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Porque demoramos a sair do ninho?

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A idade adulta já não é sinónimo de estabilidade ou de independência. E se este é um sintoma global, em Portugal sai-se de casa dos pais cada vez mais tarde. O desemprego e a crise são razões de peso, mas não só: há também questões culturais à mistura

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

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Jornalista

Ana Serra

Ana Serra

Infografia

Emprego, sair de casa, casar, ter filhos. Durante décadas, esta foi a ordem mais ou menos previsível de acontecimentos que marcavam a entrada na idade adulta. E essa entrada acontecia, com matizes, no final da adolescência, quando o ingresso no mercado de trabalho tornava possível a realização do projeto conjugal. Saía-se para casar e casava-se mais cedo. Os filhos vinham a seguir. Ser adulto era sinónimo de estabilização de um processo inquieto, de chegada a um lugar sólido e definitivo.

Já não é assim. Já não se sai de casa exclusivamente para casar ou ter filhos. Nem o emprego representa a almejada autonomia. E tudo o que antes ocorria cedo passa-se cada vez mais tarde, sendo esse ‘tarde’ condicionado por fatores flutuantes como o prolongamento dos estudos, o desemprego ou o simples facto de a negociação familiar permitir conciliar estados tão díspares como a autonomia e a dependência. Segundo os últimos números do Eurostat, os jovens portugueses são dos que mais tarde abandonam o ninho, ocupando o sétimo lugar entre os 28 membros da União Europeia. A idade média em que o fazem é 29 anos, contrastando com a Suécia (onde a emancipação se dá aos 19,6), a Dinamarca (aos 21) ou a Finlândia (aos 22).

Porém, estes números nada dizem por si sós. Requerem o cruzamento com outros, nomeadamente com os do desemprego jovem que, de acordo com a mesma fonte, em Portugal atingia o 34,7% em 2014, situando o país em sexto lugar e muito acima dos 22,2% da média europeia. E ainda com as situações de carência extrema entre jovens, item no qual Portugal — diz-nos o relatório “Social Situation of Young People in Europe” do Eurofound — ocupa a quarta posição na UE, a seguir ao Chipre, à Bulgária e à Hungria. Em contrapartida, a Suécia tem a menor taxa de carência aliada a um desemprego jovem de 23%. Cartas baralhadas, uma das conclusões a tirar é a de que a idade da emancipação não pode ser analisada sem ter em conta a situação social de cada país.

“Se houvesse uma sociedade de pleno emprego, a estada em casa dos pais seria menos prolongada”, garante Vítor Sérgio Ferreira, sociólogo do Instituto Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e há uma década coautor do estudo “Tempos e transições de vida — Portugal ao espelho da Europa”. Nessa altura era já possível verificar nos jovens uma ‘disritmia’ ou desencontro “entre as idades normativas, em que as coisas deveriam acontecerem, e a idade real em que de facto acontecem”. “Continuam a existir idades ideais e prescritivas para determinadas vivências, mas na prática estamos longe de que estas correspondam à realidade, e a crise veio acentuar esta distância”, diz.

Ser adulto é hoje uma condição sobressaltada e a braços com um desemprego que assume contornos estruturais. “Com uma noção de emprego intermitente, ser adulto já não é sinónimo de estabilidade. Cada vez mais, durante a vida, haverá momentos de desemprego, que podem significar ter de voltar para casa dos pais. Esse cenário de reversibilidade da autonomia é um traço marcante da geração que hoje tem 30, 40 anos”, remata Vítor Ferreira.

Mas o que significa ser adulto hoje? Será a emancipação tardia dos portugueses fruto apenas de condicionantes económicas? Nos Estados Unidos, uma análise do Pew Research Center sobre os dados do censos de 2015 revelou que o número de jovens dos 18 aos 34 anos a residirem com os pais recuou para os níveis de 1940, chegando a ultrapassá-los no caso das mulheres — quadro que nem a retoma do mercado de trabalho conseguiu inverter. Isto levou Jed Kolko, economista e investigador da Universidade da Califórnia, a lançar outra hipótese: não é apenas por falta de emprego que os jovens vivem com os pais e não é por viverem com os pais que adiam o casamento e a paternidade; é por casarem e serem pais mais tarde que ficam mais tempo em casa dos pais. “As mudanças demográficas sugerem que este pode ser o ‘novo normal’”, escreveu há dias no seu blogue.

É por esta razão que Cláudia Andrade defende a introdução do conceito de “adultez emergente”, oposto ao de ‘adolescência tardia’. Em causa está “um período de exploração das opções de vida ou uma espécie de moratória que se prolonga até aos 30 anos, suportada pela família, e que só é possível porque culturalmente não há sanção”, explica a psicóloga social e professora na Escola Superior de Educação de Coimbra, com doutoramento feito na área. Em Portugal, esta fase normalizou-se mesmo antes da crise e de a taxa de desemprego disparar, o que leva Cláudia Andrade a pressupor a existência de um traço cultural.

“A família portuguesa é muito apoiante e, em geral, os jovens em transição para a idade adulta estão confortáveis em casa dos pais. E a sua autonomia é construída dentro desse espaço. Preferem não arriscar a saída, pois esta implica ver decrescer o padrão de vida”, diz a psicóloga, apontando como significativo o facto de, mesmo estudando noutra cidade, estes “terem no horizonte o voltarem a casa ao fim de semana e no fim do curso”. Há um dado curioso: as raparigas emancipam-se mais cedo e muitas vezes saem do ninho sem um projeto conjugal, enquanto os rapazes fazem-no mais tarde e tendo como objetivo uma vida a dois.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro 2015