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O padre que se dizia mulher e baralhou a Inquisição

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Retrato-robô do padre Pedro Furtado, concebido através das descrições feitas nos autos do processo inquisitorial

Os amantes disseram que se deitaram com uma mulher, sabedores de que, fora da cama, era um padre… Pedro Furtado, “pregador de fama”, foi preso pela Inquisição. E o Santo Ofício concluiu não ser obra do Diabo. Esta é a terceira história de uma minissérie do “Crime à Segunda”, até ao regresso de mais uma temporada longa de criminosas portuguesas

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Roberto

João Roberto

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Primeiro negou, depois disse-se vítima de difamação. De seguida, confessou fazer-se passar por mulher para seduzir rapazes, sem ser sodomita, que sabia ser crime para pena de morte. Todos os oito amantes interrogados juraram que se tinham deitado com uma mulher, sabedores de que, fora da cama, era um padre... Os médicos só lhe detetaram o "instrumento de homem" e os inquisidores do Santo Ofício ficaram baralhados. A ciência ganhou, Pedro Furtado livrou-se da fogueira.

Trabalhava há três dias em Lisboa, na casa de Pedro Furtado, como mordomo, quando este lhe pediu que lhe catasse a cabeça, depois do jantar. Não estranhou: nesta altura - ano de 1695 - era habitual pedir a alguém que inspecionasse cabelos alheios - era o remédio mais eficaz contra os piolhos. Nisto, o padre disse-lhe que lhe queria confidenciar um segredo, fazendo-o prometer que jamais o contaria. António Simões assim jurou, pondo a mão em cima de um breviário.

Antes de lhe contar o que quer que fosse, o padre de 43 anos começou a seduzir o rapaz de 25: apalpou-o, beijou-o... Meia hora depois, levou-o para a cama e este teve uma experiência idêntica à se se tivesse deitado com uma mulher. Levaram, neste namoro, os 40 dias destinados à preparação da Páscoa, período de jejum, oração e conversão para os católicos; de fevereiro a abril, toda a quaresma nestes atos sexuais, contará o “homem de pé”, como se designava a sua função, quando trair Pedro, pressionado por outro padre e enciumado por não ser o único amor.

Alguns dos lugares por onde andaram as personagens do processo do padre Pedro Furtado, datado do final do século XVII

Alguns dos lugares por onde andaram as personagens do processo do padre Pedro Furtado, datado do final do século XVII

António Simões revelará o segredo dois meses depois da jura e no pior local, na casa do despacho da Inquisição. Não se sentia bem com a sua consciência, os seus atos iam contra os preceitos religiosos que aprendera, por isso dissera ao amante pretender confessar-se a outro padre. Furtado convenceu-o de que não precisava de mais ninguém, ele próprio era padre, possuía competências para o ouvir em confissão, não seria a primeira vez, além disso podia absolvê-lo, completamente, sem penitências.

A todos os outros amantes, que serão interrogados pelos inquisidores, Pedro Furtado aconselhara que, em confissão, não dissessem ter “dormido com homem mas com mulher”. Quando forem ouvidos, sustentarão que se envolveram com ele “por diante sempre e não por trás”. Darão pormenores. Era Furtado que guiava o amante, “metendo-lhe o seu membro viril dentro, e derramando semente nele como com qualquer mulher, e não achando nele diferença nenhuma sendo vaso de mulher e que lhe não achara coisa nenhuma de homem palpando algumas vezes”.

Mais tarde, já réu, dirá Furtado, numa mudança de estratégia de defesa, ter momentos em que enlouquecia, devido a uma doença que em tempos tivera e que lhe “deixou lesão no entendimento”. Em certas “ocasiões de Luas se lhe tira o entendimento totalmente” e em outras “não fica totalmente sem ele”. Quando, por exemplo, aconselhava à mentira, ou os ameaçava de morte, atravessava um desses momentos de falha de lucidez. O que estranharão os inquisidores é que Furtado se lembrasse dos momentos de loucura, já que “quando o entendimento fica totalmente perturbado, também a memória fica lesa de sorte”. Pelo que sucedia aos outros, o padre não podia responder, “por si sabia” que se recordava desses momentos, apesar de “imperfeitamente e com muita confusão”.

“SE DEITAVA ESTE COM O SOLDADO NA CAMA TODAS AS NOITES”

Em 1695, Pedro Furtado vivia em Lisboa, tinha “a ocupação de ensinar a doutrina aos mouros, e negros, de sua Majestade”. E mantinha uma outra ligação secreta, que durou cerca de seis meses, com um rapaz de 25 anos, um soldado da companhia de proteção aos navios mercantes, a nacionalizada Companhia do Comércio do Brasil, que em 1657 fora integrada na Junta do Comércio. “Se deitava este com o soldado na cama todas as noites”, contou António Simões.

"A Inquisição em Portugal", gravura a cobre de Jean David Zunner, datada do século XVII

"A Inquisição em Portugal", gravura a cobre de Jean David Zunner, datada do século XVII

Wikipédia

O soldado chamava-se Domingos Ribeiro e não chegará a ser ouvido. Quando Furtado desmentir a sua segunda confissão, dirá que não valia a pena irem ouvir o testemunho de um "inimigo capital”. Contará que, quando este o deixou, ofereceu nove mil réis a "um mulato del rei", para o fazer desaparecer, mas não levou o plano até ao fim. Aliás, para provar serem naturais as invenções a seu respeito, admitiu ainda ter tentado envenenar outro soldado, no verão de 1697, quando residia de novo em Sambade, principal lugar da comarca transmontana de Chacim, onde era padre intermitente desde que deixara os jesuítas, por volta de 1682.

Pusera rosalgar, sulfureto natural de arsénio, no pote que toda a família de Marcos Vilares usava para fazer a comida. Ao fim de 14 ou 15 meses de relação, culpava-o pelo boato difamador; ele apenas lhe dissera ser mulher para o “convencer a ter atos libidinosos”. Estas declarações são da segunda confissão, quando Furtado aproveitou para colocar outras testemunhas em causa. Algumas tinham-no visitado em busca de aconselhamento, uma vez que ele ostentava, desde 1697, uma autorização do rei Pedro II para exercer direito, por falta de advogado no distrito de Bragança. Em vão dirá que os habitantes da região eram todos “malcriados e rústicos”.

“E a muitos quiseram matar, sem mais causa que a repreensão que lhes faziam”, especificará Furtado, expondo o caso de um visitador, isto é, de um mensageiro da Inquisição a quem fizeram uma espera e mataram. Ainda como prova desta forma de ser, lembrará um motim contra o seu amigo abade de Sambade, fornecendo testemunhas de peso: o jesuíta Sebastião de Magalhães, confessor de dom Pedro II, e Manuel Pires, confessor da regressada Catarina de Bragança, viúva de Carlos II de Inglaterra, irmã do monarca português reinante.

O MAL ESTAVA NAS GENTES DE SAMBADE

Não gostava dos locais, eram “todos, sem ficar nenhum de fora, gente sem deus, sem rei, sem lei, sem verdade, sem fidelidade, não há estado algum que escape a vossa danada língua, sem pejo, nem honra, e sem temor aos ladrões”. Pedro Furtado afirmará que chamara, publicamente, “falsanos, fementidos, aleixozes, e levantadores de falsos testemunhos” aos cerca de 200 moradores de Sambade, hoje a maior freguesia do concelho de Alfândega da Fé, com pouco mais de mil habitantes, a cuja paróquia fora parar por influência do abade Pedro Fonseca de Carvalho, cujo comportamento era também alvo de rumores desagradáveis. Dali, e dos arredores, surgirão as principais testemunhas de acusação no processo a que foi sujeito durante três anos.

Gravura que representa um auto-de-fé no Terreiro do Paço, em Lisboa. O padre Furtado correu o risco de ser condenado à morte, mas em vez de um auto-de-fé recebeu um termo de soltura e segredo

Gravura que representa um auto-de-fé no Terreiro do Paço, em Lisboa. O padre Furtado correu o risco de ser condenado à morte, mas em vez de um auto-de-fé recebeu um termo de soltura e segredo

Wikipédia

O processo que o Santo Ofício lhe moveu não começou em julho de 1695, quando António Simões se dispôs a falar forçado por Manuel Machado, de Mogofores, do concelho de Anadia, muito perto da sua terra natal, Oliveira do Bairro. Procurara-o para se confessar, porém, o padre recusara-se a absolvê-lo caso não contasse tudo a um inquisidor. Simões, que ali foi para “aliviar a consciência”, terminou dizendo que o ex-amante se vangloriava de inalar uma mistura de pó de pedra, raspado do altar, por ser "boa para atrair vontades para atos libidinosos".

As declarações do aspirante a religioso, misto de denúncia e confissão, foram registadas como verdadeiras pelo inquisidor António Monteiro Paim, assistido pelos notários Manuel da Paixão Teixeira e Martinho Ribeiro de Fontes. Este último, no entanto, deixará uma opinião contrária, dizendo que lhes dava “crédito diminuto”, numa nota à margem, referida pelo investigador australiano François Soyer, no livro “Ambiguous Gender in Early Modern Spain and Portugal”. Foi neste seu estudo publicado em 2012, e não traduzido para português, que foram beber Francisco Vázquez Garcia e Richard Cleminson para incluir a história em “Sex, Identity and Hermaphrodites in Iberia, 1500-1800”.

De qualquer forma, a Inquisição “não podia atuar com base numa única denúncia, por mais notável que ela fosse”, segundo François Soyer, que tem estudado o Santo Ofício. De facto, no regimento da Inquisição de 1640, que será substituído em 1774, neste ponto menos claro do que as primeiras regras, referia-se a denunciação — “um dos meios principais que há para se poder em juízo proceder contra os culpados” — apenas no plural.

PROCESSO ARQUIVADO E RESSUSCITADO

O caso foi arquivado, para ressurgir três anos depois, no dia 21 de janeiro de 1698. Desta feita, o inquisidor era João Duarte Ribeiro, na companhia dos notários Manuel Soares de Carvalho e Estêvão Pires da Silva, uma equipa que acompanhará o processo até ao fim. E o denunciador, um estudante de direito canónico, natural de Sambade, de nome João Baptista, que conhecera o padre Furtado na Páscoa anterior, estava ele no primeiro ano do curso e aspirava a entrar na Ordem dos Jesuítas.

De início, Baptista nada notou de estranho em Furtado: comportava-se como um padre, usava coroa calva e barba aparadas, dizia missa quase todos os dias, confessava muitas pessoas ao domicílio... Mas um dia o clérigo convidou-o para sua casa e contou-lhe a história da sua vida. Disse que, na verdade, era nobre e do sexo feminino, filha do Conde de Avintes. Fugira de casa e fora estudar para Paris, vestindo-se de homem, até que uma mulher o convencera a vestir o hábito religioso, “e fizera coroa, e com medicamentos fizera crescer a barba, e secar os peitos, e engrossar a voz como de homem”. E ofereceu a prova, como de resto sempre fazia, ao desafio. O rapaz apalpou-o. Comprovou que se tratava de um “instrumento de mulher” e que não havia qualquer “instrumento de homem”. Como Simões, Baptista detalhará os encontros amorosos entre ele e o padre, que também seria conhecido por irmã Paula.

Esteve “nu com ele na cama, tinha a certeza de que não era homem, mas sim mulher”, afirmou João Batista, como repetirão as testemunhas vindouras, acreditando ter tido uma relação com o sexo oposto ou temendo a acusação de sodomia. O segundo denunciador acrescentará que teve um diferendo com um outro criado do padre de Sambade. Marco Vilares jurou a pés juntos ter-lhe observado o pénis, por iniciativa do próprio, para acabar de vez com rumores que circulavam sobre o seu sexo. Mas “era quebrado”.

Menos de um mês depois do interrogatório a João Baptista, no dia 13 de fevereiro, o inquisidor Duarte Ribeiro apresentou um pedido de prisão para o padre Pedro Furtado, com o argumento de que o suspeito podia influenciar as testemunhas que viessem a ser ouvidas, verificando-se, igualmente, o perigo de fuga, já que era “homem sem domicílio certo”. Mas a mesa não entendeu assim a questão. Os depoimentos não provavam que ele fosse mulher, e não homem e, "como tal incapaz do carácter das ordens”.

O processo de Pedro Furtado está no catálogo online da Torre do Tombo, mas não está digitalizado nem pode ser consultado por se encontrar em mau estado de conservação

O processo de Pedro Furtado está no catálogo online da Torre do Tombo, mas não está digitalizado nem pode ser consultado por se encontrar em mau estado de conservação

DR

“O processo iniciava-se desde que se faziam as primeiras diligências para averiguação da culpa, podendo o acusado ser submetido à prisão preventiva, com ou sem sequestro de bens, assim que se acumulavam indícios contra ele, portanto, antes de qualquer acusação formal”, explicou a historiadora brasileira Lana Gama Lima, em “Tribunal do Santo Ofício da Inquisição: o suspeito é o culpado”, artigo publicado em 1999.

Para o inquisidor, os dois testemunhos forneciam prova suficiente de que havia crime, fosse o facto de uma mulher dar missa ou proporcionar confissões, o que era de todo proibido, ou de se tratar de um caso de luxúria ou mesmo de sodomia, inclinando-se para as duas últimas hipóteses. Para o instrutor do processo, tratava-se de um “abominável pecado”. A investigação deveria iniciar-se - propunha contactar a Ordem dos Jesuítas, o que não agradou ao inquisidor-geral José de Lencastre, que cinco anos antes fora capelão-mor de Pedro II.

“E sendo o dito tido por homem, geralmente era necessário mais concludente prova negativa de ele onde ser, ou afirmativa de ser mulher; principalmente havendo nele as mais demonstrações naturais do sexo masculino como são as barbas, secura dos peitos, e ainda estatura; e disposição varonil, como consta do muito conhecimento que dele há em alguns ministros da mesa”, argumentam a mesa do Santo Ofício, segundo consta no livro de François Soyer, como, aliás, todas as partes dos autos aqui referidos, já que o processo se encontra vedado à consulta, na Torre do Tombo, devido ao mau estado de conservação.

O assunto parecia condenado ao esquecimento. No entanto, Duarte Ribeiro, inquisidor respeitado e conhecido pela sua perseverança, recorreu. “Suposto este caso seja novo e raro não é coisa inverosímil”, sustentou. No dia 25 de fevereiro de 1698, o conselho geral, uma espécie de segunda instância da Inquisição, deu seguimento ao apelo do inquisidor e ordenou a detenção do padre no dispensário da instituição, onde seria sujeito a uma “vistoria” para se apurar qual o seu género.

O segredo era “uma das coisas de maior importância ao santo oficio”, seguindo o regimento; julgou-se necessário, portanto, acelerar as diligências. Quatro dias depois da Páscoa, no dia 3 de abril, Pedro Furtado estava a ser examinado por dois médicos. António Mendes e o cirurgião Jacinto da Costa, na presença dos dois últimos notários que já acompanhavam Duarte Ribeiro, não mostraram dúvidas: "Era homem sem que de alguma sorte se pudesse entender que era mulher, ou que tinha sexo misto".

Neste ponto, já só precisavam da confissão. "Outra característica marcante do processo inquisitorial era a reiterada busca da autoacusação do réu, expressada na pregação constante para que confessasse suas culpas e no uso da tortura como forma de extrair confissões. Não se pode esquecer de que esse estilo de processo de origem romana, conhecido por 'inquisitio', elevou a confissão à categoria de 'rainha das provas’”, concretizou Lana Gama Lima, no artigo publicado na brasileira Revista de Sociologia e Política. Furtado. Contudo, não parecia disposto a aceitar as acusações, por isso, mentirá de confissão em confissão.

Quando o inquisidor lhe perguntou se cometera algum crime no âmbito da jurisdição da inquisição, Pedro Furtado negou. À pergunta se sabia a razão de ali estar, respondeu que calculava ser por causa dos rumores sobre o seu sexo. Dois dias depois, dizia-se “vítima da invenção de uma mulher”. Nunca foi herege, blasfemo ou sodomita, nem outro crime cometera que justificasse a sua prisão, afirmou, e pensou que tudo ficasse esclarecido quando contasse que a difamadora era uma mulher com quem vivera em Trás-os-Montes. ”Estando com ela na cama para o dito efeito o não pudera fazer por não se achar então capaz para isso”, contou como sendo o porquê da vingança.

PEDRO FURTADO OU PAULA DE LISBOA

Sucedem-se, então, as audições das novas testemunhas, dos amantes de Pedro Furtado descobertos pelos investigadores. Cinco são naturais ou habitantes da freguesia ou de lugares próximos. António Vaz, o Solteiro, de Soeima, dirá que Furtado lhe disse ser mulher e ter-se transformado em homem, tendo feito a barba crescer “com laranja azeda” e “que tinha um membro de homem que lhe custara trinta mil réis em Lisboa”. Também lhe contara ter dado à luz dois rapazes, um dos quais morrera e outro estava numa instituição em Sambade.

Ao carpinteiro Gregório Dias, de Soeima, contou que possuía ascendência nobre e o seu nome de batismo era, na verdade, Paula de Lisboa. Ao soldado Marcos Vilares disse que fugira de casa dos pais, em Moura, no Alentejo, juntamente com um criado de quem se enamorara, teria 13 ou 14 anos. Quando aquele morreu, vestira-se de homem e usara de “confeições para lhe crescer a barba e formar peitos e engrossar a voz, e depois fora estudar”.

O último a ser ouvido, Manuel Marques, do Sardoal, outro ex-militar e ex-criado do acusado, denunciara-o, por motivos idênticos aos de Simões, em maio de 1698, estando já o processo a decorrer. Dera-lhe um rebate de consciência. O pregador de fama” metera conversa com ele, em 1696, quando este, envergando o uniforme, passeava numa rua de Abrantes. A partir dessa altura, Marques deixou a tropa como pretendia e passou a ser criado do padre de Sambade, recebendo dinheiro em troca de favores sexuais, sabendo que o padre “era homem e mulher, e usava só da sua pessoa na forma em que as mulheres o fazem”.

Para com o inquisidor Duarte Ribeiro, Pedro Furtado será menos imaginativo. Declarará ter 46 anos, ser filho de António Machado, que fora familiar do Santo Oficio, o que significava ser abastado, e de Margarida Ribeira, já falecida. Disse ainda ser natural de Serpa, ter entrado na ordem dos jesuítas aos 16 anos, saindo ao fim de 14 para a paróquia da terra situada na encosta sul da Serra de Bornes. Nunca tinha saído de Portugal, assumindo que inventava para seduzir rapazes na casa dos vinte de idade.

Gravura que representa um condenado à morte pela Inquisição. Pedro Furtado esteve muito perto de arder de forma semelhante

Gravura que representa um condenado à morte pela Inquisição. Pedro Furtado esteve muito perto de arder de forma semelhante

Wikipédia

A páginas tantas, Furtado e o advogado de defesa Manuel Alvares Brandão, síndico da Universidade de Coimbra, perceberam que a fogueira estava prestes a ser acendida. No dia 1 de abril de 1701, anunciou querer mudar a confissão: “Tudo era falso e contra a verdade, e que o fizera então pela grande perturbação com que naquele tempo se achava no juízo, e entender que o queimariam, e também por temer a prisão em que se via.”

A Mesa do Santo Ofício analisou o processo. Pedro Furtado fora sujeito a um segundo exame, que mais uma vez provara haver apenas “instrumento de homem”. Por outro lado, não era clara a prática de sodomia… Mas o padre fizera ver ao amante Manuel Rodrigues, sapateiro de Bornes, quando este disse que já o tinha ouvido a dar sermões, que o facto de pregar não significava que fosse homem. E a Inquisição não gostou disto ou viu aqui uma porta para uma condenação mais suave, já que o Diabo “não podia transformar o homem em mulher”.

O réu andara a fazer doutrinas falsas, embora por “parvoíce e asneira”, como admitira, “mostrando ou dando a entender que as mulheres podiam ser sacerdotes e de alguma sorte desprezando os sacramentos da ordem, eucaristia e penitência dando a entender que as mulheres podiam celebrar uns e outros”.

A sentença enviada para aprovação do conselho geral foi de três anos de exílio no Algarve. Este órgão da inquisição concordou, alterando o exílio para um lugar mais agreste, para Almeida, perto da fronteira com Espanha. O termo de soltura e segredo foi lido no palácio da Inquisição em Coimbra, a 23 de dezembro de 1701, mas não publicitado. Não se sabe se Pedro Furtado cumpriu a pena, que incluía as custas do processo.

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