mas não chegou a revelar o montante em causa. E acabou por confessar: “As contas ainda não estão completamente saldadas, mas eu preciso de conversar com ele para saber exatamente quanto é que ainda lhe devo”. O antigo governante contou que há detalhes a discutir com Santos Silva, como o funeral do irmão. “Aceitei que pagasse o funeral. Eram amigos. Não sei se ele quer incluir isso nas contas, admito que não.”

PS ficar de fora das presidenciais “significa favorecer Marcelo”

Ainda sobre a relação financeira com Santos Silva, o arguido principal da Operação Marquês sublinhou que essa relação deriva do nível de amizade que existe entre os dois, adiantando que se trata do seu melhor amigo fora da política: “Eu aceitei ser ajudado por um amigo de há 40 anos, por um amigo com quem tenho uma relação fraternal, por um amigo de quem frequento a casa, com quem passo férias, e ele emprestou-me dinheiro durante cerca de um ano.” E assegurou que já começou a pagar-lhe o que deve. “ Quando estive preso em Évora, vendi a minha casa e paguei para já 250 mil euros ao meu amigo. E vou pagar-lhe o restante."

A parte final da entrevista, que ao todo, entre as edições do Jornal da 8 de segunda e terça-feira, durou mais de duas horas, foi dedicada a discutir a atualidade política. Sócrates confessou que não sabe em que irá votar nas eleições presidenciais. E deixou uma crítica: “O Partido Socialista não pode ficar ausente destas eleições presidenciais. É a primeira vez que o PS tem a atitude de não apoiar ninguém. Ficar de fora significa favorecer Marcelo Rebelo de Sousa.”

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