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Entrevista a Sócrates: à espera da segunda parte

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Jose Carlos Carvalho

Coube à TVI a primeira entrevista dada a uma televisão pelo ex-primeiro-ministro desde que foi preso em novembro de 2014, mas não houve nada de novo em relação às acusações que José Sócrates vem fazendo contra o Ministério Público. Faltam as perguntas sobre como vivia tão acima das suas possibilidades. Mas esta terça-feira há mais

As expressões foram fortes e contundentes. José Sócrates aproveitou quase uma hora de entrevista em direto na televisão – naquela que foi a sua primeira intervenção com direito a perguntas e respostas desde que está em liberdade – para passar a maior parte do tempo a insultar o Ministério Público. O que se tornou, aliás, um hábito. Acusou o procurador Rosário Teixeira, sem o nomear nesse momento, de ter montado uma “campanha de terror”, ao detê-lo com “selvajaria”, de forma a “atemorizar” a família e os amigos e assim fazer com que as pessoas que lhe estavam próximas o incriminassem.

Mais à frente disse estar convencido do “ódio pessoal” que o magistrado nutria por si, a propósito do episódio em que, face à sua recusa em ir para casa com uma pulseira electrónica, Rosário Teixeira propôs a sua continuação na cadeia de Évora.

Na entrevista desta segunda-feira à noite ao Jornal das 8 da TVI, as novidades resumiram-se a pequenas variações do discurso que tem tido em mais de uma dúzia de intervenções públicas ao longo do último ano, se bem que a maior parte delas feitas por escrito. Sem, portanto, a linguagem corporal e as modulações de voz de um direto de televisão, num registo em que esteve bem. Calmo e seguro.

Uma das variações de discurso desta noite foram as explicações que exigiu à magistrada número um do Ministério Público, a procuradora-geral Joana Marques Vidal, em relação a toda esta “encenação” do processo Operação Marquês que só serviu, como já o disse antes, para o denegrir e para o PS perder as eleições. “Agora que o PS já perdeu as eleições, parece que já não precisam de uma acusação”, ironizou.

A entrevista foi interrompida quando parecia que o pivot da TVI, o jornalista José Alberto Carvalho, estava a entrar num campo onde Sócrates tem recusado entrar até agora: nos detalhes dos indícios que o Ministério Público reuniu contra ele como justificação para lhe apontar os crimes não só de corrupção, mas também de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. E que passam por avultadas entregas de dinheiro e inúmeras despesas pagas pelo amigo Carlos Santos Silva, também arguido no processo.

Sócrates tem optado nos últimos dois meses, desde que está em liberdade, por evitar o contraditório, como aconteceu nas aparições que fez em Vila Velha de Rodão e em Viseu, perante plateias de apoiantes, mas veremos como reage na segunda parte da entrevista – gravada esta segunda-feira mas só transmitida terça-feira, à mesma hora - às eventuais perguntas incómodas sobre o modo de vida luxuoso que o amigo lhe sustentava. E que são uma parte significativa no processo, assumida como importante pela equipa de investigação da Operação Marquês. Mas a que o ex-primeiro-ministro já chamou "coscuvilhice”. São precisamente essas respostas que o arguido principal da Operação Marquês ainda não deu.