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O ator porno era violador?

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James Deen namorou com Stoya, a primeira mulher a acusá-lo. Ambos são estrelas da indústria pornográfica - sobretudo ela, que assina colunas até em sites de tecnologia (nomeadamente o The Verge, referência dos geeks)

Pascal Le Segretain / Getty

Isto não é uma história de pornografia, é um relato de acusações de violação. James Deen, estrela da sua indústria e idolatrado além dela, estava a aproximar do mainstream o cinema sexualmente explícito. Agora já não

Luís M. Faria

Jornalista

Nos filmes pornográficos, ao contrário do que por vezes se pensa, não vale tudo. O consenso dos atores é essencial e eles devem poder sempre parar a ação se não estiverem confortáveis. Para esse fim, existem, por exemplo, determinadas palavras de segurança reconhecíveis por todos os intervenientes. Quando uma atriz diz a palavra e um ator a ignora, o que acontece a seguir é uma forma de abuso, ou mesmo violação. Estas questões aparecem bastante nítidas num escândalo que está a agitar a indústria porno norte-americana, envolvendo o ator que era tido como o mais apto para aproximar do público mainstream esse género de entretenimento. Uma aproximação hoje menos improvável do que já foi, dado o advento dos naked selfies e outras exibições sexuais nos social media, bem como do sexo ao vivo em programas de televisão como o Big Brother.

O ator agora em causa chama-se James Deen. Ao contrário de muitos dos seus colegas famosos, não é nenhuma torre oleada de músculos com uma expressão bovina no rosto. De altura média, olhos azuis e ar sensível, podia ser o proverbial ‘boy next door’. Californiano, filho de um engenheiro mecânico e de uma engenheira de computadores, entrou para a indústria porno assim que lhe foi possível – diz que era o seu sonho desde criança. Aos 29 anos, com 10 de carreira no ativo, já fez centenas de filmes. Embora tenha afirmado não ser feminista, chegou a ser visto como um possível ícone das feministas. Caso muito raro entre os membros da sua profissão, tinha um bom número de fãs adolescentes, as chamadas ‘deenagers’ (trocadilho que mistura Deen com ‘teenager’). Participou em campanhas públicas – por exemplo, contra a utilização obrigatória de preservativos na sua indústria – e em ações de filantropia diversas. Foi membro fundador da APAC, uma associação que representa a sua classe profissional. Era a imagem suave dela, e dava entrevistas frequentes. Até às acusações que agora o atingiram.

A queda de James Deen teve início no passado dia 28 de novembro, quando uma sua colega e ex-namorada que dá pelo nome de Stoya escreveu no Twitter que ele a tinha forçado e penetrado apesar de ela lhe dizer expressamente que não queria. “Não posso continuar a acenar e a sorrir quando as pessoas falam dele.” Deen negou esse relato “falso”, “egrégio” e “difamatório”. Mas ao longo dos dias seguintes, outras oito mulheres surgiram a apoiar Stoya, contando histórias do abuso que elas próprias terão sofrido às mãos de Deen. Em termos gerais, as histórias seguem um padrão de violência física e várias delas aconteceram durante a filmagem de cenas de filmes, sem que o resto da equipa presente fizesse nada - e às vezes até aplaudindo no fim. Vários comentadores notaram paralelos com o escândalo de Bill Cosby, outro artista conhecido que durante muito tempo terá abusado de mulheres sem que os seus colegas e colaboradores o impedissem, embora muitos soubessem daquilo que se passava. E quando por fim alguém teve coragem de contar o abuso em públicos, as outras denúncias choveram em torrente.

Fronteiras nem sempre nítidas

Alessandro Bianchi / Reuters

A diferença entre Cosby e Deen, além do facto óbvio de um dos acusados ser um comediante e o outro um ator porno, é que os alegados atos do primeiro, embora se tenham estendido por décadas, já prescreveram em termos judiciais. Não os de Deen, e isso talvez ajude a explicar por que motivo as principais produtoras com quem fazia filmes, bem como outras com quem colaborava (por exemplo na conceção de brinquedos sexuais), o abandonaram imediatamente. Uma das produtoras, a Kink, especializa-se em filmes de bondage e sado-masoquismo, um ramo onde as fronteiras entre o consentido e o abusivo nem sempre são nítidas. É verdade que há regras estabelecidas. Além da palavra segura, as atrizes e os atores podem fazer listas daquilo que não aceitam fazer. Mas no decorrer da rodagem não é invulgar os atores deixarem-se levar pelo entusiasmo, e a pressão para ceder, sobretudo quando o ator é uma grande estrela como Deen e a atriz uma jovem principiante – e quando as pessoas à volta incitam os atores – nem sempre é fácil de resistir.

As acusações a Deen referem-se a atos que vão desde o meramente indelicado ou de mau gosto até ao bruto e ao criminoso. Stoya fala em algo que, a ser verdade, só pode ser considerado violação – Deen agarrou-a e teve sexo com ela contra a sua vontade expressa – embora num contexto de promiscuidade sexual (e de relação pessoal) que torna difícil a prova, tanto mais que ela filmou cenas de sexo com ele nos dias seguintes. Essa ambiguidade não é invulgar em situações de violação por gente próxima, e obviamente não muda a natureza do ato, mas complica a questão em termos judiciais. O que ajudará Stoya, se ela quiser queixar-se criminalmente de Deen, são os relatos das outras mulheres que surgiram nos dias seguintes. Uma acusa Deen de ter agarrado quando ela tomava banho e ter começado a penetrá-la por trás. A Kink, em cujo prédio parece funcionar quase uma espécie de comuna porno, tem uma zona de duches coletivos que proporcionam encontros espontâneos.

No fim, a equipa aplaudiu

Deen com Joanna Angel, uma das atrizes da indústria. Namoraram durante seis anos

Deen com Joanna Angel, uma das atrizes da indústria. Namoraram durante seis anos

Ethan Miller / Getty

Os relatos agora publicados custam por vezes a ler. Uma jovem que era virgem quando se estreou na pornografia - o seu primeiro filme intitula-se “O Desfloramento de Nicky Blue - conta que, quando pediu a Deen que fosse menos bruto durante um fellatio, ele ainda foi mais e fez de propósito para a obrigar a engasgar-se, urinando a seguir na sua boca. Outra atriz, Tori Lux, diz que Deen lhe pediu para lhe cheirar os testículos e quando ela recusou obrigou-a a baixar-se e bateu-lhe na cara, antes de a puxar para a sua zona pélvica. Sexo oral forçado, numa festa e em público, é também aquilo que alega uma atriz apenas identificada pelas suas iniciais, T.M. Já Amber Rayne conta que durante uma filmagem de sexo anal Deen ficou de repente tão violento que a deixou a sangrar e a obrigou a ir ao hospital. Kora Peters também diz que o ator abusou dela numa filmagem, empurrando a sua cara contra o sofá e penetrando-a no ânus contra a sua vontade (a equipa presente terá aplaudido no fim da cena). E há histórias de ele se pôr em cima das atrizes e as agredir com bofetadas muito fortes, sem combinação prévia nem consentimento. Uma das agredidas, a atriz Lily LeBeau, terá chegado a ficar com o maxilar deslocado. O ator Derrick Pierce confirma a história.

Após duas semanas de acusações, Deen deu finalmente uma entrevista a responder, declarando-se confuso e sugerindo que algumas das alegadas vítimas, em especial as ex-namoradas, talvez sejam motivadas por despeito. “Eu e Stoya não tivemos uma separação clara. Foi atabalhoada, cheia de uma data de emoções e tanto ela como eu temos culpa disso. (…) A razão por que ela faz estas alegações pode ser tão simples como ela descobrir que a minha atual namorada e eu vamos viver juntos. Temos amigos comuns, um deles notificou a Stoya disso.” Explicou também que no meio onde trabalha é essencial ter desejo pelas parceiras e garante que sempre respeitou os limites devidos.

A reação das ex-namoradas - e da atual

“Foi um namorado horrível” - Joanna Angel, atriz da indústria porno e ex-namorada de Deen

“Foi um namorado horrível” - Joanna Angel, atriz da indústria porno e ex-namorada de Deen

Ethan Miller / Getty

Entretanto, outras mulheres que foram próximas do ator já comentaram as acusações. Uma é a atriz Joanna Angel, sua namorada entre 2005 e 2011. Acha que em relação a ela Deen foi sobretudo “um namorado horrível” - lembrou uma vez em que ele lhe meteu a cabeça debaixo de água e que quase a fez sufocar. Outra ex-namorada, Farrah Abraham, diz que o ator a drogou e violou várias vezes. Quanto à sua atual namorada, Chanel Preston, é a presidente da APAC. Num comunicado a reagir, admitiu que toda a situação lhe provoca “sentimentos complicados”, nota que a comunidade porno é pequena “e muitos atores tiveram algum tipo de relação com Stoya e/ou James”, e assegura que este último “deixou de estar envolvido no processo decisório, na direção ou nos deveres da APAC”. Reiterando a “solidariedade com todos os trabalhadores do sexo que foram violados e abusados”, promete continuar a defender os interesses da comunidade.

Esta semana, o Departamento de Segurança e Saúde Laboral da California anunciou ter aberto uma investigação à James Deen Productions, relativa a “sérias violações” que terão sido cometidas por essa companhia ligada ao ator. A notícia surge com proeminência no “The Frisky”, um site para mulheres onde Deen tinha uma coluna de aconselhamento sexual, agora extinta. O site também contém um artigo a explicar a distinção entre trabalho sexual e violação, e critica as feministas que misturam as duas coisas. Essa confusão é dos fatores que torna extremamente difícil uma atriz porno queixar-se de violação. Além dos numerosos obstáculos que qualquer acusação sexual enfrenta - a começar pela prova - há o estigma associado à pornografia. E se em processos desse tipo é normal os advogados invocarem os hábitos sexuais da vítima para defender o réu, ainda mais o farão quando esses hábitos, por definição, forem públicos.