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Graffitis mortais. Porque é que os jovens arriscam tanto?

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BACKJUMP. A morte de três jovens na segunda-feira em Águas Santas, um apeadeiro no concelho da Maia, trouxe uma palavra que só é usada por graffiters para a esfera do grande público

nuno fox

Nord, como era conhecido um graffiter de 18 anos de Matosinhos, e dois espanhóis que estavam com ele foram atropelados quando forçaram a paragem de um comboio para o pintar. “São jovens que gostam de confrontar os limites que lhes são impostos por pura diversão”, diz Pedro Soares Neves, um investigador deste fenómeno

Tinham estudado o horário dos comboios que paravam em Águas Santas, um apeadeiro da linha do Minho que faz a ligação entre a estação de S. Bento no Porto e as estações de Braga e Guimarães. Mas esqueceram-se de estudar os comboios que passavam sem parar no sentido contrário.

Enquanto um deles prolongava a paragem de um comboio em frente ao cais de embarque, forçando uma das portas, os outros três que pinchavam o comboio do lado de fora, junto aos carris, em plena linha, foram colhidos por uma composição que seguia a alta velocidade às oito e meia da noite, na segunda-feira. João Dias, de 18 anos, um graffiter de Matosinhos conhecido como Nord, e dois jovens espanhóis de 18 e 20 anos que estavam com ele não resistiram ao impacto e morreram.

“O que aqueles jovens estavam a fazer, um backjump, que significa saltar para as costas de um comboio, não é muito comum em Portugal”, esclarece Pedro Soares Neves, um investigador da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa que estuda há vários anos o universo dos graffiti e que já foi ele próprio um graffiter. “As minhas experiências com comboios nos anos 90 correram mal. Ou fui apanhado ou tive de fugir. Bastaram-me três vezes para não querer repetir isso”, confessa. Soares Neves explica que “as práticas mais comuns em Portugal são de intervenções em comboios quando estão nos chamados yards, os dormitórios onde passam a noite.”

Fundador do projeto Urban Creativity, uma plataforma internacional que junta académicos de vários países que se dedicam a estudar a cultura dos graffiti e a street art, Pedro Soares Neves sublinha que a realidade do sul da Europa, incluindo Portugal, é muito diferente dos países nórdicos, onde o backjump é uma prática mais comum e onde os graffiters são bastante agressivos. “Procuram, na maior parte das vezes, o confronto direto com as autoridades.”

Vítima João Dias, que usava a alcunha de Nord, numa das fotografias postas a circular nas redes sociais nos últimos dias

Vítima João Dias, que usava a alcunha de Nord, numa das fotografias postas a circular nas redes sociais nos últimos dias

D.R

A motivação destes jovens em Portugal resume-se a uma ideia de “pura diversão” , diz Soares Neves. “Há uma irreverência típica das crianças. Existem figuras de estilo e comportamentos tipificados, muitos deles com origem nos Estados Unidos e que foram sendo adaptados na Europa. Querem divertir-se, confrontar os limites que lhe são impostos, contornar as proibições. Ultrapassá-las é um desafio.”

O investigador da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa é um dos consultores que irão participar na próxima segunda-feira, dia 15, num encontro internacional na University College London, em Londres, dedicado precisamente à subcultura dos graffiti em transportes públicos.

O encontro está integrado num projeto financiado por fundos da União Europeia e que é organizado por um consórcio em que participam autoridades policiais, empresas de transportes e investigadores de ciências sociais. “É a primeira vez que há este tipo de cruzamento. Até ao momentos, as companhias de comboios juntavam-se apenas com as forças de segurança, para perceberem como podiam resolver o problema. Os custos com a limpeza do material circulante são muito elevados, mas já se percebeu que a solução passa por alargar o foco da abordagem.”

Contactada pelo Expresso, a CP não esteve disponível para quantificar o número de incidentes de que tem sido alvo por parte de graffiters. “Sempre que uma situação é detetada, informamos as autoridades competentes”, limitou-se a dizer Ana Portela, porta-voz da empresa. A limpeza das carruagens custa centenas de milhares de euros por ano.

Questionada na quarta-feira, a direção nacional da PSP não pôde adiantar até ao fecho desta edição o número global de incidentes reportados à polícia. E sobre quantos deram origem a processos-crime.

Antes do acidente fatal de segunda-feira, houve um outro caso de que resultou uma morte, em 2003, quando um graffiter, Miguel Ângelo, conhecido como Vneno, acabou eletrocutado na linha do Metro de Lisboa, na estação do Rato.

Em relação ao incidente de Águas Santas, de acordo com o “Jornal de Notícias”, que citou uma fonte do comando distrital do Porto da PSP, foram entretanto identificados dois jovens de nacionalidade espanhola que estariam com as três vítimas no apeadeiro e que se puseram depois em fuga.

[Texto publicado na edição do Expresso Diário de 9 de dezembro de 2015]