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Que sentido faz o sentido do voto?

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Como é que cada concelho votou nestas eleições? E o que mudou? Cruzámos as votações com indicadores económicos e sociais para perceber que ligações existem

Raquel Albuquerque

Raquel Albuquerque

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Jornalista

Sofia Miguel Rosa

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Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Ilustração Paulo buchinho


Horas depois de terem fechadas as urnas, já na madrugada de 5 de outubro, desenhou-se um novo mapa eleitoral do país. Com base nos resultados das eleições legislativas da véspera, cada concelho transformou-se na cor do partido mais votado e, pintados os 308 municípios, o retrato parecia homogéneo — mais ainda do que no final das eleições anteriores: o Norte e o Centro a laranja, o Sul a cor de rosa e alguns pontos a vermelho.

Só que por trás das cores estão 5.380.451 portugueses — cada um resumindo num voto a sua vontade, decisão e opinião sobre o que ficou para trás e o que devia vir pela frente. Dúvidas e certezas, esperanças e angústias, tanto de quem tenha recentemente aberto um negócio de sucesso ou o tenha visto falir, de quem conseguiu pedir um empréstimo para comprar casa ou de quem a perdeu, de quem regressou a Portugal ou de quem viu um familiar deixar o país.

Dez dias depois, contados os votos dos emigrantes, 5.408.805 portugueses tinham votado, 44,14% não tinham ido às urnas, e chegavam os resultados: PSD/CDS com a maior percentagem de votos (36,86%), seguido pelo PS (32,31%), BE(10,19%), CDU (8,25%) e PAN (1,39%). Ainda que as cores do mapa façam o retrato da votação parecer simples (por mais disputadas que tenham sido as interpretações posteriores), interessa perguntar: como foi a votação, concelho a concelho? Será que onde o desemprego mais aumentou a votação foi diferente? Será que nesse concelho os eleitores beneficiaram os partidos da oposição e, noutro local, onde os indicadores económicos melhoraram, votaram mais no partido que liderou o Governo?

Ilustração Paulo buchinho

Ilustração Paulo buchinho

A resposta não é simples, nem fácil de encontrar. Primeiro, porque o voto é secreto. E também porque para estabelecer essas correlações são necessárias análises estatísticas pormenorizadas. A variedade de opiniões e perceções que cada um pode ter em relação ao que o rodeia — e ao que foram os últimos quatro anos — é suficiente para perceber que nada é a preto e branco.

As análises estatísticas existem, tanto em Portugal como noutros países, procurando perceber o comportamento dos eleitores e o que influencia o voto. E os investigadores não têm dúvidas quanto ao peso da economia no voto. “Existe um padrão”, defende Marina Costa Lobo, politóloga e investigadora da Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS). “As pessoas estão atentas à situação económica, tanto do seu agregado familiar como do país. Olham sobretudo para o passado recente, mas também têm um pouco em conta o que são as expectativas para o futuro próximo. E tendo em conta que estas avaliações premeiam um governo que conseguiu ter uma performance boa em relação à economia e tendem a castigar aquele que não o conseguiu.” O desemprego é, entre os indicadores económicos, o “mais importante para aferir a performance do governo em Portugal”.

Para traçar um retrato entre a votação de cada concelho e seus indicadores económicos e sociais, o Expresso recolheu dados dos resultados eleitorais, disponibilizados pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, e vários indicadores estatísticos da Segurança Social, Instituto Nacional de Estatística, Direção-Geral de Saúde, Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia, alguns deles reunidos pela Pordata.

O número de votos por partido em cada concelho e a percentagem de votação, o número de eleitores inscritos, de votantes e de abstenção, tanto nas legislativas de 2015 como de 2011, permitem saber onde é que cada partido ganhou ou perdeu mais votos e em que concelhos o partido mais votado foi, este ano, diferente das eleições anteriores.

Comparados os dados em cada concelho, e olhando para os cinco partidos ou coligações que elegeram deputados (PSD/CDS, PS, BE, CDU e PAN), percebe-se que o Bloco de Esquerda foi o único partido que ganhou votos em todos os concelhos do país. Entroncamento (distrito de Santarém) e Portimão (Faro) ficam à frente com as maiores taxas de votação. Situação oposta teve a coligação PSD/CDS: a perda de votos aconteceu em 306 dos 308 concelhos. Vizela (distrito de Braga) e Felgueiras (Porto) foram os únicos casos onde o número de votos aumentou ligeiramente.

Já o PS e a CDU perderam em alguns locais, ganharam noutros. O PS perdeu votos em 50 concelhos: Vizela e Felgueiras voltam a ser os locais com as maiores quebras relativas e em Guimarães registou-se a maior descida em termos absolutos. Já alguns concelhos dos Açores, onde o PS ganhou, estão entre as maiores subidas de votos no partido. A CDU perdeu votos em 116 concelhos e ganhou em 189: Avis (Portalegre) e Mora (Évora) estão no topo das taxas de votação.

Uma comparação mostra que em 79 concelhos o partido mais votado não foi o mesmo de há quatro anos. A CDU perdeu cinco (Moita, Cuba, Viana do Alentejo, Aljustrel e Alpiarça) para o PS. Em 71 concelhos, o PSD viu os socialistas passarem à frente no número de votos. E o contrário aconteceu em três municípios — Guimarães e Fafe (distrito de Braga) e Santo Tirso (Porto) — onde o PS viu o PSD/CDS ter o maior número de votos, contrariando o que acontecia desde as legislativas de 2005.

Poderá a economia destes concelhos explicar as mudanças nas votações? Para tentar responder, recorremos a vários dados de cada concelho em 2011 e 2014: proporção da população a receber subsídio de desemprego, ganho médio mensal dos trabalhadores por contra de outrem, variação da população residente e de jovens, envelhecimento, poder de compra do município e per capita, taxa de sobrevivência das empresas, número de habitantes por médico e proporção de população residente a receber Rendimento Mínimo Garantido (RMG) ou Rendimento Social de Inserção (RSI). Sendo o desemprego o indicador referido como o que tem mais peso na avaliação do desempenho da economia, selecionámos os concelhos onde mais aumentou e diminuiu a proporção da população a receber subsídio de desemprego. Vizela (Braga), Guimarães (Braga), Ponte de Sor (Portalegre), Santo Tirso (Porto) e Vila Nova de Famalicão (Braga) foram os cinco concelhos onde o indicador mais melhorou, deixando de estar entre os dez concelhos com as piores posições. No extremo oposto está Barrancos (Beja), Albufeira (Faro), Povoação (Açores), Santa Cruz das Flores (Açores) e Sines (Setúbal), onde a percentagem de população a receber subsídio de desemprego mais se agravou. De 2011 para 2014, quatro destes concelhos (exceto Santa Cruz das Flores) passaram a estar entre as piores posições do país.

Uma das primeiras constatações é que alguns dos concelhos que mais pioraram no indicador do desemprego mudaram o sentido de voto. Vizela teve a maior quebra no indicador do desemprego e viu aumentar o ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem, deixando de estar entre os concelhos onde em 2011 se ganhava menos. O poder de compra subiu, a proporção da população a receber RMG e RSI diminuiu e a população aumentou ligeiramente (o que só aconteceu em 36 concelhos do país). Como em muitos outros concelhos, o envelhecimento acentuou-se e a taxa bruta de natalidade decresceu. Desde que Vizela é concelho (1998), o PS tem sido sempre o partido mais votado nas legislativas (37,59% nestas eleições). Este ano teve a maior queda de votos no partido, em termos relativos, e é um dos dois únicos concelhos com mais votos no PSD/CDS em relação a 2011, tendo também subido a votação no BE e na CDU.

Com a segunda melhor diminuição no indicador do desemprego, também Guimarães assistiu a uma melhoria de outros dados económicos: teve a terceira maior subida do poder de compra no país, viu aumentar o ganho médio mensal e diminuir a percentagem de população a receber RSI e RMG. Mas também teve uma das dez maiores perdas de população, envelheceu e viu diminuir a taxa bruta de natalidade. Contados os votos do concelho, conclui-se que pela primeira vez desde 1995 o partido mais votado foi o PSD/CDS — não resultando, porém, de uma maior votação. O Bloco e a CDU foram as únicas forças políticas com aumento de votos.

Saltando para o outro extremo dos concelhos onde a população a receber subsídio de desemprego mais aumentou, os dados estatísticos são mais díspares. Têm em comum uma diminuição da percentagem de população com RMG e RSI, e a perda de população. Se Sines é o único concelho, entre os cinco, onde o poder de compra diminuiu, Albufeira viu o envelhecimento da população desagravar-se e registou uma das dez melhores taxas de sobrevivência das empresas (75% dos negócios criados há dois anos mantinham-se abertos em 2014). À exceção de Albufeira, nos restantes quatro o PS foi o mais votado e em todos houve um aumento de votos no BE e no PS.

A ligação entre economia e voto pode não ser clara numa comparação direta de indicadores, mas essa certeza existe. “Existe um voto económico, sem dúvida”, afirma Marina Costa Lobo. “No entanto, esse voto económico pode ser mais forte ou menos forte dependendo da clareza da responsabilidade que se pode atribuir ao Governo.” A investigadora diz que “no contexto da crise da zona euro, quem responsabiliza a troika ou o BCE ou as entidades europeias em geral pela crise, tende a desresponsabilizar o Governo”. Ou seja, quanto mais se perceciona que a culpa pela situação económica não é do Estado, menos efeito tem o voto económico.

O que está em causa é que a determinado momento, no fim de cada mandato, o eleitor faz uma avaliação da conjuntura, levantando “os fatores de ‘custo’ e ‘benefício’, face à oferta eleitoral que é apresentada”, explica Paula Espírito Santo, docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP). “Esta avaliação traz uma ponderação do resultado, conjugado com as alternativas partidárias ou políticas presentes e que concretizará um ‘lucro’ eleitoral, na tomada de decisão no momento do voto.”

E há formas diferentes de fazer essa avaliação. André Freire, politólogo e investigador do ICS, há vários anos que estuda o tema. E levanta duas hipóteses quanto ao comportamento: uma de “responsabilização”, segundo a qual os eleitores “tenderão a penalizar” o Governo incumbente em períodos recessivos “deslocando o seu voto para os partidos da oposição”, fazendo o contrário em períodos de prosperidade económica, ao beneficiarem o partido. E outra que passa pela escolha do que devem ser as “prioridades políticas” de um governo. Ou seja, “os eleitores mais atingidos pelo desemprego ou que o percecionam como uma prioridade política, em determinada conjuntura, tenderão a votar mais nos partidos de esquerda; pelo contrário, os eleitores mais atingidos pela inflação ou que percecionam o combate a ela como uma prioridade política, em determinada conjuntura, tenderão a votar mais nos partidos de direita”.

Onde não restam dúvidas, segundo André Freire no livro “Mudança Eleitoral em Portugal”, é que “as questões do desemprego e da inflação assumem especial relevo na vida dos indivíduos”, quer o voto resulte de uma “determinada vivência pessoal” ou resultado da “avaliação das condições económicas nacionais ou locais”.

Ilustração Paulo buchinho

Ilustração Paulo buchinho

Ser fiel a um partido

A identificação partidária e a simpatia pelos líderes são outras duas peças-chave no comportamento de voto, segundo Marina Costa Lobo. Mas poderá a tradição de voto num partido sobrepor-se ao impacto negativo do aumento do desemprego num determinado concelho? “Sim, é possível. A identificação partidária é um fortíssimo preditor do voto. A responsabilidade pode ser mitigada pelas circunstâncias, pelas explicações que são dadas, pelas perceções da competência relativa das alternativas ao partido de governo (será que o outro faria melhor?).”
Também Paula do Espírito Santo lembra que para uma parte do eleitorado o partido continua a ser a “determinante única da escolha eleitoral”, em particular nos partidos que são “mais ancorados ideologicamente, como por exemplo o Partido Comunista Português”. Nesse sentido, a tradição pode impor-se em concelhos onde “a cultura de voto traduza uma base identitária enraizada ao longo do tempo em aspetos de ordem histórica, económica, política e social”, sendo possível identificar locais “onde a flutuação de voto é mais reduzida, predominando um clima de força política e partidária, aliada a um partido ou coligação”. Falar em tradição pode estar ligado à análise de outros dados: os da abstenção, que nestas eleições atingiram o valor mais alto de sempre numas legislativas. Em 75 concelhos pelo menos metade dos eleitores inscritos não votou. E há sete casos onde a abstenção ficou acima de 60% (Melgaço, no distrito de Viana do Castelo, registou a maior taxa, com 67,12%). Contudo, falar de abstenção requer também lembrar o impacto que a emigração recente terá tido nos cadernos eleitorais.

António Samagaio, investigador auxiliar do Centro de Investigação em Gestão de Informação, especialista em geografia eleitoral, lembra algumas variáveis a ter em conta quando se fala do número de pessoas que não se deslocaram às urnas. “As características orográficas, conjugadas com o envelhecimento da população, tendem a condicionar a taxa de votação num conjunto significativo de freguesias ou concelhos. Infelizmente, esta é uma realidade cada vez mais presente na sociedade portuguesa.”

Porém, entre os concelhos com menor abstenção o retrato é diferente. Sardoal (distrito de Santarém), Vila de Rei (Castelo Branco), Mação (Santarém), Vila Velha de Ródão (Castelo Branco) e Avis (Portalegre) registaram os níveis de abstenção mais baixos e, no entanto, têm em comum as maiores perdas de jovens, os mais elevados níveis de envelhecimento e registam os maiores agravamentos desse indicador nos últimos quatro anos. A tradição de votar e o valor dado a essa participação política podem explicar esses números.

Entre os mais de cinco milhões de portugueses que votaram a 4 de outubro estaria quem votou pela 15ª vez numas legislativas e quem votou pela primeira vez, quem votou no mesmo partido de sempre ou que desta vez optou por um diferente. E entre os que não se sentem fiéis a um partido, a economia poderá ter tido um papel na decisão de voto. “O que sabemos é que existe um contingente cada vez maior de desalinhados partidários, embora não necessariamente desalinhados ideológicos.”


Texto publicado na edição do Expresso de 28 novembro 2015