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Emília Maria vestiu-se de homem para vingar o irmão

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Retrato-robô de Emília Maria, a partir de um retrato, já deteriorado publicado nos jornais

Agarrou na roupa do irmão, num revólver, enterrou um chapéu pela cabeça e fez uma espera ao encarregado da fábrica onde trabalhava. Mas a pontaria... Esta é a segunda história de uma minissérie do “Crime à Segunda”, até ao regresso de mais uma temporada longa de criminosas portuguesas

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Roberto

João Roberto

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Motion designer

Durante três dias foi notícia. Chamaram-lhe mulher de armas, mulher homem, a mulher vestida de homem... A operária Emília Maria Alenquer tinha 26 anos quando resolveu vingar o irmão, por uma questão laboral que a deixou possessa. Soube-se que tentou matar um chefe e foi presa na cadeia do Aljube. No início de fevereiro de 1915, numa época em que os ânimos andavam muito exaltados, despertou a atenção dos jornais, mas rapidamente foi esquecida.

José Lopes Alenquer era operário de um estabelecimento fabril de Fuertes Peres, localizado no Beato, em Lisboa. Ele e mais duas irmãs. A fábrica funcionava nas cocheiras e os escritórios ocupavam os salões nobres do edifício que é hoje conhecido por Palácio da Mitra, dado o asilo, quase centro de detenção de pobres, ali instalado em 1933. Por altura deste caso, passado cinco anos depois da implantação da República, desenvolvia-se ali uma mistura de indústrias.

José e Emília trabalhavam, sobretudo, no isolamento de garrafões com corticite. Ele estava com 28 anos, e há sete que arranjara emprego nessa fábrica da rua do Açúcar, onde antes viveram arcebispos, antes das expropriações das ordens religiosas em 1834. E outro José, o Lavrador, passara-lhe à frente - era mais novo do que ele três anos, tinha menos dois de casa. No entanto, ganhara o cargo de encarregado do estabelecimento propriedade de Fuertes & Comandita, que se transformará na Fábrica Seixas, de metalurgia, fundição, caixotaria e tanoaria.

A empresa gerida por Manuel Fuertes Peres tinha um futuro risonho. Dois anos antes, em 1913, o empresário arranjara um sócio capitalista. Ernesto Henrique Seixas, homem rico, cheio de património e que há de ser condecorado com a Ordem de Cristo pela Presidência da República, representava a garantia financeira para a progressão do negócio que se manterá até 1925, último ano da chamada 1.ª República e ponte para a implantação da ditadura.

Mas o futuro ficou ensombrado para a família Alenquer. José Lavrador, que nascera em Torrezelo, próximo da Serra da Estrela, viera há cinco anos trabalhar para Fuertes Peres e fora promovido por compensação ao “seu muito zelo pelo serviço”, como refere “O Século” quando conta, no dia seguinte à tentativa de assassínio, que a operária de uma fábrica se vestiu “de saloio e foi disparar um tiro no encarregado”, o qual, segundo “várias” colegas de Emília, tinha “por hábito exercer certas vinganças sobre o pessoal”.

Quinta-feira, 4 de fevereiro, dia em que os jornais preparavam notícias sobre o novo plano de guerra alemão e os violentos combates nas margens do Vístula, na Europa oriental, o mal-estar entre o encarregado e o operário Alenquer agudizara-se. Andavam ambos a levar o vasilhame para um depósito, José Alenquer puxava a carroça e José Lavrador controlava as operações, tendo, em princípio, ajudado a carregar, quando, aborrecido com o trabalho pesado e a atitude do chefe, o irmão de Emília se recusou a fazer o transporte.

À época, estava em marcha um movimento contra “o vexame infligido a criaturas humanas, metidas nos varais de uma carroça”, como se via “a cada passo”, segundo o jornal A Capital. A 31 de janeiro, as “associações de condutores de carroças e empregados menores no comércio e indústria”, reunidas em assembleia magna, tinham aprovado uma moção de descontentamento por a Câmara de Lisboa tardar em aceitar a proposta feita pelo vereador Feliciano de Sousa, no sentido de proibir “tão desumano trabalho”.

Enquanto não era proibido, os donos da fábrica e o encarregado podiam obrigar José Alenquer a obedecer-lhes. O rapaz, porém, não estava pelos ajustes - naquele dia de chuva intensa, cruzou os braços. Lavrador participou o facto aos patrões. A ameaça saiu pronta: se não cumprisse as ordens ia para a rua. O operário cedeu, retomou o trabalho. Contudo, o caso espalhou-se boca a boca, chegando pouco depois aos ouvidos de Emília Maria, certamente a trabalhar nos barracões que daí a uma vintena de anos, batizados de Mitra, serão abrigo de mendigos tirados à força das ruas de Lisboa.

O mal-estar entre o chefe e o subordinado já vinha de algum tempo atrás. Os Alenquer não gostaram de passar a ter um chefe mais novo e, ao que parece, não foram só eles que reagiram mal, só que José foi o primeiro a tomar uma atitude. “Houve uma questão séria, ficando aquele em riscos de ser despedido”, dizia “O Século”. Emília Maria ficou desesperada. O seu irmão corria o risco de integrar as já grossas fileiras de desempregados. Só as duas manas a trabalhar não conseguiriam, na certa, sustentarem-se aos três, que moravam juntos na rua da Bela Vista ao Grilo.

Mostra da página da Ilustração Portuguesa de 8 de fevereiro de 1915, sobre a I Guerra Mundial, em que se reproduz uma ilustração do jornal inglês "The Sphere" que mostra "uma carga de baioneta dos franceses contra os alemães em Saint Michel"

Mostra da página da Ilustração Portuguesa de 8 de fevereiro de 1915, sobre a I Guerra Mundial, em que se reproduz uma ilustração do jornal inglês "The Sphere" que mostra "uma carga de baioneta dos franceses contra os alemães em Saint Michel"

Hemeroteca Municipal de Lisboa

OS EFEITOS DA GUERRA NO VELHO MUNDO

A indústria atravessava uma grave crise, a construção civil fora a primeira a despedir trabalhadores, mas os problemas alastraram-se com alguma rapidez, dados os condicionamentos da guerra que perturbava o “velho mundo” e só há de terminar em 1918, com oito milhões de mortos, entre os quais mais de dois mil portugueses. Foram tempos duros. A Grande Guerra, como será chamada até deflagrar a Segunda Guerra Mundial em 1939, já durava há seis meses, com tendência a agravar-se.

Os irmãos eram solteiros, Emília já fora casada, mas divorciara-se há dois anos. Ela e José Matias Fortes foram dos primeiros três mil casais a separarem-se ao abrigo da liberal e idealista lei do divórcio de 1910, que pôs em pé de igualdade homens e mulheres, assim como casamento civil e religioso, passando o matrimónio a ser um contrato bilateral e dissolúvel. Assim, contavam apenas uns com os outros e o fruto do seu trabalho. “Ele desgraçou-me”, dirá Emília referindo-se ao encarregado, nessa noite, no governo civil, depois de a fazerem mudar de roupa, conforme relato do “Diário de Notícias”.

O salário semanal do operariado oscilava entre os 80 centavos e os dois escudos e quarenta, em Lisboa, porque fora da capital a féria era mais baixa. Um mês de trabalho, mesmo pago pelo topo da tabela, mal chegaria para ir arrancar um dente ou comprar um fato na Casa do Povo de Alcântara, nos saldos de fevereiro de 1915, “verdadeiras pechinchas”. O preço do pão, cujo aumento provocará uma série de motins, estava a oito e nove centavos, nesta altura em que o Banco Comercial de Lisboa distribuía dividendos de cinco escudos e cinquenta centavos por ação.

Os preços subiam, os bens essenciais começavam a escassear, até os manipuladores de bolachas já só trabalhavam três dias por semana devido à falta de açúcar. Na cidade de Lisboa, as lojas iam fechando, como os talhos, por exemplo, que não tinham quem lhes fornecesse carne. Os talhantes queriam que o Governo chefiado por Pimenta de Castro proibisse a exportação de gado. Na província, onde havia criação, os preços estavam inflacionados pelos espanhóis e pelas tropas inglesas estacionadas em Gibraltar.

“De dia para dia maiores e mais terríveis são os efeitos da tremenda e devastadora guerra e cujo fim ainda vem longe, encarecendo de mais em mais todos os artigos indispensáveis à vida e a um ponto tal que muito já dobraram e triplicaram o preço”, escrevia o “Diário de Notícias”, numa peça intitulada “Efeitos da guerra”. Apesar de estar de acordo com a verdade, trata-se afinal de um anúncio de um dos grandes armazéns concorrentes na rua do Carmo, no Chiado. Uns têm o nome do bairro, os outros o apelido do proprietário Francisco Grandela. Espevitados pela concorrência, os primeiros publicitavam o facto de “tudo continuar a ser vendido por metade do seu valor atual graças aos milhares de contos que estes armazenaram na previsão da atual guerra europeia”.

Quando sucedeu o caso da Emília Maria, passavam cinco anos da Implantação da República, em 5 de outubro de 1910, quando a Rotunda e a Avenida da Liberdade foram palco de uma batalha contra a monarquia

Quando sucedeu o caso da Emília Maria, passavam cinco anos da Implantação da República, em 5 de outubro de 1910, quando a Rotunda e a Avenida da Liberdade foram palco de uma batalha contra a monarquia

Wikipédia

FEZ-LHE UMA ESPERA E DEU-LHE UM TIRO

A 5 de fevereiro, dia em que Emília passa a ser notícia nos jornais, era também “mais um daqueles em que ninguém deixará de visitar os Grandes Armazéns do Chiado”, já que havia liquidação de retalhos e distribuição de brinquedos, como acontecia uma vez por semana. Por esta altura, sucediam-se igualmente as reuniões das classes operárias. Há de ser um ano repleto de revoltas populares, especialmente contra a carestia, que acabaram muitas vezes em assaltos a padarias e outras lojas.

Naquela quinta-feira, Emília, que parecia ser uma rapariga decidida, cheia de genica, pronta para o combate, terá saído da fábrica a correr rumo a casa, que ficava a cerca de dez minutos de caminho. Chegou, trocou de roupa, escolhendo um fato do irmão, enterrou um chapéu na cabeça, agarrou num revólver e saiu de novo em direção à rua do Açúcar. Ali, vigiando a porta de saída, aguardou que José Lavrador aparecesse.

O encarregado cumpria a rotina. Após terminar a faina na fábrica, atravessava o pátio principal e caminhava até à estação de caminhos de ferro de Braço de Prata, onde apanhava o comboio para Sacavém, terra da sua morada. Naquele fim de tarde, quando passou o portal para a rua não andou muito mais. Emília saltou-lhe ao caminho, de pistola em punho, e desfechou-lhe um tiro acertando-lhe numa perna.

E não terá disparado mais porque a detonação despertou alguns transeuntes que, como sucedia com frequência, se dispuseram de imediato a apanhar o agressor. Entretanto, apareceu também o polícia 1376 (os jornais referiam-se aos elementos policiais pelos números do distintivo) e o suspeito foi dominado não despertando quaisquer desconfianças quanto ao género. Foi uma surpresa quando os capturadores verificaram tratar-se de uma mulher. “Enquanto o ferido seguia para o hospital, a criatura era levada para a esquadra, averiguando-se ali tratar-se de um irmã do Alenquer, que, para o vingar, se vestiu com um dos seus fatos e foi esperar o Lavrador”, contou “O Século”.

Durante três dias, foi notícia nos jornais. Emília Maria, a mulher-homem, a mulher de armas, a mulher que se vestiu de homem para vingar o irmão

Durante três dias, foi notícia nos jornais. Emília Maria, a mulher-homem, a mulher de armas, a mulher que se vestiu de homem para vingar o irmão

DR

MULHER-HOMEM

Não era muito invulgar que mulheres se mascarassem de homens, e vice-versa, para cometer crimes ou por outra razão qualquer, mas, na rua, havia sempre alguém que alertava a polícia para o facto. No final do século XIX e início do XX, volta não volta, surgiam notícias de prisões, normalmente intituladas “mulher-homem”. Aconteceu com Maria dos Prazeres, moradora na Porcalhota, presa quando envergava trajes masculinos e um bigode postiço. Eram duas da manhã e levaram-na para o governo cilvil por suspeitarem que podia ser a autora dos furtos de galinhas feitos por aqueles sítios.

Maria dos Prazeres podia ser pilha-galinhas, mas foi presa por se confundir com um homem. A Luísa da Gama Lima sucedeu-lhe o mesmo não sendo suspeita sequer. A polícia prendeu-a “por andar nos Olivais vestida de homem”, conta o jornal “A Vanguarda”. Foi “capturada” quando trazia ao colo um filho, recém-nascido, para que as autoridades averiguassem “quais os motivos que levaram a mulher a trocar os trajos femininos pelos masculinos”.

“Aquele que se vestir e andar em trajos próprios de diferente sexo, publicamente e com intenção de fazer crer que lhe pertencem, ou que do mesmo modo trouxer uniforme próprio de um emprego publico ou alguma condecoração que não lhe pertença, será condenado em prisão até seis meses e multa até um mês”, previa o código penal em vigor.

No virar do século, Antónia da Conceição vestiu-se de negro, enrolou-se num xaile para lhe não verem a cara e saiu para a rua com a intenção de ir “ver com os seus próprios olhos” o namorado a “traí-la com outra mulher”. No caminho, como andasse “com o desembaraço de um homem”, um miúdo começou a segui-la dizendo que era um homem vestido de mulher. Não se livrou de ser levada para a esquadra, “no meio de grande ajuntamento de populares”, e ali permanecerá algumas horas até explicar tudo e a deixarem “ir em paz”, como conta “A Vanguarda”.

No caso de Emília Maria Alenquer, a troca de roupa destinou-se de facto à prática de um crime. Quis vingar o irmão e deu um tiro no chefe, que no próprio dia foi pensado no Hospital de S. José e mandado para casa, mas horas depois piorou e teve de ficar internado. Com as notícias sobre a Grande Guerra, os problemas do quotidiano, a inflação, as quedas do Governo e uns crimes de maior dimensão, fica-se sem saber se o encarregado sobreviveu ileso ou ficou aleijado, como se dizia no que respeitava a deficiências.

Desconhece-se mesmo se José Lavrador morreu. Portanto, podemos apenas dizer que a acusada, presa sem admissão de fiança no Aljube, pode ter sido condenada por homicídio premeditado ou homicídio frustrado: no primeiro caso cumpriria uma pena de oito anos de prisão e 20 de degredo, no segundo passaria o mesmo tempo na cadeia mas apenas metade numa possessão africana. Os seus irmãos continuaram empregados na fábrica, por vontade dos patrões.

  • O homem que foi freira ou a pseudo-hermafrodita

    A sentença foi proferida depois de o condenado já ter feito votos e escolhido o nome de Claudiana da Natividade para viver em clausura. Expulso “por ser homem, e não mulher” há de voltar ao convento por decisão papal. Esta é a primeira história de uma curta nova série do “Crime à Segunda”, até ao regresso de mais uma temporada longa de criminosas portuguesas