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Haverá uma criminalização dos pobres criada através de estereótipos?

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Um dos quadros da Bienal de S. Paulo em exposição em Serralves

Filipe Braga

Artistas, ativistas e académicos de Portugal e do Brasil reúnem-se este sábado em Serralves, para debater a forma como a pobreza é encarada em espaços urbanos.

André M. Correia

O Museu de Serralves, no Porto, recebe este sábado o simpósio intitulado “Direito à cidade: Criminalização da pobreza”. Uma primeira versão desta conferência foi realizada durante a 31.ª Bienal de São Paulo. A iniciativa cruza o oceano para se apresentar ao público de uma forma adaptada à realidade portuguesa.

Contactado pelo Expresso, Ricardo Nicolau, curador e adjunto da diretora do Museu de Serralves, considera que muitas vezes “quando alguém olha para um pobre, vê automaticamente um criminoso”. O responsável pela programação do colóquio afirma igualmente que a atenção mediática dada a certos grupos sociais conduz a uma marginalização dos mesmos. Em sua opinião, “a arte é um campo fértil para pensar em alternativas”.

O debate será moderado pela cineasta Amarante Abramovici, que já teve um documentário seu (“Gaia”, 2004) selecionado para o Festival de Cinema de Cannes na secção Cinéfondation. Mais recentemente tem colaborado com o Projeto Educativo da Associação Pelo Documentário (APORDOC), esteve envolvida num trabalho documental sobre a demolição das Torres do Aleixo e este ano iniciou uma colaboração com a Videoteca de Lisboa.

Três sociólogos e o homem que não quer medalhas

Sentados à mesa para debater estas questões, além da moderadora Amarante Abramovici, estarão os portugueses José António Pinto, Luís Fernandes e Virgílio Borges Pereira, acompanhados pela antropóloga brasileira Carolina Christoph Grillo, que se debruça sobre temas como o tráfico de drogas, crime, violência, segurança pública, justiça criminal e movimentos sociais.

Virgílio Borges Pereira é um sociólogo e professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e tem vindo a desenvolver investigações na cidade, bem como nas regiões do Vale do Ave e do Vale do Sousa. É especializado no estudo das classes sociais e das práticas simbólico-ideológicas.

Por detrás do pseudónimo literário João Habitualmente, conhecido pela sua poesia, encontra-se José Luís Fernandes, outro dos participantes neste debate. É docente na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e em 2013 venceu o Prémio de Excelência Pedagógica atribuído por este estabelecimento de ensino superior. Em 1999 publicou a obra “O sítio das drogas” e dois anos depois foi editado o trabalho “Pelo rio abaixo – crónica de uma cidade insegura”.

Proveniente de uma área distinta, estará presente o assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã José António Pinto. A 10 de dezembro de 2013, deixou na Assembleia da República a medalha de ouro comemorativa do 50.º aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos, que lhe tinha sido atribuída pela sua ação social no Porto.

“Troco esta medalha por outro modelo de desenvolvimento económico”, disse perante todos os presentes no Parlamento. “Não quero medalhas, quero que os cidadãos deste país protestem livremente e de forma digna dentro desta casa e quando reivindicam os seus direitos por uma vida melhor não sejam expulsos pela polícia destas galerias”, concluiu, arrancando um aplauso generalizado.

Uma tragédia grega adaptada à realidade brasileira

Depois do simpósio, será exibido o documentário “Orestes”, do realizador brasileiro Rodrigo Siqueira. Trata-se de uma adaptação para a realidade brasileira da tragédia grega homónima, escrita por Ésquilo.

“Através de uma série de psicodramas o filme coloca em diálogo dois momentos da história do Brasil: a ditadura militar dos anos 1970, que terá deixado marcas profundas nas narrativas oficiais e na subjetividade dos brasileiros, e a violência policial que, segundo Siqueira, caracteriza o presente político”, informa a organização em comunicado.