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Um marceneiro jeitoso, uma cadeira de pinho: a nossa Ikea (mas com mobiliário que dura a vida toda)

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João Olaio, bisneto do fundador

Luis Barra

Em 1886, um homem de origens modestas fundava uma empresa de móveis que daria cartas durante mais de um século no design nacional. A Olaio faz parte do património afectivo - e material - de várias gerações de portugueses. Uma exposição no Museu de Cerâmica de Sacavém relembra o percurso e reúne dezenas de móveis icónicos de uma marca que cobriu o país - de hotéis a escolas, de hospitais a repartições públicas

Da Olaio muitos conhecem o conjunto de sala de jantar Caravela, as cadeiras desdobráveis, uma ou outra cadeira. Mas a marca representa muito mais que isso. São as carteiras em que muitos alunos se sentaram na escola, as cadeiras de hospitais públicos em que muitos esperaram, as secretárias dos funcionários das Finanças frente às quais se pediu uma informação. Mas também quartos e lobbies de hotéis como o Tivoli, Estoril-Sol, Grande Hotel da Figueira, Hotel Florida, ou ainda o interior do navio-escola Sagres. Ou ainda a totalidade do mobiliário da Base Aérea de Beja.

A história da Olaio atravessa e acompanha a do país, e a exposição no Museu de Cerâmica de Sacavém reúne alguns dos ítens mais marcantes deste percurso. Há preciosidades como 590 esquissos de móveis que ficaram esquecidos numa gaveta da antiga fabrica da Bobadela, cadeirões, secretárias e estiradores lindos de morrer para qualquer fã de design. Mas como começou tudo, afinal?

José Olaio, o fundador da Olaio, abre a primeira loja de venda de móveis em 1886

José Olaio, o fundador da Olaio, abre a primeira loja de venda de móveis em 1886

É preciso recuar a 1860, quando José Olaio, um jovem marceneiro jeitoso, transforma dois caixotes de madeira de espruce comprados na Casa Havaneza em duas mesas de cabeceira em folha de raiz de mogno. Para trás ficavam quatro anos de trabalho na Casa Aguiar, onde fez duas cómodas para o Rei D. Luís, e outros quatro antes na Antiga Casa Venâncio, no Porto, onde começou como aprendiz de marceneiro. Filho de moleiros, menino pobre, José Olaio distribuiu farinha até aos seus 14 anos - altura em que vai a pé para o Porto, descalço, alimentando-se de esmolas. Largos anos mais tarde, em 1886, abre a sua loja de móveis própria, na R. da Atalaia (Bairro Alto, Lisboa), ali trabalhando cerca de 18 horas por dia. A produção de mobiliário teria que esperar até 1918, para ver nascer a firma José Olaio & Cª. A "Companhia" era o filho, Tomaz Olaio, o futuro industrial da marca. Juntos abrem as oficinas de marcenaria no Bairro Alto e dois anos mais tarde contratam o primeiro desenhador da casa Olaio, Leal da Câmara. A cadeira de pinho que o ilustrador e jornalista criou é a primeira peça icónica de muitas que se viriam a seguir.

A oficina de marcenaria José Olaio & Cª, aberta em 1918 no Bairro Alto

A oficina de marcenaria José Olaio & Cª, aberta em 1918 no Bairro Alto

Em 1927, José Olaio transfere a sua quota para o seu filho mais novo, Antero - e morre, um ano mais tarde. Ficam os dois irmãos à frente da casa Olaio - Tomaz com funções mais industriais, Antero com funções mais comerciais. A década de 30 marca o início da visibilidade da marca, que participa nos cortejos de Lisboa. Começa a aparecer nos cenários dos filmes portugueses e surge nas primeiras exposições de mobiliário. Mas o grande momento de viragem começa com as encomendas do Estado: primeiro da Emissora Nacional, que pede cadeiras, e depois de pousadas, hospitais, escolas, universidades, ministérios, repartições públicas e instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian e o Parlamento. Em 1937, o arquiteto Raúl Lino desenha o mobiliário para a Sala do Governo da Assembleia, ainda hoje a uso. Esta é uma das maiores diferenças da Olaio em relação a outras marcas de mobiliário, como a conhecida Ikea: é que os primeiros duram uma vida toda, passando de geração em geração.1937 é um ano-chave para a marca, que constrói a sua primeira fábrica, em Loures.

Interior da fábrica da Olaio, construída em 1937, em Loures

Interior da fábrica da Olaio, construída em 1937, em Loures

Hotéis e encomenda pública: a fase de ouro

Nos anos 40, a marca aposta em força no mobiliário de estilo americano, em madeira de carvalho. Óscar Pinto Lobo, arquiteto, pintor (e pai da estilista Ana Salazar), é o decorador da casa Olaio. Em 1950, o filho de Antero Olaio, José Pedro Olaio, começa a trabalhar na fábrica. Iniciam-se as viagens ao estrangeiro (Alemanha, Holanda, Suíça, Suécia, Dinamarca...) e as participações em congressos de marcenaria. Tomaz Olaio viajava sempre acompanhado pelo sobrinho José Pedro e pelos mestres da fábrica, que bebiam as novidades do que se fazia pela Europa fora. A fábrica Olaio acabou por se tornar uma escola de marcenaria onde os jovens iam aprender.

Um dos primeiros troncos de tola (um tipo de madeira) usado na fábrica Olaio, em 1940

Um dos primeiros troncos de tola (um tipo de madeira) usado na fábrica Olaio, em 1940

1951 marca a entrada de José Espinho como decorador e projetista dos móveis Olaio. Até 1973, este homem dará enorme impulso ao design e às linhas da marca portuguesa. A Olaio começa a produzir móveis para hotéis e teatros: Grande Hotel da Figueira, Hotel Ritz (Lisboa), Tivoli ou Estoril-Sol são alguns dos que encomendam coleções.

O interior do Hotel Ritz, mobilado pela casa Olaio

O interior do Hotel Ritz, mobilado pela casa Olaio

O Bar do Grande Hotel da Figueira, também desenhado pela Olaio

O Bar do Grande Hotel da Figueira, também desenhado pela Olaio

O Teatro Capitólio, o Café Império ou a Pastelaria Mexicana são outros locais cujos interiores são encomendados à fábrica. É um período de grande expansão. A Olaio chega a ter 600 trabalhadores.

Um almoço de convívio na Olaio, que mostra bem as centenas de trabalhadores

Um almoço de convívio na Olaio, que mostra bem as centenas de trabalhadores

O conjunto de jantar Caravela, criado em 1959, foi o mais vendido de sempre da Olaio.

O conjunto de jantar Caravela, criado em 1959, foi o mais vendido de sempre da Olaio.

Na década seguinte, a marca assina os primeiros contratos de licença exclusiva para produzir e comercializar alguns móveis de linhas suecas e dinamarquesas, entre as mais prestigiadas da Europa. 1961 marca a entrada de um engenheiro alemão, Herbert Brehm, como diretor industrial da fábrica. Monta uma máquina plana de corte de folha para automatizar a produção em série e acaba por nunca deixar Portugal. Modernizou a fábrica por completo, dotando-a de um gabinete técnico e de capacidade de produção em quantidade. Nas palavras de José Pedro Olaio, "transformou uma loja de móveis numa indústria de mobiliário". Passou também a fabricar-se e armazenar-se as peças dos móveis desmontadas, montando-se posteriormente.

A modernização da fábrica Olaio, em 1961, permitiu a produção em série. Os móveis passam a ser produzidos por peças

A modernização da fábrica Olaio, em 1961, permitiu a produção em série. Os móveis passam a ser produzidos por peças

Em 1964, a Olaio produz várias séries para exportação - no ano anterior tinha mobilado por completo a Base Aérea de Beja.

Nos anos 70, a recessão mundial e o fim das encomendas do Estado ditam uma mudança de estratégia na Olaio. A marca vira-se mais para os particulares e começa a abrir espaços para o grande público. O gestor Mário Sousa Borges fica encarregado das lojas e coloca em cada uma um decorador formado pela Fundação Ricardo Espírito Santo para valorizar e diferenciar o serviço. A concorrência estrangeira chega em força e torna-se necessário criar novas linhas, mais baratas. As madeiras escolhidas mudam, os traços de mobiliário também. Nos anos 80, as novas linhas da Olaio são desenhadas por João Tavares Chichorro, o designer que se manterá até ao final da marca, em 1998. No fim dos anos 70, a Ikea encomenda uma série de 100 cadeiras à Olaio, a Congo.

Um "Fauteuil" de 1962, que se tornou um clássico da Olaio

Um "Fauteuil" de 1962, que se tornou um clássico da Olaio

Os anos 70 trazem novas linhas e materiais. Aqui, uma mesa e cadeira desdobráveis

Os anos 70 trazem novas linhas e materiais. Aqui, uma mesa e cadeira desdobráveis

Em 1985, a Olaio participa, como de costume, na Feira de Colónia, na Alemanha, e Daciano da Costa desenha as cadeiras para o auditório do Centro Cultural de Belém, que inaugura em 1992. Mas em 1989, Antero Olaio vende a fábrica na totalidade, apanhando a restante família de surpresa. João Olaio, bisneto do fundador, fica profundamente marcado por esse acontecimento, assim como o seu pai, José Pedro Olaio. A Olaio ainda labora, em novas mãos, até 1998 - mas nessa data anuncia a falência.

Já no novo milénio, José Pedro Olaio e o filho abrem uma pequena fábrica em Torres Vedras, com meia dúzia de antigos trabalhadores. De 2004 a 2012, sobreviverá a fabricar alguns dos móveis que fizeram o sucesso centenário da Olaio. Mas será o ano de 2016 a trazer a marca de volta à vida, promete João Olaio. Com a mesma qualidade de sempre, um mix de clássicos e uma nova aposta no design, a marca deverá fazer um comeback em força.

Um dos 390 esquissos da Olaio que pode ver na exposição patente no Museu de Cerâmica de Sacavém

Um dos 390 esquissos da Olaio que pode ver na exposição patente no Museu de Cerâmica de Sacavém