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Vasco Mourão, o menino da Foz

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CAFEÍNA. Rua do Padrão, 100, Porto. Tel. 226 108 059. Dia 17, a partir das 20h30, jantar Assalto à Garrafeira

Lucília Monteiro

O Cafeína, um dos marcos na restauração do Porto e na animação da Foz, celebra 20 anos com um programa de festas para clientes e curiosos. Vasco Mourão, o dono, faz-nos uma visita à história dos seus quatro restaurantes

É um low-profile, diz ele. Quanto menos se confundir com os lugares que constrói melhor. Os lugares são quatro restaurantes instalados no coração da Foz do Porto, cada um com alma própria e personalidade forte. Há o género brasserie, que serve cozinha de autor; outro com sushi ao balcão, em ambiente íntimo; um com estilo bistrô, onde se pode petiscar; e ainda outro com cardápio italiano. Cafeína, Terra, Casa Vasco, Portarossa, chamam-se. Todos foram instalados em casas antigas, com janelas para a rua e a poucos passos uns dos outros. O wishful thinking de Vasco Mourão, o dono, é que os clientes se satisfaçam com as diferenças que cada um propõe e não precisem de frequentar mais nenhum restaurante da cidade.

Mas o mais internacional, o trademark do empresário, continua a ser o Cafeína. O primeiro entre os quatro, que já tem duas décadas e anda a celebrar o aniversário com uma série de eventos gastronómicos, como a Cozinha com Amigos, onde os amigos de vasco são chefes por um dia. O próximo,será o jantar Assalto à Garrafeira, no qual os clientes podem escolher o vinho da garrafeira particular de Vasco Mourão. Nestes 20 anos, o restaurante, que se tornou um dos lugares mais permanentes da Foz, manteve-se sempre no projeto original. Só a cozinha se foi adaptando aos ares do tempo, com o chefe de origem chilena Camilo Jaña a orquestrar a carta. Mesmo assim, é o clássico bife Wellington que faz as honras da casa. Vasco nunca cozinhou, confessa que nem sabe estrelar um ovo.

O Cafeína é um sítio difícil de descrever. Foi concebido a partir de várias inspirações numa viagem entre Inglaterra, França e Alemanha e instalado numa casa do século XIX com a traça típica das ruas interiores da Foz. Tem mesas com toalhas brancas, muito próximas umas das outras, candeeiros de pé alto, chão de soalho escuro, paredes pintadas de verde-cinza e qualquer coisa que paira entre o muito confortável e o muito formal. Como a casa de um amigo para a qual somos convidados mas com quem fazemos cerimónia. “Não sou de cenários, nunca fui. Os espaços encenados cansam. Para se regressar a um sítio, por bom que seja, tem de se sentir alguma coisa especial. Eu tinha pensado num lugar que tivesse a lógica de um clube, não no sentido elitista da coisa, mas que cruzasse um certo ambiente de homens de negócios com bar. Um sítio onde as pessoas pudessem entrar a qualquer hora para comer e beber, onde conhecessem os empregados e se sentissem à vontade em vir sozinhas”, revela. Uma certeza temos: a qualquer hora e a qualquer dia estão sempre abertos.

Vasco Mourão é um menino da Foz, sempre foi. Para quem mexe na cidade, a geografia é importante. Ele explica: “A Foz é a frente atlântica do Porto, isso marca. Potencialmente, é fantástico, mas também é um sitio fechado, muito burguês. As pessoas daqui dizem: ‘Vamos ao Porto?’ Num ambiente que se quer cosmopolita, isto é uma coisa chata. Sempre fiz um esforço enorme para ter pessoas de fora.” Como? “Circulando. Criando relações com os meios artísticos, participando em várias atividades que fazem parte da vida da cidade.”

Em matéria de restauração, no Porto trendy, cosmopolita, há um antes e um depois de Mourão decidir desistir do curso (estudava Direito) para se dedicar aos bares. Isto no final dos anos 80, quando os polos de atração da movida portuense se antagonizavam entre a Ribeira e a Foz. Foi ele quem abriu o primeiro bar de praia digno desse nome, para agitar o inverno — O Praia da Luz —, com um deck gigantesco, aquecimento, cadeiras de lona e uma animação memorável. Depois deste acontecimento urbano, que marcou a época, seguiu-se o Café na Praça, outro ponto de encontro emblemático dos idos de 90, menos Foz mais alternativo, e virado para o meio das artes, junto à Torre dos Clérigos e “numa altura em que ninguém frequentava aquela zona da cidade”. Só depois apareceu o Cafeína, e Vasco já não saiu mais da Foz.

Agora, a Baixa tornou-se o novo centro da vida portuense. Vasco mantém-se firme: “Porque é que não vens aqui para o pé de nós?”, perguntam-lhe os que estão na movida. “Seria muito giro, até gostava, mas uma coisa de cada vez. Não me posso meter em esquemas de cadeia, a dispersão é um sarilho.” A lógica que funciona aqui é a do bairro, a do dono que vive por cima do seu negócio. Vasco Mourão, que é um conservador — a palavra é dele —, sabe que o segredo para um negócio durar é a sua permanência: “Eu sei que em breve este lugar especial do Porto, aberto ao Atlântico, será o cartão de visita da cidade.” Trata-se sempre de uma questão de tempo.