Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Morreu Holly Woodlawn

  • 333

Getty Images

Atriz transsexual, musa de Warhol e tornada famosa pelo filme “Trash”, conheceu a glória e a miséria. Tinha 69 anos e lutava contra o cancro há já algum tempo

Foi nela que Lou Reed se inspirou para escrever o primeiro verso de “Walk on the Wild Side”. Mas Holly Woodlawn, a atriz transsexual que foi musa de Andy Warhol e morreu no domingo, não se limitou a dar uma volta “no lado selvagem”. Foi aí que viveu.

Os seus 69 anos deram-lhe tempo para celebrar dias de glória e enfrentar dias de miséria. Famosa pela sua interpretação em “Trash”, filme de Paul Morrisey , de 1970, onde deu vida à amante de um viciado em heroína desempenhado por Joe Dallesandro - um papel que confessou não lhe ter sido difícil, pelas semelhanças a situações que tinha já experimentado -, seria sempre uma espécie de ícone para uma realidade marginal, que a empurrou para ambientes “underground”.

Estrela ocasional de cabaret, foi protagonista de outros filmes menores, fez documentários, musicais, mas chegou a ter de regressar ao universo familiar, para subsistir trabalhando no negócio de taxis do pai ou a ganhar a vida como empregada de restaurante.

Seria difícil ser diferente na época, para alguém que assumiu uma condição ainda olhada de lado e pouco compreendida. Nascido Haroldo Santiago Franceschi Rodriguez Danhakl, em Juana Díaz, Porto Rico, cumpriu à sua maneira o sonho americano.

Filho de mãe porto-riquenha e de pai norte-americano, de origem alemã, mas que abandonou o casamento quase ato contínuo a tê-lo realizado, Haroldo chegou a Nova Iorque depois de a mãe ter emigrado, à procura de vida melhor.

Após o segundo casamento da senhora Rodriguez, com um emigrante polaco, a família mudou-se para Miami, onde de Haroldo passou a Harold, assumindo o apelido do padrasto, Ajzenberg. Mas foi sol de pouca dura.

Aos 16 anos regressou, à boleia, para Nova Iorque, para viver anos difíceis, “nas ruas, à custa de expedientes vários, sem saber quando poderia fazer a próxima refeição”. Partilhou-o no seu livro de memórias “A low life in high heels”, o mesmo onde conta histórias diferentes para explicar a mudança de nome.

Holly terá sido inspirado na heroína de “Breakfast at Tiffany's”, obra de Truman Capote, ficando o apelido por conta do cemitério Woodlawn, embora umas páginas à frente também refira que esse apelido lhe pareceu bem depois de assistir a um episódio da série “I Love Lucy”.

Acabou os seus dias no lado negro. Doente com cancro, chegou a ser expulsa de um hospital, por não ter dinheiro para pagar os tratamentos e foi uma ação de solidariedade promovida por amigos que permitiram que voltasse aos cuidados médicos.

Ainda assim, sempre preferiu ser lembrada pela extravagância, pela maquilhagem pesada, pela diferença.

“Sentia-me a Elizabeth Taylor”, disse ao jornal “The Guardian”, em 2007, lembrando a sua época de ouro. E mesmo percebendo que a fama é coisa de “dois segundos”, que desaparece num piscar de olhos, garantiu que valeu a pena: “As drogas, as festas, foi tudo fabuloso”.