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“Tem cuidado, meu amor”

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A brutalidade policial preenchia-lhes o dia a dia. Virgínia chega a estar incomunicável durante dez meses numa enxovia, sem um livro, sem um papel. Sofre torturas que lhe deixam sequelas. A PIDE queima-lhe os seios e chega a ter necessidade de receber tratamento médico na então República Democrática Alemã. Correspondia-se com o marido, detido como ela: ambos sabiam que “os olhos de outrem” vasculhavam o que escreviam, têm consciência dessa devassa, mas nem assim se inibem de anotar o que o coração ou a vontade determinam. As cartas transformam-se em “arma de arremesso, de resistência perante os esbirros que lhe devassam a dignidade”. Escritas entre 1951 e 1957, estas cartas da prisão de Virgínia de Moura e António Lobão Vital são lançadas, apresentadas e explicadas esta terça-feira. “Só as prisões, até à data, nos têm separado”

LUCÍLIA MONTEIRO

No dia 23 de abril de 1952, António Lobão Vital resolveu escrever mais um postal dirigido à mulher, presa nas portuenses instalações da PIDE. A fórmula para indicar a destinatária é tão ousada quanto inusitada. Vai dirigido à "Exma Senhora Engenheira D. Virgínia Moura - detida por motivos políticos - P.I.D.E. - Rua do Heroísmo. PORTO". Este é tão só um dos muitos exemplos da abundante correspondência trocada por um casal que fez da luta antifascista o combate de uma vida e que é agora resgatada em livro.

Com edição da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, "Tem cuidado, meu amor", coordenado por Manuela Espírito Santo, é lançado esta terça-feira, a partir das 16h45, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos. Para lá do valor documental, trata-se de uma obra marcada por um assinalável bom gosto e visualmente muito rica.

O livro inclui cartas escritas na prisão entre 1951 e 1957. Doadas por Virgínia ao jornalista e escritor César Príncipe, constituem apenas uma pequena parte de um mais vasto espólio que se presume existir à guarda do PCP. Para lá da reprodução de um importante conjunto de documentação da época, várias fotos, um desenho de Virgínia feito por Almando Alves e um de Lobão Vital assinado por Álvaro Siza Vieira, há também um poema de César Príncipe dedicado à mulher que protagonizou um dos mais intensos combates contra a ordem estabelecida pelo Estado salazarista.

A devassa da correspondência

LUCÍLIA MONTEIRO

Manuela Espírito Santo faz o enquadramento da obra num texto introdutório, no qual revela que a correspondência sai do cárcere de Caxias, Peniche, Santa Cruz do Bispo ou das celas da PIDE, “mas antes de chegar ao destinatário os olhos de outrem vasculham, e um carimbo macula a caligrafia”.

O casal tem consciência dessa devassa, mas nem assim se inibe de escrever quanto o coração ou a vontade determinam. Podem falar de assuntos do vulgar quotidianmo, mas não se proibem nunca de glorificar o amor que os une. Na correspondência trocada com Lobão, Virgínia, a segunda mulher a formar-se em engenharia em Portugal, “tanto fala da teoria de Riemann, como de tricot, de moda, de futebol ou de como misturar no leite o Milo (…)”. As cartas tornam-se “uma arma de arremesso, de resistência perante os esbirros que lhe devassam a dignidade”, diz a coordenadora.

Não obstante toda esta aparente normalidade, Virgínia e Lobão foram um casal para quem cada instante se tornava mais difícil que o anterior. A brutalidade policial preenchia-lhes o dia a dia. Virgínia chega a estar incomunicável durante dez meses numa enxovia, sem um livro, sem um papel. Sofre torturas que lhe deixam sequelas. A PIDE queima-lhe os seios e chega a ter necessidade de receber tratamento médico na então República Democrática Alemã. É um facto quase desconhecido. Virgínia não fazia do seu sofrimento bandeira. Evitava falar destes temas.

Fora da prisão passavam por outro tipo de torturas. Ela engenheira, ele arquiteto, viram-se proibidos de ensinar, de assinar qualquer obra pública e, por extensão, viam os particulares evitar qualquer contacto. Valia-lhes muitas vezes as explicações a filhos de companheiros de luta.

Organizadas por data, as quarenta e sete cartas reproduzidas no livro constituem um roteiro emotivo por um tempo e uma memória. A primeira missiva é de 12 de dezembro de 1951 e a última é de agosto de 1957. O ano de 1952 é o mais representado nesta epistolografia, com vinte, num total de 47 documentos. Como sublinha Manuela Espírito Santo, “é um ano de perdas”. Em Maio de 1952 morre prematuramente Herculana de Carvalho, mulher de um abastado corretor, uma importante amiga do casal, mãe de Guilherme da Costa Carvalho, militante comunista preso durante grande parte da sua vida. Aquela morte constitui uma grande perda, ao ponto de ser referida em várias cartas. O túmulo de “D. Herculana”, como era chamada, é, de resto, desenhado por Lobão Vital. Anos mais tarde caberia a Alcino Soutinho conceber o túmulo de Lobão e Virgínia, com uma intervenção escultórica de José Rodrigues. Os dois túmulos estão no cemitério do Prado do Repouso, no Porto, junto ao edifício onde durante anos funcionou a PIDE/DGS.

Amor alvoraçado

LUCÍLIA MONTEIRO

As cartas, em geral mais longas as dele, são atravessadas por uma permanente disponibilidade para o debate intelectual. Porém, se há um fio condutor é a paixão que une aquele homem e aquela mulher a viverem, por vezes, em situações extremas e com reais dificuldades económicas. Numa missiva de 25 de abril de 1952, Virgínia escreve: “Falas-me do café que tantas vezes tomámos no Leão Douro e perguntas-me se me lembro. Querido António, lembro-me disso e de toda a vida que nós dois temos levado. Dos passeios de Viseu à Redonda (quinta na estrada que liga Viseu a Mangualde, doada ao PCP, tal como todo o património do casal). Das noites de Primavera em que sempre saímos despreopcupados e felizes. Da vida que sempre levamos em comum e sem nos separarmos um do outro. Só as prisões, até à data, nos têm separado”.

Em junho daquele ano, numa longa carta, é Lobão a dirigir-se a Virgínia para dizer que também ele espera “com o mesmo alvoroço” as cartas da mulher “como quando as recebia há 19 anos. (…). Os nossos sentimentos continuam tão puros, como quando nos vimos pela primeira vez. Tenho bem presente - e como poderia eu esquecer? - o momento em que recebi a tua primeira carta. (…). Não consegui estudar mais nada. Em poucos minutos a resposta ficou pronta! Isto já sucedeu há tantos anos e parece que ainda foi ontem! (…). Para alguns a Felicidade reside somente na satisfação material dos sentidos. Nós entendemos a Felicidade duma maneira bem diferente e bem simples..Sinto-me feliz, quando olho para trás, para o caminho que juntos percorremos, verifico com viva satisfação e com legítimo orgulho, que nunca traímos a pureza dos nossos sentimentos".

O livro será apresentado por José Luís Borges Coelho.