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Preso angolano radicaliza greve de fome contra “palhaçada do julgamento”

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Rede Angola

Sedrick de Carvalho, um dos 15 ativistas angolanos presos desde 20 junho, escreve carta aberta onde anuncia greve total de fome, incluindo de beber água, e recusa sair da cela e receber visitas

O jornalista e preso politico Sedrick de Carvalho, de 26 anos, que juntamente com Luaty Beirão e outros 15 ativistas angolanos está a ser julgado sob acusação de coautoria de atos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o presidente José Eduardo dos Santos, escreveu uma carta onde afirma que está outra vez em greve de fome, recusando inclusive água. Em três páginas, Sedrick diz que a partir de agora nega-se a sair da cela, a receber toda e qualquer visita, entrando numa "paralisação completa", que pode levá-lo até a "optar pelo suicídio".

De acordo com a sua mulher, Neusa Carvalho, de 24 anos, nem ela Sedrick quis receber. "Fui lá e ele não quis sair para me ver. Pedi para lhe dizerem que tinha levado a nossa filha e só assim ele aceitou vir cá fora, mas quando percebeu que eu tinha mentido, nem sequer quis falar comigo". Neusa Carvalho garante ao Expresso que há "muita gente" junto de Sedrick, "inclusive um psicólogo".

Neusa, que há dois dias tentara sem sucesso dissuadir o marido de escrever a carta e de tomar atitudes drásticas, revela que "ele está muito cansado, revoltado e afetado psicologicamente com tudo o que se está a passar". Farto da morosidade do julgamento, Sedrick escreve que toma esta decisão "Pelos constantes abusos e violações dos Direitos Humanos que se registam há 6 meses (…) Pela ininterrupta humilhação e desrespeito às nossas famílias (…) Pela palhaçada que se verifica em pleno julgamento da Ditadura contra a Democracia (…)".

Emocionada e "sem saber o que possa fazer mais", Neusa Carvalho diz que vai levar a filha de dois anos à visita de amanhã, na tentativa de chamar o marido para outra realidade, a de que "tem mulher e filha em casa à espera dele".

No final da carta, antes de mencionar a possibilidade de cometer suicídio Sedrick dirige-se diretamente ao juiz que está a conduzir o julgamento - "Autorizo e recomendo ao juiz Januário Domingos que me condene já, mesmo sendo eu inocente, pois não acredito em decisão contrária em Ditadura" -, por não acreditar na justiça do mesmo.