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A casa é sua, os milhões são dele

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A partir de três colchões insufláveis e de uma caixa de cereais, Brian Chesky e dois amigos construíram um negócio que pôs milhões de pessoas a dormir em casa de estranhos. Agora, querem revolucionar todo o mundo das viagens

Nelson Marques

Nelson Marques

Texto (em Paris)

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografia

Jornalista infográfica

Primeiro, insere-se um código para entrar no prédio. Depois, dão-se seis passos até outra porta. Mais um código. Entro. O elevador está enfiado a um canto, junto à casa da porteira. Está praticamente colado à parede: dista apenas dois pés, tamanho 46. Inútil tentar entrar com a mochila às costas e a mala à frente. O elevador é um cubículo onde dificilmente cabem duas pessoas. Coloco primeiro a mala, depois a mochila, e entro a seguir, num contorcionismo digno do Cirque du Soleil. Respiro de alívio, mas o elevador não sobe. Dou um coice na porta e tropeço atabalhoado para fora dele, riscando o relógio na parede. Bienvenue à Paris!

O melhor mesmo é subir pelas escadas em caracol até ao segundo piso, arrastando a mala pelos degraus irregulares forrados com uma velha alcatifa azul. Basta abrir a porta do pequeno estúdio para perceber que ninguém vive realmente ali. O espaço é frio, despido, impessoal. Sem alma. Só uma grande moldura Ikea com uma fotografia onde se vê a Torre Eiffel nos lembra que estamos em Paris. Tudo o resto é banal. Na sala com kitchenette há um micro-ondas e uma máquina de café em equilíbrio instável numa prateleira inclinada; uma minúscula mesa quadrangular e três cadeiras, tudo em plástico branco; um pequeno e velho móvel com uma minúscula TV; um sofá gasto; nenhum tapete. No quarto, que tem uma porta de correr empenada, há uma cama baixa, um armário modesto e uma cadeira branca como as da sala. Nada mais.

No anúncio que colocou no Airbnb, Michele, um italiano que se mudou para Paris há 14 anos e que vive noutra casa, escreveu que este é um “appartement de confort et de charme”. Mas conforto e charme é tudo o que aqui não encontro. É a primeira vez que recorro ao Airbnb, o site que permite alugueres de curta duração em habitações de todo o mundo, e estou muito longe de estar convencido. Da próxima vez, talvez fique num hotel.

Estou em Paris para tentar perceber o que leva milhões de pessoas em todo o mundo (mais de 35 milhões só nos primeiros 10 meses deste ano, 350 mil por dia) a trocar a estada numa unidade hoteleira pela casa de um qualquer estranho registado no site criado em 2008 por três amigos americanos. Vim para o segundo Airbnb Open, a convenção anual que reúne milhares de anfitriões de todo o mundo: no ano passado, em São Francisco, sede da empresa, foram 1500; este ano, em Paris, são mais de 5000, de 110 países, incluindo destinos tão improváveis como Gronelândia, Cazaquistão e Cuba, o último a entrar no mapa-mundo do Airbnb. Para participarem pagaram 260 euros só pelo bilhete de três dias. Com os voos, em muitos casos intercontinentais, e a estada é uma pequena fortuna.

Que tanta gente esteja disposta a assumir tal encargo é uma boa medida do sucesso do Airbnb, mas há outros números que ajudam a contar esta história: a startup está avaliada em 24 mil milhões de euros (é a terceira mais valiosa do mundo), superando o valor de mercado das duas maiores cadeias hoteleiras, a Hilton e a Marriott; está em mais de 34 mil cidades de 191 países — só Coreia do Norte, Síria e Irão ficam de fora; e, no espaço de dois anos, as suas receitas mais do que triplicaram: deverão chegar este ano aos 840 milhões de euros, segundo o “Wall Street Journal”. A empresa — que cobra comissões de 3% aos anfitriões e 6 a 12% (dependendo do valor da estada) aos hóspedes — ainda não é lucrativa, mas esse dia não tardará. O diário americano estima que, dentro de cinco anos, os lucros ilíquidos atingirão os 2,8 mil milhões de euros.

Um estranho de cada vez

Aos viajantes que o usam, o Airbnb oferece não só uma opção de alojamento mais barata mas também uma experiência mais local e autêntica. Para a maioria dos anfitriões, dá-lhes a oportunidade de ganharem algum dinheiro alugando o seu espaço. Em anos de recessão económica, este foi o combustível ideal para o crescimento da empresa, conta-me Nathan Blecharczyk, 32 anos, um dos mais jovens multimilionários do mundo, cofundador e diretor de tecnologia da startup. “O Airbnb foi fundado e descolou durante a recessão. Muitos dos nossos utilizadores iniciais tinham sido despedidos e puderam assim manter as casas. Foi nas economias mais atingidas na Europa que tivemos o nosso maior crescimento.” Hoje, o Velho Continente representa mais de 50% do negócio, e Portugal está à porta do top 10 de países com mais propriedades registadas (é 11º).

Foi precisamente para conseguirem algum dinheiro para pagar a elevada renda do apartamento onde viviam que dois amigos tiveram a ideia que conduziu ao Airbnb. Brian Chesky tinha deixado Los Angeles para viver com Joe Gebbia, que conhecera durante os estudos na Rhode Island School of Design e que lhe tinha dito que, um dia, criariam juntos uma empresa. Estavam ambos desempregados. “Tinha 1000 dólares no banco e a renda era 1150 dólares”, recorda Chesky, hoje com 34 anos e uma fortuna avaliada pela “Forbes” em 3 mil milhões de euros — a revista calcula que terá 13% do Airbnb, como os outros dois cofundadores.

Naquele outono de 2007, São Francisco recebia uma importante convenção de design, os hotéis estavam lotados. Foi então que os dois jovens, na altura com 26 anos, tiveram a ideia de tirar três camas insufláveis do armário e, durante o fim de semana da convenção, hospedar três pessoas. Por 80 dólares por noite, ofereciam alojamento, pequeno-almoço e algumas dicas para descobrir a cidade. Chamaram-lhe The Air Bed and Breakfast (cama insuflável e pequeno-almoço).

“Não pensávamos que fosse A ideia. Deveria ter sido algo que nos permitiria pagar a renda para pensarmos nela”, admite Chesky. “Ao longo do caminho, ao resolver o nosso problema, tornou-se A ideia.”

Para a levar por diante, os dois designers precisavam de alguém que percebesse de tecnologia. Encontraram o terceiro mosqueteiro no antigo colega de casa de Gebbia, Nathan Blecharczyk, um licenciado em Ciências da Computação na Universidade de Harvard. Seria ele o diretor de tecnologia, Gebbia ficaria com o design. Nenhum dos três tinha formação para ser líder de uma empresa, mas Chesky, um antigo culturista e capitão da equipa de hóquei da universidade, conhecido pela sua energia, determinação e enorme curiosidade, assumiu esse papel. “Não é natural para uma pessoa como eu, saída de uma escola de arte, que estava desempregada, chegar aqui passados cinco, seis anos. Não há nada que nos prepare para isto”, admitiu à “Fortune” em julho deste ano.

O site, conhecido inicialmente como airbedandbreakfast.com, nasceria por fim em agosto de 2008, mesmo a tempo da histórica convenção democrata que confirmou a candidatura de Barack Obama à Casa Branca. “Estavam em Denver 80 mil pessoas e sabíamos que iriam precisar do nosso serviço. Ao fim de uma semana tínhamos 800 propriedades registadas”, conta Blecharczyk, que durante 18 meses foi o único programador da equipa.

Os cereais da mudança

A convenção foi o cenário ideal para o lançamento da marca, que chegaria aos jornais nacionais e à CNN. A euforia, porém, durou poucos dias. “Passada uma semana já não éramos relevantes.” Os três amigos tiveram então uma ideia “louca“ para ganhar mais notoriedade: criar cereais de pequeno-almoço relacionados com as eleições — os Obama O’s, “o pequeno almoço da mudança”, e os Cap’n McCains. Encomendaram 1000 embalagens, mandaram 100 de cada a jornalistas e puseram as restantes 800 numa edição limitada à venda na internet por cerca de 40 euros a caixa: os de Obama esgotaram, os de McCain nem por isso — falidos, os jovens acabaram por comê-los para poupar em comida.

Ao fim de uma semana estavam de novo na CNN. “Foi o vídeo político mais visto do dia, durante o qual vendemos uma caixa de cereais a cada três minutos. Foi assim que financiámos a empresa durante o primeiro ano.” Nesses meses fizeram pouco mais de 4500 euros com o site (menos de 200 euros por semana) e quase 30 mil com os cereais. “Lembro-me de a minha mãe perguntar: ‘Agora são uma empresa de cereais?’ Tecnicamente, a resposta honesta era sim”, admite Chesky.

COFUNDADORES. Joe Gebbia, 
Nathan Blecharczyk 
e Brian Chesky 
(da esq. para a dir.)

COFUNDADORES. Joe Gebbia, 
Nathan Blecharczyk 
e Brian Chesky 
(da esq. para a dir.)

Carlos chavarria

O arranque da empresa não estava a ser auspicioso. O site tinha apenas 100 visitas e três reservas por dia, e os fundadores endividaram-se com cartões de crédito para fazer face às despesas. Ninguém queria financiar o projeto, achavam a ideia despropositada. Chesky e os amigos tinham enviado e-mails a sete fundos de investimento: cinco rejeitaram, dois não responderam sequer. Procuravam 140 mil euros em troca de 10% da startup, o que a avaliava em 1,4 milhões de euros. Hoje, essa participação valeria 2,4 mil milhões de euros, 16 mil vezes mais.

Num raro gesto de franqueza, um desses investidores confessou mais tarde o arrependimento por ter deixado escapar “uma das melhores startups” que o procuraram nos últimos anos. “Na altura, o Airbnb era um mercado para camas insufláveis no chão dos apartamentos das pessoas. Era difícil acreditar que pudessem ser os próximos hotéis. Grande erro”, reconheceu Jeff Wilson, da Union Square Ventures (USV), num texto publicado no seu blogue.

Wilson diz que cometeu o erro clássico de todos os investidores: focou-se demasiado no que a empresa estava a fazer na altura e não no que poderia fazer. Para o lembrar da falha, na sala de conferências da USV há uma caixa de Obama O’s. “Vai manter-se como uma lembrança para não cometer o mesmo erro. Sempre que alguém me diz que não consegue angariar os primeiros 25 mil dólares para impulsionar uma empresa, levanto-me, caminho para a caixa e conto a história dela. É uma história de pura luta. Adoro-a.”

Felizmente para os três jovens empreendedores, os Obama O’s seriam mesmo os cereais da mudança.

No final de 2008, Chesky, Gebbia e Blecharczyk questionavam-se qual seria o momento certo para desistir. Tinham tido breves momentos de fama, mas o negócio não descolava. Numa última tentativa de salvação, candidataram-se à Y Combinator, a mais famosa incubadora de empresas de Silicon Valley. Se não fossem bem-sucedidos, seria o fim do Airbnb.

A entrevista de admissão não correu como esperavam. Ao fim de dois minutos, Paul Graham, fundador da Y Combinator, estava convencido de que as pessoas não iriam aderir à ideia. “Passou o resto da entrevista a tentar convencer-nos a fazer outra coisa”, recorda Blecharczyk. Na despedida, Joe Gebbia lembrou-se de oferecer a Graham uma caixa de Obama O’s. O investidor ficou intrigado, quis conhecer a história por detrás da embalagem. No final, disse-lhes. “Posso não acreditar na vossa ideia, mas acredito em vocês. São criativos e engenhosos. É isso que procuro.” Acabaram por conseguir o primeiro investimento: 20 mil dólares (um pouco menos de 19 mil euros).

Foi durante as 13 semanas na Y Combinator, até abril de 2009, que o projeto começou finalmente a ganhar ímpeto. A equipa abreviou o nome para Airbnb e começou a incluir outras propriedades, primeiro casas inteiras e apartamentos, mais tarde castelos, barcos e até casas na árvore. Além do apoio financeiro, os três empreendedores receberam de Graham um valioso conselho: “É mais importante terem 100 pessoas que vos amam do que um milhão que gostam mais ou menos de vocês.” E um outro não menos decisivo: “Vão para Nova Iorque!” E eles lá foram, recrutar novos utilizadores de porta em porta, dormir em casa de centenas de anfitriões, ajudar a melhorar os anúncios. Isso significou, por exemplo, oferecer um serviço de fotografia profissional.

SEDE. Pormenor das instalações 
da empresa em São Francisco, nos EUA

SEDE. Pormenor das instalações 
da empresa em São Francisco, nos EUA

“As fotos de alguns anúncios eram terríveis. Criámos então um botão onde se podia clicar e ter acesso a um fotógrafo profissional sem custos”, conta Gebbia, de 34 anos. Ele e Chesky alugaram uma câmara e, em janeiro de 2009, caminhando debaixo de neve, foram fotografar centenas de casas (hoje têm uma rede de 5000 fotógrafos freelancers espalhados pelo mundo). Um ano depois, o site começou a crescer exponencialmente.

Uma encenação hollyodesca

Para contar esta história, Gebbia entra na Grande Halle de la Villette, onde decorre o evento, ao som de um silvo invernoso e com dois figurantes que lhe atiram “neve” para cima. É uma das encenações desta megaprodução à americana, onde há de tudo um pouco: da atuação do Cirque du Soleil às lágrimas do diretor de marketing, Jonathan Mildenhall, um dos reforços de peso da empresa. Depois de sete anos como vice-presidente responsável pela publicidade da Coca-Cola, o britânico, de 48 anos, estava pronto para tirar um ano sabático e escrever um livro quando recebeu um telefonema de Chesky, que o convenceu a juntar-se ao Airbnb.

Em Paris, Jonathan sobe ao palco acompanhado da música ‘I Wanna Dance With Somebody’, de Whitney Houston, e convida dezenas de pessoas a dançar com ele. Depois, apresenta a estratégia para fazer do Airbnb “a primeira supermarca do mundo baseada na comunidade”. Na apresentação, mostra um anúncio da empresa exibido em julho durante os prémios ESPY, logo depois de Caitlyn Jenner agradecer o Arthur Ashe Award for Courage num espaço que foi rejeitado por várias marcas. O spot, intitulado “Is ManKind?” (um trocadilho com Humanidade e Bondade), é exibido nos três ecrãs gigantes do recinto e recebido com uma estrondosa salva de palmas. Mildenhall, uma voz ativa da comunidade LGBT, deixa-se cair de joelhos, comovido. “Este é o melhor dia da minha carreira”, confessa.

Há quem considere que este entusiasmo quase evangélico da comunidade Airbnb se assemelha de certa forma a um culto. A comparação não é despropositada. Douglas Atkin, responsável de Comunidade e Mobilização da empresa, escreveu em 2004 o livro “O Culto das Marcas: Transforme os Seus Clientes em Verdadeiros Crentes”. Atkin estudou marcas de culto, como a Apple ou a Harley-Davidson, e cultos religiosos, como a Igreja da Unificação ou o movimento Hare Krishna, e elaborou conselhos para as marcas inspirarem esse nível de devoção, lealdade e sentido de comunidade nos seus consumidores.

Para quem assiste ao Open, é fácil ver o mesmo tipo de comunhão nos utilizadores Airbnb, como se estivessem num caminho iluminado para mudar o mundo. Porém, Blecharczyk foge da comparação como o diabo da cruz. “Culto é uma palavra forte que lembra coisas negativas. Diria antes que temos uma comunidade muito apaixonada.” O diretor de tecnologia do Airbnb prefere compará-lo a uma rede social da vida real, onde os anfitriões se podem relacionar com pessoas de todo o mundo. “Alguns dizem que conseguem viajar sem sair de casa.”

Um conceito que ocupa um lugar central na estratégia do Airbnb é a hospitalidade. No Open, não faltam sessões para ensinar, por exemplo, “como ser um melhor hóspede”. O responsável por essa área é Chip Conley, um respeitado empresário do ramo hoteleiro que criou a cadeia de hotéis-boutique Joie de Vivre e que estava semiaposentado quando foi convidado por Chesky, há dois anos e meio. Conley diz que ficou intrigado pela ideia de democratização da hospitalidade. “Numa altura em que os hotéis se tornaram cada vez mais corporativos, aqui temos pessoas em 191 países a abrir as suas casas.”

É ele o pai do Airbnb Open. A escolha de Paris para a segunda edição não é fortuita. A cidade é a mais procurada pelos viajantes do Airbnb e aquela com maior oferta de alojamento (Lisboa aparece em 14º lugar). Segundo um estudo divulgado este mês pela startup, no espaço de um ano os 1,3 milhões de hóspedes que escolheram um alojamento Airbnb na capital francesa contribuíram com quase mil milhões de euros para a economia local, não incluindo os 218 milhões que deixaram nos bolsos dos hóspedes. Não admira, por isso, que o responsável pelo Turismo da Câmara de Paris, Jean François-Martins, esteja na sessão de abertura do evento a louvar o Airbnb.

Vitória histórica em São Francisco

Paris é também, segundo Blecharczyk, um bom exemplo da regulação “sensata” que a empresa pretende para o seu negócio. “Aqui, se as pessoas alugam a habitação onde vivem, podem fazê-lo sem necessidades de registo e sem limitação. Se alugarem uma segunda casa, então têm de se registar e podem estar sujeitas a certas limitações. Isso torna as coisas incrivelmente simples para as pessoas que não afetam o stock de casas, mas põe limites àquelas que operam de forma mais comercial.”

A startup espera que o modelo se replique noutros mercados, porque, apesar do rápido crescimento, tem enfrentado vários desafios regulatórios. “Estamos em 34 mil cidades, com leis e regras muito distintas, e nem sempre conseguimos passar a nossa mensagem”, admite o cofundador do Airbnb. “O que fazemos é novo e há muita desinformação.”

Este mês, a empresa teve uma grande vitória na cidade que a viu nascer. Uma iniciativa popular chamada “Proposta F”, também conhecida como “Lei Airbnb”, liderada por empresários hoteleiros, visava limitar a 75 dias o tempo de aluguer permitido por ano, com pesadas sanções para quem não o cumprisse. Contava com o apoio de alguns dos habitantes mais pobres da cidade, que criticavam a subida acentuada das rendas, ao ponto de quase só os empresários de Silicon Valley as poderem pagar — um apartamento de um quarto no centro da cidade custa, em média, cerca de 4000 euros por mês. “É uma crítica injusta”, contesta Blecharczyk. “Temos ajudado muitas pessoas a pagar a renda, e o facto de a maioria disponibilizar a própria casa significa que não estamos a tirar casas do mercado. Há uma percentagem de habitações que estavam vagas e que podem estar agora no Airbnb, mas esses casos são a minoria.” Os responsáveis pela subida das rendas são outros, “como a dificuldade de construir habitações novas ou a estagnação dos salários”, defende.

O projeto de lei acabou por ser rejeitado pela maioria dos eleitores, depois de a empresa ter gasto mais de 7,5 milhões de euros a combatê-lo, o que, segundo as suas contas, incluiu bater a mais de 285 mil portas, falar pessoalmente com mais de 100 mil eleitores (quase um quarto dos votantes) e garantir o apoio de mais de 2000 negócios familiares. A startup desenvolveu também uma feroz campanha publicitária contra a autarquia, desafiando-a a usar bem os 11 milhões de euros de taxas turísticas cobradas no último ano aos anfitriões, mas o tiro saiu-lhe pela culatra: debaixo de um coro de críticas nas redes sociais, acusada de se vangloriar por pagar impostos, acabou por desculpar-se e retirar os anúncios.

Blecharczyk prefere focar-se na vitória histórica. “Na primeira vez que as pessoas foram chamadas a votar, deram o seu apoio ao Airbnb e à partilha de casa. Isso é muito poderoso”, diz. Na sua opinião, são outros interesses, que não o do cidadão comum, que motivam a oposição à empresa. “Em São Francisco, a proposta foi promovida por organizações hoteleiras, que têm os seus interesses. E não me parece que tenham algo a ver com habitação acessível.”

O Airbnb tem sido apontado como concorrente dos hotéis, mas Blecharczyk rejeita que a indústria tenha razões para temê-lo. “Os hotéis estão a ter resultados muito bons em todo o mundo”, aponta. “Têm taxas de ocupação recorde, cobram preços recorde. Agora, se houver um grande evento numa cidade, o Airbnb vai permitir que as pessoas tenham acesso a um alternativa mais acessível. Mas isso é uma coisa boa. Se os hotéis cobrarem preços exorbitantes, isso não é para o benefício da sociedade.”

Para Alex Stephany, autor do livro “The Business of Sharing” (“O Negócio da Partilha”), são sobretudo as pequenas guesthouses que têm mais dificuldades em competir com o Airbnb. Porém, o também CEO da JustPark — uma app pioneira para quem procura um lugar para estacionar — alerta que, apesar de não estarem sob ameaça imediata, os hotéis não podem ficar à margem desta tendência de partilha alimentada pela tecnologia. “É possível que as cadeias lancem serviços inspirados no Airbnb. Podem, por exemplo, usar a sua marca de confiança para serem curadoras de uma plataforma que permita a pessoas do mundo dos negócios reservar casas de luxo ao invés de quartos de hotel tradicionais.”

A empresa sabe que não é sustentável gerir um negócio no qual os clientes estão sob constante ameaça legal. Por isso, ao invés de enfrentar os reguladores, afirma-se agora mais empenhada no diálogo. Há um ano, quando São Francisco legislou sobre o alojamento local, impondo que habitações inteiras pudessem ser alugadas apenas um máximo de 90 dias por ano, a startup saudou a decisão. “É uma grande vitória para as pessoas da cidade. Dará ao cidadão comum o direito de partilhar a casa onde vive.” Segundo a empresa, é isso que acontece em 83% dos casos.

Depois da luta, o compromisso

A medida procurava centrar o Airbnb nas suas raízes — o de permitir às pessoas ganhar algum dinheiro com um quarto que, de outra forma, estaria vazio ou desaproveitado —, ao mesmo tempo que dificulta a vida a quem tenta explorar múltiplas propriedade, que, em alguns casos, quase se assemelham a hotéis de facto. Ao apoiar a decisão, os empreendedores mostravam o seu lado mais pragmático e o compromisso em fazer a transição de um modelo dúbio para um negócio estável e maduro, onde possam ser um bom vizinho das cidades.

A estratégia de conciliação está bem patente no Community Compact, uma das muitas novidades apresentadas durante o Airbnb Open. O documento descreve como a startup planeia trabalhar com os municípios, incluindo cobrar taxas turísticas, evitar que a plataforma sirva para promover hotéis ilegais e partilhar dados agregados (não pessoais) sobre a atividade do Airbnb nas cidades. “Queremos ser muito claros sobre as coisas que estamos dispostos a fazer para colaborar”, admite Blecharczyk, convicto de que as questões regulatórias serão apenas “uma lomba” no caminho da empresa para o sucesso. “A longo prazo, será claro que somos bons para as pessoas, para os bairros e para as cidades.”

Para fazer essa mensagem ouvir-se “em alto e bom som“ junto das autoridades, a empresa contratou em agosto o estratego político Chris Lehane, antigo assessor de Bill Clinton e de Al Gore, um homem habituado a grandes campanhas políticas. “Queremos ser proativos nessa relação com as cidades, ser parceiros delas, encontrarmos boas soluções para elas. Procuraremos chegar a diálogo e consensos, ao invés de irmos para a luta”, explica o agora diretor do Departamento de Política Global e Relações Públicas do Airbnb.

O céu como limite

Esta maturidade da empresa, que, aos sete anos, parece estar a entrar na idade adulta, é visível também na visão de Chesky, que está a ter um ano em cheio: entrou na lista da “Time” das 100 personalidades mais influentes do mundo, foi convidado para o Jantar dos Correspondentes na Casa Branca e, em maio, Obama nomeou-o embaixador presidencial para o empreendedorismo global. O CEO quer que o Airbnb evolua de uma marca centrada no alojamento para uma marca que proporciona toda a experiência de viagem.

A empresa não revela, para já, qual o caminho que pretende seguir, mas no imediato são três as apostas: os alugueres de férias, as viagens de negócio e o mercado asiático — os viajantes chineses que usam a plataforma aumentaram 700% no último ano. “Ainda há um longo caminho a percorrer no segmento das viagens”, reconhece Blecharczyk. “Temos de manter uma cultura de inovação. Se o conseguirmos, o céu é o limite.”

Em 2016, o Airbnb chegará ainda mais longe, ao Olimpo: será o alojamento alternativo oficial dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Nada mau para um negócio que começou com três colchões insufláveis e que foi salvo por uma caixa de cereais. Marc Andreessen, cofundador da Netscape e guru dos investidores de Silicon Valley, não tem dúvidas: “Foi a pior ideia que alguma vez funcionou.”

Quando terminou o Airbnb Open pensei em Michele, o meu “anfitrião”. Contactei com ele apenas duas vezes: a primeira, por telemóvel, em Paris, para saber a password do wifi; a segunda, por e-mail, para este artigo. Enviei-lhe seis perguntas — respondeu-me com... 12 palavras. Não quis saber como tinha sido a minha estada, se gostei do apartamento, se penso voltar... Estou certo que não esteve no evento e é pena. Teria aprendido uma coisa ou outra sobre hospitalidade.

Texto originalmente publicado na edição do Expresso de 28 novembro 2015

O Expresso viajou a convite do Airbnb