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E que tal mulheres à moda do Porto?

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SERRALVES. Ana Pinho é a nova presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves para o triénio 2016-18

lucília monteiro

O jornalismo tem demasiados vícios irritantes. Muitos resultantes de absoluta incompetência, na qual todos, num momento ou outro, acabamos por cair. Seja por cansaço. Seja por se ter normalizado a perigosa ideia de poderem poucos fazer o trabalho de muitos. Seja por as redações serem cada vez menos um espaço de troca de ideias e estarem esvaziadas do debate, da discussão séria sobre o trabalho de cada um. Seja por incompetência pura e simples. Outros vícios radicam tão só num muito humano defeito chamado preguiça. Ater-me-ei à preguiça para o que agora importa.

Por ser do Porto, por ter optado por centrar a minha vida profissional no Porto, e por escrever sempre a partir do Porto, não têm conta as arreliações vividas ao longo dos anos, decorrentes da leitura de muito imaginativos títulos dados a textos jornalísticos saídos das delegações que por cá chegaram a abundar e depois alterados, “corrigidos”, diriam os responsáveis pela mudança, por infinitas variáveis à volta do “..à moda do Porto”.

A moda pegou e ainda hoje não é difícil, seja ou não em momento de aperto, um título ficar resolvido com a facilidade da fórmula encontrada há muitos anos. Desde que seja do Porto, e porque somos todos tripeiros e porque se julga que adormecemos e acordamos a pensar em tripas, o melhor e mais fácil é sempre escudar-se no seguro “...à moda do Porto”.

Pena é que algumas das modas do Porto não sejam assimiladas noutras paragens. Desde logo na capital, onde reina a sabichona convicção de que nada haverá a aprender com o resto do país.

A Bienal de S. Paulo em Serralves

A Bienal de S. Paulo em Serralves

FILIPE BRAGA

Olhemos para a Fundação de Serralves. É a segunda mais importante e relevante Fundação portuguesa, logo a seguir à Gulbenkian. Esta frase, por ser uma verdade estabelecida, fará o pleno da concordância nas redações. Em ambientes conformados e acomodados às verdades feitas, será menos fácil aceitar que em alguns aspetos de programação cultural será hoje, sem dúvida, a mais estimulante, a mais inovadora, aquela onde mais se ousa o risco do novo, do contemporâneo, até da vanguarda.

Assim, quando a Fundação de Serralves volta (o conteúdo e a relevância deste verbo assume um caráter decisivo) a escolher uma mulher para presidir ao seu Conselho de Administração, está não só a tomar uma decisão sem paralelo no contexto das grandes instituições culturais portuguesas, como a glorificar uma certa maneira de conceber a normalidade da vida em comum.

Em janeiro de 2001, há já quase 15 anos, a escolhida foi Teresa Patrício Gouveia. Agora Ana Pinho Macedo Silva sucede a Luís Braga da Cruz. A diretora do Museu de Serralves é desde há três anos uma mulher, Suzanne Cotter. Na Câmara do Porto, Rui Moreira escolheu há dias uma mulher para sua chefe de gabinete e poderá em breve anunciar medidas de alcance semelhante noutros departamentos da autarquia.

O estatuto de mulher confere a alguém alguma especial qualidade? Não. Tudo isto é pouco? É. Mas é muito quando constatamos como a questão da ausência da mulher em cargos relevantes é uma presença constante do discurso oficial e oficioso, e depois percebemos como o lamento é apenas isso: um lamento sem consequências práticas.

RUI DUARTE SILVA

Poder, em 2015, ser este ainda o tema de uma crónica num jornal como o Expresso, por acaso (?) nunca dirigido por uma mulher, diz tudo sobre o por vezes violento debate sobre se há ou não uma questão por resolver quanto à presença feminina em lugares de decisão.

No dia em que textos como este se tornem inúteis e pleonásticos, juro que deixarei de me importar com a preguiça jornalística e não me incomodarei com títulos a falarem-nos da colocação... à moda do Porto, de mulheres em importantes lugares de decisão.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras