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“Não vamos inventar nenhum frigorífico que consiga arrefecer a Gronelândia”

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IAN LANGSDON / EPA

Vem aí mais uma noitada para se tentar chegar a acordo na cimeira do clima que decorre em Paris. Especialistas alertam para a importância de um entendimento - porque a tecnologia não conseguirá resolver tudo

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

“Nada está decidido, enquanto tudo estiver a ser decidido” é a máxima que ecoa nos corredores de Le Bourget, onde ainda decorre a cimeira do clima de Paris (COP21). Ao contrário do definido na agenda (mas não o esperado por quem anda nestas andanças há muito tempo), só deverá haver um acordo sobre o clima este sábado. Em 20 anos, nenhuma cimeira acabou dentro das datas previstas e esta não será exceção.

Laurent Fabius, o presidente da COP21 e ministro francês dos Negócios Estrangeiros, propôs que as delegações oficiais encontrem, durante esta sexta-feira, maiores consensos em vários dos pontos onde há maiores divergências, para poder apresentar até ao final da manhã deste sábado um texto final para os 195 países se pronunciarem.

A versão do documento que continua a ser negociada, esta sexta-feira, condensa o texto em 27 páginas, menos duas do que o de há dois dias e quase metade das que compunham o texto inicial.

1,5ºC, mas sem metas de redução

A ideia de que se deverá limitar o aquecimento global a menos de dois graus Celsius (2ºC), procurando que os termómetros não aumentem mais de 1,5ºC por comparação aos valores da era pré-industrial, é o objetivo clarificado no artigo 2 do texto. É um objetivo ambicioso e apoiado por 113 países, onde se incluem os mais vulneráveis à subida do nível do mar, como as Maldivas (que podem ficar submersas), mas também os países da União Europeia e os Estados Unidos.

Esta meta é aplaudida por Nuno Lacasta. O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente e membro da delegação portuguesa na COP21 diz-se "optimista" quanto a um desfecho positivo em Paris. "Queremos um acordo com ambição e substantivo e vejo que as pessoas estão a trabalhar nesse sentido", afirma ao Expresso.

Porém, o documento ainda não esclarece como é que a limitação do aquecimento global é alcançada, já que desapareceram as metas das reduções das emissões de gases de efeito de estufa, como o dióxido de carbono (CO2). Os artigos que propunham reduções de 70% a 95% das emissões (face às registadas em 2010) até meados deste século desapareceram. O texto sob negociação limita-se a referir objetivos de "neutralidade" carbónica e de "baixas emissões globais a longo prazo”, apostando em compensá-las com a captura e armazenamento de CO2 no subsolo ou nas florestas.

São sobretudo três os "buracos" no texto que continuam a depender de decisões políticas: como assegurar o financiamento sobretudo dos países em vias de desenvolvimento, para que possam avançar com medidas para reduzir as suas emissões e se adaptarem aos cenários projetados pelas alterações climáticas; como assegurar que se tem em conta as diferenças e capacidades de mitigaçâo de cada país, mas também a partilha de responsabilidades entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, face ao que se projeta vir a acontecer nos cenários de alterações climáticas; e como tornar transparente as medidas adoptadas por cada um, já que não há metas comuns mas há contribuições propostas..

É importante obter um acordo duradouro com medidas concretas para o pós-2020 que possam ser revistas regularmente e garantam cortes nas emissões de CO2 até meados do século. Se não houver consenso, será mais tempo perdido. As negociações serão retomadas daqui a um ano em Marraquexe, em Marrocos.

“Não se inventam frigoríficos para arrefecer a Gronelândia”

"Desde a revolução industrial, tem-se vivido um período de crescimento económico que libertou milhões de pessoas da pobreza e foi-se estabelecendo o sentimento de que o futuro será sempre melhor do que o passado e que a tecnologia resolverá tudo e permitirá que nos adaptemos à mudança", afirma ao Expresso o especialista em alterações climáticas Filipe Duarte Santos. Porém, o geofísico, que também está em Paris, lembra que "a riqueza económica e a tecnologia não resolvem tudo". "E se continuarmos a utilizar intensivamente combustíveis fósseis, as consequências daqui a 50 anos impedir-nos-ão de continuar em crescimento." E remata: "Não vamos inventar nenhum frigorífico que consiga arrefecer a Gronelândia".