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Epidemia transmitida por mosquito alerta DGS

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A. aegypti

Doença chegou ao Brasil com o Mundial de Futebol e pode estragar as Olimpíadas. Grávidas exigem atenção devido aos nascimentos de bebés com microcefalia

Mais de 500 mil pessoas foram oficialmente infetadas no Brasil com o vírus da zika, transmitido pelo Aedes Aegypti, o mosquito que causa dengue e febre amarela. As autoridades brasileiras estimam, contudo, que o total de infetados ultrapasse os 1,4 milhões. E os investigadores avançam que, dos 200 milhões de brasileiros, até 40 milhões possam ser afetados.

O pior é que 1761 crianças nasceram este ano no Brasil com microcefalia e, por isso, poderão sofrer deficiências cognitivas e motoras. A Organização Mundial da Saúde lançou um alerta epidemiológico, abordando a ligação entre o vírus e a microcefalia e a Presidente Dilma Rousseff decretou estado de emergência, numa altura em que se aproxima a passagem do ano e o Carnaval, quando milhares de turistas, muitos dos quais portugueses, viajam para o Brasil. Só em novembro, a TAP registou um aumento de 2,5% dos bilhetes vendidos com direção ao Brasil e, segundo o porta-voz da transportadora, “tradicionalmente no fim do ano, os voos estão sempre esgotados”.

Enquanto no Brasil os receios se avolumam, em Portugal, a informação sobre o vírus da zika já está a ser transmitida. A Direção-Geral de Saúde (DGS) explicou ao Expresso que “desde meados de novembro, quando o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) iniciou a informação sobre a zika, a DGS envia semanalmente informação atualizada para as autoridades de saúde, que a divulgam às consultas do viajante”. O Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), responsável pelas consultas, confirmou que “quem parte para os países onde o vírus foi encontrado está a ser informado sobre as formas de prevenção”. No Portal das Comunidades Portuguesas não há nada sobre a zika, embora o Ministério dos Negócios Estrangeiros garanta que já estão a ser tomadas diligências para incluir a informação.

Na página eletrónica do ECDC recomenda-se que as autoridades dos países afetados — além do Brasil, Colômbia, El Salvador, Venezuela, Polinésia, Indonésia e Cabo Verde — preparem os centros de saúde para “um possível aumento das necessidades de tratamento em todos os níveis, dos cuidados especializados de síndromes neurológicas e pré-natais”.

O problema é que tudo é novo quando em causa estão as consequências das infeções pela zika. Como explicou esta semana o jornal “Folha de São Paulo”, não há testes sorológicos suficientes para confirmar as suspeitas e “o diagnóstico tem sido feito com base nos sintomas, que, no início, confundem-se com os da dengue”. Os especialistas alertam ainda que em 80% das infeções não há sintomas e não se sabe se estes casos são contabilizados.

O que mais está a assustar a população brasileira, contudo, são os casos de microcefalia. Estão a ser investigadas as mortes de 19 crianças com suspeita da malformação, mas os investigadores ainda não perceberam como é que o vírus ultrapassa a placenta nem conseguem quantificar o risco de uma grávida infetada gerar um bebé com microcefalia. Além disso, tomografias realizadas a alguns dos bebés cujas mães foram infetadas durante a gravidez revelaram lesões do tecido cerebral, sem que as crianças fossem enquadradas como tendo microcefalia.

Enquanto não há respostas consistentes, ficam os alertas para que as grávidas que se encontrem no Brasil usem repelentes, calças compridas e sapatos com meias, já que os mosquitos preferem picar os pés e as pernas, sobretudo durante o dia, considerado o período mais propício por este ser um mosquito de hábitos diurnos. Mas ontem o jornal “O Globo” alertava para o desaparecimento dos repelentes nas prateleiras das farmácias.

A ponta do icebergue

Os investigadores acreditam que o vírus tenha sido levado para o Brasil por turistas durante o Mundial de Futebol de 2014, na sequência de uma epidemia em 2013 na Polinésia Francesa. E, quando o primeiro caso de infeção foi reportado, em maio, ninguém deu atenção. Mas, ao confirmar a circulação da zika pelo país, o ministro da Saúde brasileiro na altura, Artur Chioro, disse que o vírus não preocupava. Em outubro, 14 dos 26 estados brasileiros tinham registado casos, com destaque para Pernambuco, o mais afetado.

O atual responsável pela Saúde, Marcelo Castro, já classificou a situação como “gravíssima” e Dilma Rousseff criou o Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia, envolvendo as Forças Armadas, em que uma das primeiras medidas será a distribuição de repelentes fabricados pelo Exército às grávidas. Certo é que não existe, nem deverá existir a curto prazo, uma vacina contra a zika e a única forma de combater a propagação das infeções é controlar a multiplicação do mosquito transmissor.

“Esta é apenas a ponta do icebergue e as consequências são imprevisíveis”, disse ao Expresso Vítor Laerte Pinto, médico infecciologista brasileiro que está no IHMT a estudar as infeções transmitidas pelo Aedes Aegypti. E alerta que a Madeira, devido aos casos já verificados de dengue, deverá ter especial atenção: “Uma vez instalado, é muito difícil erradicá-lo.”