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As cidades vazias de Zhao Liang

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BEHEMOTH. O documentário do chinês Zhao Liang venceu a segunda edição do Porto/post/doc

d.r.

Ao longe, uma montanha. Silêncio. Ao longe, um horizonte feito de infinitas possibilidades. Ao longe, a natureza tranquila. De repente, um estrondo. Uma explosão segue-se a outra e ainda outra. O longe deixa de ser longe. Desaparece. O longe é apenas um emaranhado de crateras. O horizonte rasgado perde-se na negritude dos buracos expostos onde antes imperava a montanha.

Milhares e milhares de homens, milhares de camiões, milhares de máquinas espalhadas por algumas regiões dos confins da China, esventram montanhas. Arrasam-nas para extrair carvão e produzir aço. A escala é desumana. O trabalho ganha dimensões apocalípticas. Pensar ali em poluição, segurança e higiene no trabalho, remunerações justas e adequadas é tão desajustado como imaginar uma palhota africana nas planícies geladas da Gronelândia. É uma inexistência, tanto quanto uma impossibilidade.

Uma das mais intensas memórias da minha infância passa pela imagem de umas padiolas, avistadas de quando em quando a descer a rua da casa paterna em direção à igreja local. À sua passagem fechavam-se todas as portas e janelas. Apenas alguns olhares ousavam acompanhar o cortejo enquanto o campo visual o permitia. A regra era o silêncio e o olhar desviado. Ninguém o nomeava ou comentava, embora todos conhecessem o conteúdo do caixão colocado sobre o carro vindo do sanatório situado a uns dois ou três quilómetros. Lá dentro jazia o corpo de alguém apesar de tudo novo.

Com 45 anos de idade poderia ter já 30 (trinta) anos de trabalho nos poços de extração de carvão. De certeza que tinha os pulmões rebentados pelos efeitos da silicose, a mais antiga das doenças profissionais, causada pela inalação de poeiras que a prazo vão limitar a capacidade respiratória e a oxigenação do sangue, com fortes repercussões cardíacas.

A doença progredia e as mortes ocorriam - muitos ficavam incapacitados e com uma vida para sempre diminuída - antes de mais por naquele Portugal de meados dos anos de 1960 raros serem os mineiros a trabalhar com máscaras protetoras e escassas serem as preocupações das empresas com tão cruciais aspetos de higiene e segurança.

Na tarde do passado domingo foi possível regressar a estes cenários em que o horror é subvertido ao ponto de se transformar no seu próprio espetáculo. No Porto/post/doc- Film & Media Festival foi exibido o documentário “Behemoth”, do chinês Zhao Liang. É um poderoso documento de denúncia construído a partir da voragem industrializadora por estes tempos vivida na China.

É um filme de desolação. É um filme de rostos petrificados. É um filme de angústias, como quando se vê o líquido negro como a noite extraído dos pulmões de mineiros abatidos, tolhidos por uma doença que os consome segundo a segundo. Trabalham em carne viva. Isto é, de corpo aberto e sem proteções, seja na extração do carvão, seja junto das altíssimas temperaturas inerentes ao processo de produção de aço. As imagens chegam a ser belas e esse é o grande absurdo. É uma beleza que sangra.

Uma das imagens finais do filme, distinguido com o grande prémio do júri do festival, mostra-nos um outro lado desta alucinante marcha em frente. Um carro percorre uma imensa cidade com centenas, porventura milhares, de prédios de muitos andares, pintados de fresco, luminosos, todos vazios. Há centenas de cidades assim na China. Têm ruas desenhadas a régua e esquadro. Semáforos a funcionar. Em alguns locais há um ou outro trabalhador da limpeza para afastar o que o vento traga. Habita-as o deserto. O deserto de gente. Dessa constatação cresce, em quem olha, um outro deserto. Indefinível. Sub-real. Feito do vazio nascido da insaciável vontade humana de gerar insensatez. Impõe-se-nos o mundo como insaciável fábrica de paradoxos.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras