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O que têm em comum Capicua, Januário Torgal Ferreira e Viriato Soromenho Marques?

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MIGUEL REFRESCO

A rapper, o bispo e o professor catedrático são três dos subscritores, entre dezenas de ativistas, investigadores e artistas, da Marcha pela Justiça Climática, que sai à rua este sábado - inclui Lisboa, Porto e Faro. “Tudo o que dá a Terra / Deves à Terra / Tu faz a Terra Feliz”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Este sábado, um dia depois da data final para que em Paris se chegue a um acordo global para enfrentar as alterações climáticas, centenas de pessoas, entre as quais ativistas, investigadores e artistas, saem à rua em várias cidades para aplaudir ou criticar o que sair da 21ª Cimeira do Clima.

Entre os subscritores da Marcha pela Justiça Climática estão a rapper Capicua, o filósofo Viriato Soromenho Marques e o bisco Januário Torgal Ferreira, que falaram ao Expresso sobre as suas preocupações por uma maior justiça ambiental, social e política. Todos esperam que de Paris surja "um bom acordo", para bem do Planeta.

“Faz a Terra feliz”

"As causas ecológicas não são ideológicas, mas de sobrevivência", sublinha Ana Fernandes, mais conhecida como Capicua. Para a rapper, "é preciso exigir aos Estados que imponham políticas para reduzir os impactos ambientais das alterações climáticas na nossa civilização".

As preocupações ambientalistas da cantora também se fazem refletir no seu trabalho. E demonstra-o no concerto "Mão Verde" que subirá ao palco do Teatro-Estúdio Mário Viegas, em Lisboa, sexta e sábado. "Tudo te dá a Terra/ De pés na Terra/ Tu vês na Terra a raiz/Tudo o que dá a Terra/Deves à Terra/ Tu faz a Terra Feliz" é um dos poemas que cantará para o público infantil.

"A música deve servir como ferramenta para mudar o mundo", diz, convicta de que as letras das suas músicas também refletem as suas preocupações sociais e políticas. Quanto ao que espera da Cimeira de Paris, é simples: "Um acordo - porque estamos a falar da sobrevivência do Planeta e isto é real e não uma mera folha de excel."

“Não podemos mudar as regras da natureza”

O filósofo e ambientalista Viriato Soromenho Marques também se juntou ao movimento porque partilha a preocupação comum de insatisfação pela assimetria e contínuo adiamento de uma solução para combater as alterações climáticas. "Há uma incapacidade (dos dirigentes globais) de perceberem que não estamos a negociar uns com os outros, mas lado a lado e que não podemos mudar as regras da natureza", sublinha.

O professor catedrático lembra que "quando dizemos que não podemos ultrapassar os dois graus Celsius estamos a partir de uma derrota, pois já atingimos o ponto de não retorno e agora apenas podemos minimizar os seus impactos". Isto porque já se atingiram concentrações de dióxido de carbono na atmosfera que colocaram as alterações climáticas em marcha.

Agora é preciso reduzir as emissões futuras, sobretudo a partir de 2020, para que os eventos extremos projetados em todos os cantos do Planeta sejam atenuados e para que diferentes países se possam adaptar ao que os espera, sejam inundações mais violentas ou secas mais extremas, escassez hídrica ou perda de território com a subida do nível do mar, entre outros impactos ambientais. "Já se perderam muitos anos e resta saber se vamos conseguir fazer alguma coisa se continuarmos a manter as medidas e metas facultativas."

Aquilo que se considera como um "acordo ambicioso" em Paris passa por um tratado que imponha metas obrigatórias a todos os Estados presentes na cimeira da ONU, que possam ser revistas periodicamente e fiscalizadas sob pena de sanções. Porém, o filósofo não acredita que se chegue a um acordo assim tão ambicioso. "É uma questão-chave, mas Barack Obama já disse que não aceita um acordo vinculativo, porque não o conseguirá fazer passar no Congresso - que lhe é hostil. E a China também não aceitará." Contudo, Viriato Soromenho Marques ainda espera que "se as metas puderem ser revistas com regularidades, se possa minimizar a falha de um acordo vinculativo".

“Uma preocupação de civilidade”

Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas, lembra que "tudo isto (o planeta) é nosso e não só de meia dúzia". Por isso, "perante a gravidade das consequências das alterações climáticas", espera "que o dinheiro e os interesses regionais não se sobreponham ao bem-estar comum". A Marcha pela Justiça Climática enquadra-se na sua "sensibilidade face a todas as questões de justiça social e bem-estar comum" e é vista como "uma preocupação de civilidade" que vai além do que se negoceia em Paris.

"Reivindicamos respostas concretas e eficazes para a crise climática e ambiental global, pois está nas nossas mãos empurrar para a frente alternativas credíveis e justas para um planeta mais seguro e com futuro para as gerações vindouras", afirma ao Expresso João Camargo, doutorando em alterações climáticas e um dos organizadores da Marcha pela Justiça Climática.

O ativista lembra que, independentemente das conclusões da COP21, o assunto não vai desaparecer. "A cimeira do clima estará fechada, mas as alterações climáticas e outras causas continuarão na mesa", sublinha.

Além da manifestação prevista para sábado em Lisboa, que descerá do Marquês de Pombal até ao Rossio a partir das 15h, estão previstas mais duas grandes manifestações, uma no Porto (Largo do Terreiro) e outra em Faro.

Entre os signatários encontram-se ainda cientistas e académicos como Filipe Duarte Santos, Gil Penha-Lopes, Luísa Schmidt ou Júlia Seixas, ex-governates ou políticos como João Ferrão, João Cravinho, ou Francisco Louça, artistas como Vhils ou Sérgio Godinho e ambientalistas como Francisco Ferreira, João Joanaz de Melo ou Eugénio Sequeira.