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Ataque falhado em Londres volta a colocar Leyton no mapa do terrorismo

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ENCERRADA. Entrada da estação de metropolitano de Leytonstone, zona este de Londres, onde foram feridas duas pessoas na tarde de sábado

NEIL HALL/reuteres

Muhaydin Mire, o homem de 29 anos que esfaqueou duas pessoas no sábado no metro de Londres, vivia no bairro onde se radicalizou o grupo de jiadistas portugueses que combate na Síria. Tinha imagens do conflito da Síria no telemóvel, padecia de problemas mentais e consumia drogas

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A Sanson Road é uma rua pacata, dominada por edifícios de tijoleira iguais a tantos outros da zona Este e afastada das principais lojas, casas de kebab e mesquitas do ‘Londonistão’, designação pejorativa dada aos arredores da capital onde habita a comunidade muçulmana. Era ali que morava Muhaydin Mire, o homem de 29 anos que esfaqueou duas pessoas, uma delas com gravidade, sábado à tarde na estação de metro de Leytonstone. “Isto é pela Síria” e “Todo o vosso sangue será derramado”, gritou Mire durante o ataque falhado, que foi filmado por telemóveis de passageiros que se encontravam no local. As equipas de contraterrorismo britânicas querem saber se o atacante agiu isoladamente ou teve apoio de alguma célula local.

Não muito longe da Sanson Road fica uma das casas de Anjem Choudary, um pregador radical que tem incitado os jovens muçulmanos a combater pelo autodenominado Estado Islâmico. Já foi detido, e posteriormente libertado, por suspeitas de angariar jiadistas para a Síria e organizar uma rede terrorista com extensões por toda a Europa. A poucos quarteirões de distância situam-se também os apartamentos baratos onde moraram durante vários anos os seis portugueses que se radicalizaram em Leyton, viajando em direção à Síria para se juntarem ao Daesh. Sobre quatro deles recaem mandados de captura internacionais por atos terroristas, enquanto os outros dois morreram em combate.

O irmão do suspeito revelou entretanto que Mire estava a consumir drogas e padecia de problemas mentais desde 2007. Problemas que se terão agudizado nos últimos meses, levando a família a avisar as autoridades deste facto. A polícia inglesa confirmou a denúncia mas nada pôde fazer pois o homem nascido na Somália há 29 anos não tinha feito mal a ninguém. E não havia sinais de que se havia radicalizado.

A família contou ainda que lhe comprara um bilhete de avião para a Somália, com a esperança de que os seus problemas se resolvessem. A viagem estava marcada para o último domingo, o dia seguinte aos ataques na estação de metro.

Mire viajou com a família para o Reino Unido quando tinha 12 anos. Foram viver para Camden, no Norte de Londres. Ganhava a vida como motorista de Uber e residia na zona Este. Os vizinhos garantem que se tratava de uma pessoa calma e sem nunca causar problemas.

Para já, desconhecem-se ligações entre o grupo radical de Anjem Choudary, ou da célula de portuguesa de Leyton (que parece continuar ativa embora em lume brando), com o atacante Muhaydin Mire mas os serviços de informações do Reino Unido estão a investigar todas as pistas sobre o passado recente do atacante em Leytonstone.

Mire foi ontem acusado de tentativa de homicídio de um homem de 56 anos, a vítima que ficou em pior estado na estação de metro, e continua a ser interrogado pelas autoridades. O incidente teve lugar meses depois dos avisos insistentes dos serviços de segurança que falavam no perigo de um ataque nas ruas de Londres de um ‘lobo solitário’ inspirado pelo Estado Islâmico. A última vez que algo parecido teve lugar foi em maio de 2013 quando um militar, Lee Rigby, foi atropelado e depois esfaqueado e decapitado por dois atacantes numa rua de Woolfwish. Os autores, Michael Adebolajo, de 29 anos, e Michael Adebowale, 22, foram condenados em fevereiro de 2014, o primeiro a prisão perpétua e o segundo a 45 anos de prisão.

Vários especialistas em segurança interna ouvidos pelos jornais ingleses consideram que o incidente levanta “hipóteses sérias” de a cidade de Londres não estar preparada para responder a um atentado de larga escala como o que ocorreu a 7 de julho de 2005, matando mais de 50 pessoas.

No interior do ‘Londonistão’

No interior do ‘Londonistão’

Na multiétnica zona Este, a população é na sua esmagadora maioria pacífica e pertence sobretudo à classe trabalhadora. Mas entre a comunidade operam alguns dos movimentos islâmicos mais extremistas de Londres, como é o caso do Al-Muhajiroun (Os Emigrantes), liderado pela já referido Anjem Choudary.

Foi num desses bairros (Leyton, Leytonstone e Walthamstow), que nasceram há poucos anos as autodenominadas Brigadas Muçulmanas. Formadas por um pequeno grupo de radicais de barbas longas com ligações à extinta Sharia4UK, plataforma extremista com ligações um pouco por toda a Europa, principalmente a países nórdicos como a Holanda, Dinamarca e Bélgica, tinham como missão limpar as ruas dos sinais decadentes do Ocidente.

As patrulhas juntavam-se durante a noite e perseguiam de pessoas alcoolizadas saídas aos tombos dos pubs ou faziam pequenas manifestações nos locais mais conhecidos de prostituição e criticavam as mulheres que se vestiam “inapropriadamente”. Chegou a haver desaguisados e até tentativas de agressão contra prostitutas na mal-afamada Lea Bridge Street, em Leyton, uma longa avenida que alberga motéis, mesquitas e ginásios unissexo.

Os confrontos agudizaram-se quando os radicais proclamaram publicamente a instituição da Sharia, lei islâmica, naquela zona no final de 2013. A população local insurgiu-se contra o movimento e a extrema-direita aproveitou a boleia para fazer campanha em defesa dos valores britânicos. No início de 2014, os líderes das Brigadas foram presos e proibidos de contactarem com o pregador Anjem Choudary. A Scotland Yard tem investigado a ligação deste grupo com os dois autores condenados pela decapitação do soldado Lee Rigby em 2013. Choudary mostrou-se “orgulhoso” pelo ato de Michael Adebolajo, um dos homicidas.

Junto às mesquitas de Leyton e Walthamstow, por exemplo, há tantas mulheres de niqab ou de véu islâmico como as que andam de cara descoberta. É tal o número de muçulmanos que reside em East London — sobretudo imigrantes do Paquistão, Somália, Nigéria ou Bangladesh — que a zona se tornou conhecida por ‘Londonistão’.

O termo tem sido usado pelos media ingleses há vários anos. Foram os franceses, durante os anos 90, que batizaram estas zonas multiétnicas da capital com a designação, depois de várias operações policiais em Paris e também em Bruxelas (Bélgica) terem comprovado a ligação entre os grupos extremistas destes três países.

A escritora e jornalista conservadora Melanie Phillips tornou o termo quase oficial, no seu best-seller de 2006, “Londonistan: How Britain is Creating a Terror State Within”, escrito na ressaca dos ataques terroristas na capital britânica. A sua tese, apoiada pelos serviços de informações do Reino Unido, é a de que os atentados feitos pelos radicais puseram a nu as fragilidades dos serviços secretos ocidentais.