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Ela move-se. E nós também

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O mundo é uma aldeia global, quando alguém se desloca leva um pedaço dela. Desde os anos 70 há mais 1% de pessoas a migrar

Carolina Reis

Carolina Reis

Texto

Jornalista

Ana Serra

Ana Serra

Infografia

Um primeiro-ministro francês nasceu em Barcelona. A torre dos Jogos Olímpicos ingleses foi concebida e desenhada por um indiano. O vice-campeão dos 100 metros em Atenas, em 2004, vestia a camisola portuguesa, mas tinha a Nigéria como naturalidade. A primeira mulher a ocupar o cargo de secretária de Estado dos Estados Unidos nasceu em Praga. Uma brasileira de origem africana foi eleita Miss Itália...

Ser de um país não significa que se nasceu no seu solo. Os fluxos migratórios existem desde que existe o mundo. “As pessoas deslocam-se à procura de lugares onde encontrem melhores condições de vida”, diz Jorge Macaísta Malheiros, professor de Geografia. Ao todo, contam-se 231,5 milhões de migrantes, uma realidade que vem crescendo desde os anos 70. Há mais 1% de população ativa a mudar de país, o que equivale a umas centenas de milhares de pessoas a deslocarem-se.

Emigrar é levar um bocado de um mundo para outro. Dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que quase 40% da população do Luxemburgo é proveniente de outros países, muito por causa dos portugueses que para lá emigraram, constituindo hoje 16% da população. Quase 10% (9,65%) dos nascimentos no Canadá, onde 15,17% dos imigrantes chegaram em idade adulta e 5,73% em crianças, são de filhos de imigrantes e 7,25% de casais mistos, com um pai estrangeiro, valores que nos EUA passam a 6,79% e 4,36%, respetivamente.

Conhecido por ser um país de acolhimento, tendo sido assim que se constituiu como nação, a terra de Barack Obama, filho de um queniano que emigrou para estudar, tem hoje 75,64% da população de americanos, apesar de quase todos terem tido origem noutro país. Em França, e com um contributo grande de Portugal, 6,32% das crianças que nascem são filhas de imigrantes e 8,26% tem um dos pais estrangeiro. Na República Checa, 2,20% da população é composta por adultos que escolheram o país para viver e 0,92% dos nascimentos são de filhos de estrangeiros. Estes números são inferiores em Espanha (1,71%) e em Portugal (0,42%), que tem uma população cuja maioria se divide entre brasileiros (101.891) e cabo-verdianos (37.081). Valores baixos quando comparados com o total da OCDE, com 4,30% de nascimentos de filhos de imigrantes e 3,56% de nascimentos em que um dos pais é estrangeiro.

Isto deita por terra a perceção de que somos um país com muitos estrangeiros. “É um pensamento típico de uma sociedade pós-colonial. Somos desde o século XIX aqueles que emigram, uma sociedade da diáspora”, explica o historiador Manuel Loff. O primeiro impacto da imigração começa, na segunda metade do século XX, com a chegada de jovens cabo-verdianos que vieram estudar para a metrópole. São uma minoria e filhos de funcionários intermédios da administração pública, lugares que o Estado Novo disponibilizava a mestiços, indianos e chineses e que estavam vedados aos negros. A imigração cabo-verdiana, contudo, intensifica-se com o boom da construção, a partir dos anos 60. Estabelecem-se as raízes de uma comunidade que se concentra em poucas zonas: linha de Sintra, Oeiras e, em menor quantidade, Algarve.

“São em geral contribuintes líquidos para os sistemas de segurança social e em termos de impostos. Reforçam a oferta de mão de obra em segmentos do mercado de trabalho em que ela é muitas vezes escassa, mesmo em contextos de desemprego, como é o caso dos cuidados pessoais a idosos. Um outro benefício é a propensão por parte dos imigrantes para a constituição de empresas, muitas vezes geradoras de postos de trabalho adicionais”, explica Alexandre Abreu, investigador do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). São também eles que estabelecem pontes entre as sociedades de origem e de acolhimento, servindo de apoio à internacionalização económica. “Têm efeitos diretos na população ativa”, diz Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia (APD). Os benefícios vão, no entanto, além da economia. “Se Nova Iorque ou Londres são metrópoles cosmopolitas, dinâmicas e criativas, isso deve-se principalmente ao afluxo de pessoas de todo o mundo ao longo do tempo. E o mesmo sucede, a uma escala e de uma forma distintas, com Lisboa e outras cidades portuguesas”, frisa Alexandre Abreu.

Vantagens para a economia, desafios para a sociedade que historicamente tem receado a imigração. “Nas sociedades europeias, os imigrantes levam mais tempo a integrar-se, a fundir-se com o cidadão médio. Já na América há um sistema mais integrador, embora um pouco à força. Não há outro remédio, pressupõe-se que é assim porque tem de ser assim”, sublinha Manuel Loff. Isto é fruto de uma moral forçosamente integracionista em que cada cidadão tem de se assumir como filho da pátria. A língua funciona como ator fundamental. Portugal está habituado a acolher nativos de português, contudo, “se queremos ser ativos e captar estrangeiros de outras atitudes, temos de promover formação linguística e facilitar o reconhecimento das suas capacidades”, defende Maria Filomena Mendes.

Agora, na era da globalização, erguem-se muros, físicos e políticos, para impedir as migrações. “Torna mais difícil e mais caro, mas as pessoas chegam na mesma”, diz Macaísta Malheiros. As limitações à livre circulação de pessoas aumentam, mas a livre circulação de informação, que deixou de ser feita através das famílias e funciona hoje muito pelas redes sociais, a integração nos mercados de trabalho e os enormes esquemas globais de tráfico contrapõem-se ao controlo de fronteiras.

As rotas manter-se-ão nos próximos 20 a 30 anos. Primeiro a Europa, depois a América do Norte. Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Singapura tornar-se-ão países emergentes de acolhimento. Continuará a vencer a vontade de sair. “O direito à mobilidade, o direito a procurar um sítio melhor para viver, especialmente se estiver em causa escapar à guerra, à pobreza ou ao desemprego, deve ser visto como fazendo parte dos Direitos Humanos. Nós, portugueses, exercemos esse direito há largas décadas”, conclui Alexandre Abreu.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 novembro 2015