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Votação online: escolha as figuras e os acontecimentos do ano

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À semelhança do sucedido no ano passado, o Expresso desafia novamente os seus leitores a votarem as figuras e acontecimentos, nacionais e internacionais, de 2015. Saiba tudo e faça as suas escolhas

A redação do Expresso, num concorrido plenário que contou com mais de cinco dezenas de jornalistas, escolheu a 1 de dezembro as figuras e os acontecimentos, nacionais e internacionais, de 2015. Trata-se de uma das mais velhas tradições democráticas da comunicação social portuguesa, cujos resultados serão oportunamente divulgados.

Os artigos de fundo sobre os vencedores das quatro categorias (figura nacional; acontecimento nacional; figura internacional; e acontecimento internacional) serão publicados na edição de 24 de dezembro (uma quinta-feira em que o Expresso estará antecipadamente nas bancas, por causa do Natal). Mas neste ano, à semelhança do que aconteceu em 2014, as escolhas terão também uma edição multimédia, que será disponibilizada aos leitores do Expresso depois da publicação da edição impressa.

E também pelo segundo ano consecutivo, vimos convidar quem nos lê a votar as figuras e os acontecimentos de 2015. Assim, até às 17h do dia 11 dezembro (sexta-feira), os leitores podem fazer a sua eleição, escolhendo entre os mesmos acontecimentos e figuras que foram sufragados pela redação do Expresso. A partir de segunda-feira, dia 7, faremos diariamente o ponto da situação do resultado em cada uma das categorias a votação.

Em baixo, pode votar nas figuras e acontecimentos, nacionais e internacionais, de 2015. Nas quatro categorias, pode escolher um dos nomeados, dos quais se apresenta a lista com a respetiva fundamentação.

ANTÓNIO COSTA

De vencedor a vencido e de vencido a vencedor. Eis a improvável história de António Costa. Chegou à liderança do PS em novembro de 2014 com promessas de maioria absoluta que rapidamente se esvaneceram. A detenção de José Sócrates, a acumulação das funções de secretário geral do PS com a presidência da Câmara de Lisboa (e os muitos problemas que ainda teve de enfrentar na Praça do Município), o silêncio a que votou o partido até conseguir apresentar o programa eleitoral (e as críticas que ouviu por isso) e, por fim, uma desastrada campanha eleitoral conduziram a um desfecho inimaginável em setembro de 2014 (quando vencera as primárias, contra António José Seguro, por uns expressivos 68% dos votos): a derrota do PS nas legislativas de 4 de outubro. Foi o melhor que lhe podia ter acontecido. Costa não demorou a perceber que, somados, os votos de PS, BE e PCP davam maioria absoluta e empenhou-se em conseguir, com a inesperada cooperação dos partidos à esquerda do PS (que haviam tomado a iniciativa do diálogo), uma aliança que até aqui ninguém julgara possível. A derrota transformou-se em vitória. E a oposição passou a Governo. Não é para todos.  

ARMANDO PEREIRA

Armando Pereira, emigrante de sucesso do Minho, regressou a Portugal  pela porta grande: veio ocupar um dos cargos mais cobiçados do país nas últimas décadas, a presidência da PT. Entra como o dono português e é ele quem dita agora as regras.  O operador histórico foi comprado pela franco-israelita Altice este ano, empresa onde Armando Pereira detém uma participação de cerca de 30%. Era um ilustre desconhecido, apesar de a Altice controlar a Cabovisão desde 2012. O ex-ministro da Economia, António Pires de Lima, chamou-lhe o herói de Vieira do Minho. Desde que a Altice tomou conta da PT, impondo uma cura de emagrecimento, fornecedores e trabalhadores têm tido uma vida mais difícil.  Aos fornecedores foi imposto um corte de serviços de 30% a 50%, um ataque à sobrevivência de muitos. Os impactos da gestão Altice vão sentir-se no próximo ano. Acionista de operadores de telecomunicações em vários países, a Altice fez de 2015 um ano de grandes compras, com aquisições  relevantes na Europa e nos EUA. 

CATARINA MARTINS

Foi a grande vencedora das legislativas de 2015, em termos absolutos, e a única líder partidária que verdadeiramente teve ganhos de vulto, em função das expectativas criadas. O Bloco de Esquerda chegou às eleições com cenário sombrio: manter o grupo parlamentar (8 deputados) já seria um triunfo. Dez meses antes, em novembro de 2014, o partido estivera à beira da implosão. Contudo, em setembro deste ano, nos debates televisivos com os outros líderes partidários, Catarina Martins surpreendeu tudo e todos, marcando pontos, à direita e à esquerda. A partir daí foi sempre a subir, com uma campanha que (se) galvanizou, no final da qual o BE conquistou uma base mais popular. A 4 de outubro, tornou-se o terceiro maior partido, com 10,22%, superando a fasquia do meio milhão de eleitores. E no acordo à esquerda que tornou possível o XXI Governo Constitucional, foi Catarina Martins quem deu o pontapé de saída: no debate com António Costa, assumiu publicamente que estaria disposta a viabilizar um Executivo alternativo, e colocou na mesa condições para o diálogo. Um modelo negocial que haveria de vingar dois meses depois, com o entendimento entre PS, Bloco, PCP e Verdes. 

CRISTIANO RONALDO

O futebolista português continuou em 2015 a pulverizar recordes. No Real Madrid, o clube do mundo com mais títulos e prestígio, tornou-se o melhor marcador da história. Em outubro, em pouco mais de seis épocas, e com uma média superior a um golo por jogo, superou os 323 golos que haviam sido obtidos pelo espanhol Raul González (mas em 16 temporadas). Ronaldo marcou também o golo 500 da carreira, no ano em que conquistou a quarta bota de ouro (troféu para o melhor marcador dos campeonatos europeus, sendo o primeiro futebolista a atingir tal marca) e a terceira bola de ouro FIFA (galardão para o melhor futebolista do mundo) - e obteve também a nomeação para o troféu do próximo ano. Na seleção nacional continuou igualmente a aparecer sempre que foi necessário, puxando a equipa no apuramento para o Europeu de França, em 2016. Fora do campo, também é sempre a faturar: assinou no final do ano um contrato publicitário com a Altice, sendo agora a imagem de marca das várias empresas do grupo (a da Meo já está no ar). Mas CR7 é uma verdadeira multinacional: em março tornou-se a personalidade em todo o mundo mais seguidores no Facebook: 107 milhões. Tudo num ano que termina quando se fala cada vez mais insistentemente numa mudança de ares do craque português (Paris ou Manchester poderão ser os destinos). 

HUMBERTO PEDROSA

Dono do grupo Barraqueiro, Humberto Pedrosa emprega 5500 pessoas e é especialista em transportes terrestres. Com uma fortuna avaliada em 309,5 milhões de euros, pela revista Exame, o empresário assumiu este ano o papel de protagonista na privatização da TAP, ao lado do norte-americano e brasileiro David Neeleman. Juntos, compraram 61% do capital da companhia aérea, fechando o negócio mais quente e polémico dos últimos anos. Com David Neeleman, ganhou assim a privatização da TAP e tornou-se num dos empresários mais falados do ano. Nos transportes terrestres, onde detém 49% da Rede Nacional de Expressos (RNE), a EVA Transportes, Frota Azul, Rodoviária de Lisboa, Rodoviária do Alentejo, entre outras, opera também no negócio das concessões de transportes ferroviários, como a Fertagus, Metro do Sul e Metro do Porto (enquanto a nova empresa concessionária, a Transdev, não tiver luz verde para assumir o leme). 

JERÓNIMO DE SOUSA

O líder do PCP chegou à antevéspera das eleições legislativas com a expectativa de ver a CDU como terceira política portuguesa (muito por cima do BE), algo que de resto as sondagens davam como muito provável. Na noite eleitoral, um balde de água fria caiu sobre os comunistas, ultrapassados pelos bloquistas. Mesmo assim, a subida de um deputado e um aumento marginal de votos permitiram-lhes cantar vitória. Até aí tudo normal. O que não se esperava era que o PCP tomasse logo nessa altura a iniciativa de dar os primeiros passos para desbloquer o que em 40 anos nunca foi possível: um entendimento entre socialistas e comunistas, o que veio a concretizar-se no âmbito do acordo da esquerda. Com Jerónimo de Sousa, o PCP fez ruir um muro cuja queda muito poucos vaticinariam (e que alguns dentro da máquina comunista não vêem com bons olhos). Num partido em que as coisas demoram a mudar (e normalmente mudam pouco), os novos tempos da política de esquerda são um desafio com efeitos difíceis de prever. Em jogada de antecipação, Jerónimo já antecipou para fora do partido com paredes de vidro a discussão sobre a sua sucessão, marcando assim a agenda (interna e externa). Também noutra relação particular da esquerda, a do PCP com o Bloco, o líder comunista está na ofensiva, vincando as diferença com o BE e a liderança deste.

JOÃO SOUSA

Dois anos e seis finais depois, o tenista de Guimarães que vive em Barcelona voltou a conseguir o que tinha conseguido pela primeira vez em Kuala Lumpur, em 2013: conquistar um torneio ATP. O triunfo em Valência fez com que Sousa, aos 26 anos, completasse a melhor época da carreira, ascendendo ao 33º lugar do ranking mundial, a melhor classificação de sempre para um tenista português. 

JORGE JESUS

O autoproclamado "cérebro" do Benfica conseguiu, num mês, pôr o futebol português de pernas para o ar. Quando se sagrou bicampeão nacional, a 17 de maio, ninguém no seu perfeito juízo imaginava que, um mês depois, trocaria o clube onde estava desde 2009 pelo rival da 2ª Circular. Muito menos Luís Filipe Vieira, que segurou o treinador de 61 anos quando ele não ganhou nada, em 2013, mas quis despachá-lo para longe (para o estrangeiro, bem entendido) quando ganhou quase tudo (campeonato, Taça da Liga e Supertaça, só faltando a Taça de Portugal). Jesus não gostou da indelicadeza, porque, mal ou bem, diz-se um dos melhores do mundo e aceitou um desafio com a cara dele (e do pai Virgolino, ex-jogador do Sporting): relançar o Sporting na corrida a campeão, feito que o clube já não consegue alcançar desde 2002. Para os benfiquistas, fora de campo, passou de salvador a Judas, mas, dentro de campo, é difícil criticá-lo: o Sporting já derrotou o rival por três vezes esta época e está na liderança do campeonato.

JOSÉ SÓCRATES

Foi detido para prisão preventiva no mesmo fim-de-semana, em 2014, em que o PS ia a votos eleger António Costa como secretário-geral. Admitiu-se um novo caso Casa Pia, com leituras políticas a dominar o congresso partidário - realizado no fim-de-semana imediatamente a seguir -, mas o sangue frio de António Costa conseguiu travar o melodrama. Depois disso foram dias a fio de câmaras de televisão à porta do Estabelecimento Prisional de Évora a registar quem ia visitar o ex-primeiro-ministro. Este, ao longo de 2015, nunca perdeu uma oportunidade para fazer passar a mensagem segundo a qual a sua prisão não visava senão provocar a derrota do PS nas legislativas.  No início de setembro, Sócrates passou para prisão domiciliária, agora com a circunstância de o país já estar em plena pré-campanha eleitoral. Apesar do rebuliço dos primeiros dias na rua Abade Faria, em Lisboa, o ex-PM manteve-se mais ou menos tranquilo. Mas depois das eleições e uma vez liberto, Sócrates voltou a mostrar o "animal feroz" que continua a ser, defendendo a sua inocência e mostrando que está sempre pronto para dar luta. Como quem diz, a todos quantos profetizaram a sua "morte política", que talvez tenham exagerado. 

MIGUEL OLIVEIRA

Se muitos portugueses passaram este ano a interessar-se pela Moto3, a culpa foi do piloto português que, com seis vitórias e nove pódios, se sagrou vice-campeão mundial. Aos 20 anos, Miguel Oliveira brilhou na categoria mais baixa do motociclismo. Mas em 2016 já irá competir na Moto2, com motos mais pesadas e mais potentes, rumo ao próximo objetivo: ser o primeiro piloto português a chegar ao MotoGP. 

O EMPREENDEDOR PORTUGUÊS

Representam uma nova vaga de startups tecnológicas que estão a afirmar-se a nível internacional. São empreendedores com modelos de negócio pensados para o mercado mundial e que estão a surfar a atual onda de entusiasmo em volta das empresas tecnológicas. José Neves e a Farfetch, por exemplo, chegaram à primeira página do Financial Times em março quando a plataforma digital de comércio de roupa e acessórios de luxo criada em 2008 foi avaliada em mil milhões de dólares (945 milhões de euros ao câmbio atual). Primeiro e único representante português no The Billion Dollar Startup Club, do Wall Street Journal, José Neves conseguiu juntar mais de 300 lojas de 30 países no segundo maior site do mundo de comércio de moda de luxo. Tem 9 milhões de visitas mensais, soma 450 mil clientes em 180 países e espera faturar 450 milhões de euros em 2015. No verão deste ano, a revista Forbes publicou um artigo em que destacava o espírito empreendedor português, referindo mesmo que o "rápido surgimento dos empreendedores portugueses" está relacionado com a "história invisível dos últimos quatro anos, com empresas promissoras a obterem financiamento, a lançarem produtos no mercado internacional e a assegurar a saída dos investidores". A start-up portuguesa TalkDesk foi uma das citadas por aquela publicação. Criada por Tiago Paiva e Cristina Fonseca há quatro anos, a empresa portuguesa que se dedica ao desenvolvimento de software para call centers, já conseguiu angariar 16,5 milhões de euros de junto de investidores. Miguel Santo Amaro, fundador da Uniplaces, é outro exemplo. A plataforma online de alojamento na qual estudantes de qualquer parte do mundo podem reservar um apartamento ou um quarto emprega hoje 120 colaboradores, dos quais mais de 100 em Portugal, opera em mais de 30 cidades e serve estudantes de 150 países. Este ano, depois de já ter levantado 5 milhões de euros junto de investidores, angariou mais cerca de 22 milhões de euros numa nova ronda de investimento.

RICARDO MELO GOUVEIA

Num país que tem alguns dos melhores campos de golfe da Europa, até era estranho não haver mais golfistas de renome. Isso mudou este ano, quando "Melinho" fez história ao conquistar o Challenge Tour - uma espécie de 2ª divisão do golfe europeu que dá acesso ao prestigiado European Tour - e logo com um novo recorde de ganhos na prova: 250 mil euros. Melo Gouveia será o quarto português a participar no circuito, depois de Daniel Silva, Filipe Lima e Ricardo Santos, e já se pode dizer que é, aos 24 anos, o melhor golfista português. 

ACORDO DA ESQUERDA

Os anticorpos gerados em Portugal durante o PREC (Período Revolucionário em Curso, entre 11 de março e 25 de novembro de 1975), que impediram sempre qualquer tipo de aliança ou entendimento entre socialistas e comunistas (e outras forças de esquerda), foram vencidos quatro décadas depois. Pela primeira vez, um Governo do PS é viabilizado por partidos que sempre estiveram na oposição, a qualquer Executivo, em Portugal: Bloco de Esquerda, PCP e Verdes. A velha ordem do arco da governação, dos tempos exclusivos de uma alternância dentro do Bloco Central (com o apoio pontual do CDS), chegou ao fim. António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa são os rostos que protagonizam o começo de uma nova era. Começou de forma envergonhada (com a rábula da assinaturas das posições conjuntas), com uma consistência qb para derrotar a direita e dar posse ao Governo, mas que será testada em provas muito mais duras.     

ELEIÇÕES LEGISLATIVAS

Em 2015, Portugal viveu uma das eleições mais tensas e disputadas na sua curta história democrática. Foram as primeiras legislativas depois dos anos da troika, marcadas por um discurso político muito polarizado (entre direita e esquerda; e também dentro desta, em diversas situações). Apurados os resultados a 4 de outubro, a coligação de direita, a mais votada, acabaria por perder a maioria no Parlamento. Se até então as posições estavam extremadas, mais ficaram nas semanas subsequentes, com o chumbo do segundo Governo de Passos Coelho (pelo qual se atravessou Cavaco Silva), às mãos de uma maioria de esquerda. Ficou assim patente o que já se esboçava: um espectro político com uma linha divisória entre esquerda e direita, pondo fim a um conceito com quatro décadas de vigência, o do arco da governação.     

GUERRA SPORTING-BENFICA

O futebol português conheceu um verão quente como não acontecia desde 1993, quando Paulo Sousa e António Pacheco (do Benfica) foram contratados pelo Sporting de Sousa Cintra (que quase conseguiu também roubar João Vieira Pinto). Agora, foi o treinador dos rivais (Jorge Jesus) que os leões desviaram para Alvalade. Um golpe de mestre de Bruno de Carvalho, que encostou Luís Filipe Vieira às cordas. E desde aí o Presidente do Sporting nunca mais perdeu a iniciativa, como aconteceu por exemplo com as acusações das prendas oferecidas pelo Benfica aos árbitros. Mas um jogo que não foi, nem é, de sentido único, com a Benfica a ripostar em dada altura com o processo em tribunal instaurado a Jorge Jesus, por este alegadamente ter assinado contrato com o Sporting quando ainda estava comprometido com o Benfica. Nos "mind games" do futebol jogado, também Jorge Jesus esteve sempre na dianteira, pressionando sistematicamente o seu sucessor no banco do Benfica, Rui Vitória. Uma guerra sem fim à vista, e que certamente se agudizará ao sabor da evolução do campeonato. Um folhetim do futebol? Nada de mais errado. Uma paixão que incendeia os ânimos na sociedade, que nas semanas de verão estiveram particularmente inflamados (com discussões em família, nas empresas e em todas as tertúlias), e que foi tratado durante muito dias, por jornais e televisões, como o grande acontecimento nacional. 

NOVO PARTIDO NO PARLAMENTO

Desde 1999, quando o Bloco de Esquerda elegeu dois deputados, que não havia uma quebra na clássica distribuição dos lugares parlamentares (historicamente repartidos entre CDS, PSD, PS e PCP). Antes disso, só Manuel Sérgio (eleito em 1991 pelo Partido da Solidariedade Nacional) o conseguira (e antes dele, em 1985, o PRD, inspirado no general Eanes). Em 2015, desconsolados com as forças políticas tradicionais ou entusiasmados com as propostas alternativas do Partido dos Animais e da Natureza, mais de 74000 eleitores conseguiram que o extraordinário voltasse a suceder nas legislativas de 4 de outubro e, por via disso, o PAN conquistou um lugar no hemiciclo. "Encaixado" entre as bancadas do PS e do PSD - a localização óbvia para um partido que não se reclama nem de direita nem de esquerda - , André Silva já conseguiu alargar novo o arco da governação e fazer constar no Programa do Governo de António Costa seis das propostas do partido.

PRIVATIZAÇÃO DA TAP

Já em 1993 se falava na privatização da TAP, através de um aumento de capital e a venda parcial da companhia. Quase 20 anos depois, em 2011, o país assumiu um compromisso com a troika e a privatização da TAP passou a ser uma das prioridades. Em 2012, na primeira tentativa de venda do Executivo de Passos Coelho, apenas um candidato concorreu à compra da companhia e o negócio que a faria passar para as mãos de Germán Efromovich foi chumbado. Em janeiro deste ano, num segundo esforço, o anterior Governo avançou com a privatização de até 66% do capital da companhia (5% podem ficar para os trabalhadores) e fechou-a já depois das eleições, tendo sido acusado pelo Partido Socialista (PS) de “falta de sentido de Estado e desrespeito pela Assembleia da República” ao concretizar o negócio “contra a maioria do Parlamento". A 12 de novembro, o governo de gestão de Passos Coelho vendeu 61% do capital da TAP ao consórcio Atlantic Gateway, composto por Humberto Pedrosa, presidente da Barraqueiro, e o norte-americano David Neeleman, presidente da companhia brasileira Azul. Juntos prometem injetar 338 milhões de euros no grupo TAP, que tem uma dívida de 1062 milhões e capitais próprios negativos de 512 milhões. O primeiro-ministro, António Costa, tem defendido um ajuste ao processo de privatização "para garantir 51% do capital" da transportadora aérea. Já o Bloco de Esquerda e o PCP têm reivindicado que o negócio seja revertido e que o Estado se mantenha como único acionista. 

QUEDA DO GOVERNO

Nas legislativas deste ano, os dois partidos que governaram o país durante os anos troika, PSD e CDS, concorreram coligados. Foram a força mais votada, mas perderam a maioria dos lugares no Parlamento. Mesmo assim, Cavaco Silva optou por reconduzir Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro, mas quando o XX Governo Constitucional tomou posse já se vaticinava que seria de vida efémera. Veio a confirmar-se, caindo ao fim de 29 dias e tornando-se o governo mais curto da história constitucional da III República. Foi a 10 de novembro que todos os partdos de esquerda (PS, BE, PCP e PEV), mais o deputado do PAN, votaram no Parlamento a moção de rejeição. Uma data que marca o fim de um Governo e um fim de uma ordem política em Portugal, emergindo outra, em PSD e PS estão em lados opostos da trincheira e os socialistas se apoiam agora nos partidos à sua esquerda.

VENDA DO NOVO BANCO

O Novo Banco foi separado do BES para ser vendido. A primeira tentativa falhou. Nenhum dos candidatos escolhidos pelo Banco de Portugal se chegou à frente. Em agosto de 2014 foram injetados no “banco bom” 4,9 mil milhões de euros. Hoje percebe-se que as contas não foram bem feitas e questiona-se a pressa que o Banco de Portugal teve em vender o Novo Banco sem o ter reestruturado. Será que existe comprador que dê o que foi injetado no Novo Banco com todos os problemas com que se debate, inclusive de natureza jurídica? Depois da venda fracassada, o Banco de Portugal deu ordens para que a gestão do Novo Banco reestruturasse. O banco tem de apresentar um plano à Direção Geral de Concorrência da União Europeia para aprovação. E perante os testes de stresse que ditaram uma injeção de capital de mais 1,4 mil milhões, o banco tem de apresentar um plano de capitalização junto do BCE demonstrativo de que consegue colmatar as insuficiências de capital detetadas. O Banco de Portugal quer avançar com novo processo de venda no início de 2016 e contratou inclusivamente o ex-secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, para tratar do assunto. 

ALEXIS TSIPRAS

O jovem que liderou e venceu a revolta estudantil dos anos 90 em Atenas tornou-se primeiro-ministro da Grécia em janeiro de 2015, catapultando o Syriza de uns inexpressivos 4,6% dos votos em 2009 para uns surpreendentes 36%. O ex-comunista e líder de uma coligação de forças de extrema-esquerda, que chegou ao poder visto como radical (exigindo o fim da austeridade e o perdão da dívida), acabou com uma imagem de moderado, aceitando o que ele próprio classificou como um "mau acordo" com as instituições europeias, para evitar a saída da Grécia do euro. Capitulou perante Bruxelas e Berlim, contrariando a vontade expressa, num referendo realizado em julho, pela maioria do povo grego. A decisão valeu-lhe uma cisão no partido e o autoafastamento do polémico ministro das Finanças Yannis Varoufakis, até aí seu braço-direito. Ainda assim, mantém-se politicamente imbatível na Grécia, ocupando praticamente todo o espaço da esquerda, à custa do quase desaparecimento do PASOK. Foi novamente a votos em setembro, nas eleições antecipadas, e ganhou, saindo com nova legitimidade, dentro e fora do país. Os gregos continuam a vê-lo como o homem que pelo menos tentou fazer frente aos credores.   

ANGELA MERKEL

"Chanceler dos refugiados" foi a expressão usada para designar a Angela Merkel num artigo de opinião da revista "Der Spiegel". A sua posição de defensora dos refugiados valeu-lhe o reconhecimento do mundo e, em contraponto, críticas internas, mesmo dentro do seu próprio partido. Wolfgang Schäuble comparou a uma avalanche a chegada de um milhão de refugiados à Alemanha, numa crítica direta à decisão política de Merkel de lhes abrir as portas do país. "Vamos aguentar", insistiu, em resposta ao criticismo crescente, evidenciado pela quebra de popularidade que a colocou nos mais baixos índices desde 2011. Os refugiados reconheceram-lhe a coragem brandindo à chegada ao país palavras de agradecimento: "Obrigado, Alemanha". E mesmo com a entrada em massa de requerentes de asilo, Merkel sossegou-os, garantindo que a Alemanha continuará a recebê-los. A impressão de 10 mil cópias da Constituição alemã em árabe, para serem distribuídas junto aos centros de registo de refugiados, foi uma das medidas com vista à integração dos recém-chegados ao país.   

BARACK OBAMA

Com a escolha do seu sucessor já no horizonte (as eleições presidenciais do próximo ano já estão em marcha), Barack Obama prepara o fecho do seu mandato. Se nem em todas as frentes as coisas correm como pretendia (foi na sequência da política da Administração norte-americana para o Iraque que o Estado Islâmico ganharia terreno neste país e depois na Síria), em 2015 Obama conseguiu pelo menos fechar dois dossiês de grande importância: o acordo que prevê o desarmamento nuclear do Irão e o restabelecimento formal das relações diplomáticas com Cuba.  

EMOJIS

Neste preciso momento, alguém, em qualquer parte do mundo, está a mandar um sms, a por  um post no facebook ou a publicar um tweet com um emoji lá no meio. Os bonecos amarelos, e agora também pretos, castanhos ou mais pálidos, tornaram-se, em 2015, uma espécie de linguagem universal, utilizada sobretudo pelos mais novos, mas não só. Os números estão aí para o provar. Um contador em tempo real dos emojis que estão a ser usados na rede social Twitter (emojitracker.com) mostra números com muitos algarismos sempre a correr. No caso da cara que chora de tanto rir, de longe o boneco mais popular, as utilizações chegam a superar os mil milhões. O sucesso dos emojis é de tal ordem que, também em 2015 e pela primeira vez, os Dicionários de Oxford elegeram não uma palavra, mas um emoji como “palavra do ano”. E para a representar a cara da qual escorrem lágrimas de riso. “Apesar do emoji ser um elemento das mensagens dos adolescentes já há algum tempo, a cultura emoji explodiu e chegou ao mainstream ao longo do último ano”, justificou a Oxford University Press. Há quem lhes chame de “hieróglifos modernos”, outros consideram estar-se presente uma infantilização da comunicação escrita. Uma coisa é certa: os emojis têm a vantagem de não esbarrar em fronteiras nem em idiomas. E são, provavelmente, a forma de comunicação que cresceu mais rapidamente em toda a história.    

FRANÇOIS HOLLANDE

Criticado internamente, o PR francês tem conseguido a nível externo alcançar grande protagonismo. Esteve com Merkel na mediação da crise ucraniana conseguindo em condições particularmente difíceis que o Acordo de Paz de Minsk 2 fosse para a frente e que o cessar-fogo fosse, de facto, retomado entre Kiev e os rebeldes pró-russos. Bateu-se tal como Renzi para que a Grécia não ficasse totalmente isolada após o referendo e a chantagem de Bruxelas. Na Síria, teve papel ativo, funcionando como ponte entre Washington e Moscovo, mas apoiando Obama no “não” a Assad. E aguentou-se bem com dois episódios internos de terrorismo: Charlie Hebdo e Sexta-Feira Negra. Na última semana de Novembro foi o pivô da diplomacia anti-Daesh reunindo com Cameron, Tusk, Obama, Merkel, Ban-Ki-moon e Putin.    

O TERRORISTA SEM ROSTO (E NO MEIO DE NÓS) 

De cara descoberta, dois homens armados de Ak47 metralharam as pessoas que assistiam a um concerto no Bataclan, a 13 de novembro em Paris. Resultado: 89 mortos e umas centenas de feridos. Os dois terroristas eram conhecidos das autoridades, um deles sujeito até a apresentações periódicas na esquadra. Ambos foram à Síria e voltaram sem que ninguém soubesse. Duas semanas depois, soube-se que o cérebro do atentado Abdelhamid Abaooud – entretanto morto pelas autoridades - tinha voltado a Paris e assistido de perto aos diversos ataques. Salah Abdeslam que continua a ser procurado na Bélgica (hoje 26 de novembro) é o único que continua vivo. Nacionalidade europeia, ativos nas redes sociais, idas e vindas à Síria “incógnitos” são traços comuns a estes jihadistas. Alguns eram suspeitos também de terem participado na preparação do ataque ao Museu Judaico de Bruxelas, em Junho. Mais, todos atuaram de cara descoberta, tal como os dois britânicos, convertidos ao Islão, que esfaquearam um soldado em Londres, em maio do ano passado. Em 2015, as sociedades ocidentais descobrem, definitivamente, que há um novo tipo de terrorista que está entre elas, e que é parte integrante delas. 

O REFUGIADO

No final deste ano quase um milhão de refugiados terá chegado à Europa, fugindo de países devastados por guerras civis como a Síria, o Iraque ou o Afeganistão. É a maior vaga de refugiados desde a II Guerra Mundial. Tragédias desta dimensão são muitas vezes tratadas como meras estatísticas. Mas podem ganhar uma dimensão humana que emocione o mundo e obrigue instituições e governos a mudar de discurso ou de política. Foi o caso da imagem de Aylan Curdi, um menino curdo de três anos que morreu afogado e deu à costa numa praia da Turquia. Da indiferença passou-se ao empenhamento e alguns governos disponibilizaram-se a abrir portas e a conceder direito de asilo, com a Alemanha, em primeira linha. Outros estados da UE levantaram muros, ou anunciaram querer fazê-lo, com vista a travar o fluxo migratório, sendo o caso mais gritante o da Hungria, sem esquecer a Áustria ou a Macedónia. Não é possível garantir com absoluta certeza que no meio dos refugiados não se possam tentar infiltrar terroristas mas não será esta a sua principal rota de penetração em solo europeu. O que a crise dos refugiados fez foi confrontar a Europa com o que tem de melhor e de pior dentro de si. Os valores nucleares europeus – liberdade de circulação, tolerância, solidariedade, direito de asilo – estão postos à prova de uma forma dramática. Tal como as opções tomadas no passado em matéria de opções ocidentais relativamente às intervenções militares em países como o Afeganistão, o Iraque ou a Síria.

VLADIMIR PUTIN

Se Vladimir Putin fechou 2014 num jogo do gato e do rato com os EUA e a União Europeia, que diabolizavam o senhor do Kremlin pela política de Moscovo para a Rússia na Ucrânia, entre outras coisas, o mesmo Putin chega ao fim de 2015 nas boas graças das chancelarias ocidentais. No avanço do autodenominado Estado Islâmico na Síria são os russos quem agora fazem parte significativa da despesa. Foi também Putin quem deu uma boa ajuda no desfecho do dossiê militar do Irão; e é também Putin quem surge em primeiro plano a dar o braço a François Hollande, na guerra declarada pela França ao Estado Islâmico, na sequência dos atentados de Paris de 13 de novembro. Na geopolítica internacional, a realpolitik é a "madre de todas as cousas"; e um inimigo figadal de ontem, como era Putin, pode ser uma visita de casa nos dias que correm.  

ACORDO NUCLEAR DO IRÃO

Durante os 13 anos que durou o conflito sobre o programa nuclear do Irão, mais vezes se falou de uma guerra contra a república islâmica do que da possibilidade de um entendimento. As consequências diretas do acordo celebrado a 14 de julho, em Viena, entre o Irão e o grupo P5+1 (EUA, Rússia, Reino Unido, França, China e Alemanha), são a abertura total das instalações nucleares iranianas a inspetores internacionais e a garantia de que qualquer tentativa do Irão de se desviar do acordado será detetada a tempo de Teerão aceder à bomba atómica. A médio e longo prazo, o acordo traz também perspetivas de diálogo relativamente a alguns conflitos onde o Irão é ator. Desde logo, o combate contra o autodenominado Estado Islâmico (Daesh): na Síria e no Iraque, Teerão tem ascendente sobre os regimes atuais. O acordo de Viena representa ainda uma aproximação entre dois pesos-pesados da política internacional: o Irão e os EUA, sem relações diplomáticas desde 1979. 

ATENTADOS DE PARIS

A Sexta-Feira Negra assinala a chegada à velha Europa dos atentados “complexos” à talibã, misturando comandos móveis armados e kamikazes. Mostra que os retornados jiadistas estão ativos e são perigosos e que polícias e serviços secretos (na França e sobretudo na Bélgica) estão um passo atrás dos alvos e dos suspeitos. Pode levar ao endurecimento da vigilância tanto física como virtual e ao cerceamento do livre movimento de pessoas e das liberdades fundamentais. Ao contrário do Charlie Hebdo 10 meses antes não há um alvo simbólico ou uma reivindicação clara mas apenas fúria assassina e desejo de intimidar.     

BAIXA DO PREÇO DO PETRÓLEO 

Pressionado por um excesso de oferta no mercado internacional, o preço do petróleo registou em agosto a cotação mais baixa dos últimos seis anos, uma tendência que deixou em sobressalto a indústria petrolífera global, pondo em causa a viabilidade de diversos projetos de exploração. Perante o baixo preço da matéria-prima foram muitas as companhias que decidiram adiar investimentos até que a cotação volte a subir, garantindo taxas de retorno mais atrativas no negócio de extração petrolífera. Em agosto o "brent" caiu para os 42 dólares por barril. Desde o início do ano a desvalorização do petróleo ronda os 20%. Mas em comparação com o pico de 114 dólares alcançado em junho de 2014 o barril de petróleo leva um tombo superior a 60%. A Agência Internacional de Energia (AIE) admite que possamos estar perante uma tendência persistente de baixos preços do petróleo, estimando que até 2020 a cotação da matéria-prima não ultrapasse os 80 dólares por barril. Serão boas notícias para os consumidores, que continuarão a pagar preços moderados pelos combustíveis, mas um sinal de preocupação para as companhias mais expostas à produção de petróleo, como é o caso da Galp Energia. E a baixa do crude tem um efeito devastador na economia de países próximos de Portugal que devem grande parte das suas receitas ao ouro negro: Angola e Brasil.   

CATALUNHA RUMO À INDEPENDÊNCIA

No ano que agora termina o independentismo catalão esticou um pouco mais a corda. A 9 de novembro, o parlamento regional aprovou uma declaração de arranque da secessão que viola a legalidade espanhola e que o Tribunal Constitucional suspendeu em poucos dias. Para perceber como se chegou aqui, recuemos um ano. A 9 de novembro de 2014, o governo da Catalunha organizou um referendo ilegal, que o “sim” venceu com 80% dos votos mas sem o rigor de uma consulta democrática e com a participação de apenas dois milhões dos 5,5 milhões de eleitores catalães. Anulada esta consulta pelo Constitucional, o presidente da região, Artur Mas, convocou eleições antecipadas para 27 de setembro último. Quis conferir-lhes um caráter plebiscitário, unindo todos os separatistas numa candidatura. Conseguiu-o em parte: de fora ficaram os independentistas marxistas da Candidatura de Unidade Popular. Contados os votos, as duas listas separatistas formam maioria parlamentar mas receberam menos de 50% dos votos. E não se entendem para reconduzir Mas no governo regional. Se não houver acordo até 10 de janeiro, repetem-se as eleições em março. O primeiro-ministro Rajoy garante que não haverá separação e admite suspender a autonomia catalã.    

CRISE DOS REFUGIADOS NA EUROPA

A Europa viveu este ano a pior vaga de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. A chegada em massa de milhões de pessoas coloca questões complexas e fraturantes que têm dividido o Velho Continente e põem em causa a "responsabilidade solidária" da Europa. Como garantir a segurança dos europeus sem fechar fronteiras e sem abolir Schengen, é o desafio que os 28 Estados-membros terão de enfrentar. Entretanto, alguns governos disponibilizaram-se a abrir as portas dos seus países e a conceder direito de asilo - como a Alemanha - enquanto outros levantaram muros, ou anunciaram que vão fazê-lo, com vista a travar o fluxo migratório - casos da Hungria e Áustria. Depois de muitos avanços e recuos, os ministros do Interior da União Europeia aprovaram finalmente, em setembro passado, o sistema de quotas para o acolhimento de refugiados. Os que se recusarem podem ver suprimidas as ajudas financeiras europeias.    

ESCÂNDALO DAS EMISSÕES DA VOLKSWAGEN

Tudo começou no dia 18 de setembro quando um investigador norte-americano quis fazer um teste de emissões em carros Volkswagen para demonstrar que os motores diesel não poluíam tanto como se supunha. Afinal provou-se exatamente o contrário e, poucos dias depois, rebentou o maior escândalo da indústria automóvel, com pedidos de indemnizações milionárias, multas bilionárias e quebras de valor em capitalização bolsista. Anunciam-se fechos de fábricas, despedimentos e promessas de investigação para apurar culpados, enquanto as vendas da VW caem a pique. Um em cada 10 carros vendidos a nível mundial é do Grupo Volkswagen.    

ESCÂNDALO LAVA JATO NO BRASIL

Mais de 1700 milhões de euros “desviados” da Petrobras. Cerca de 3653 milhões de euros em indemnizações pedidas pelo Estado, 75 condenações equivalentes a 625 anos, 5 meses e quinze dias de prisão efetiva. Este é o balanço do caso Lava Jato até meados de novembro.  O maior escândalo de corrupção na história recente do Brasil tem reflexos internacionais aos quais Portugal não escapa. Na última semana de novembro, foi preso André Esteves, presidente do BTG Pactual, o banco que assessorou a venda da PT Portugal à Altice e esteve nas negociações que levaram à entrada da operadora portuguesa na Oi. Aliás o caso PT Oi está também na mira das autoridades portuguesas. A investigação da Lava Jato está a destapar o maior escândalo de corrupção na história recente do Brasil, colocando em xeque a cúpula do Estado e, nas suas diversas implicações, apertando o cerca à Presidente Dilma Rousseff.

ESCÂNDALOS DA FIFA

O burburinho sobre corrupção no organismo que rege o futebol mundial não era propriamente recente (começou com a escolha do Qatar para anfitrião do Mundial 2022), mas passou a ser impossível de ignorar quando, em maio, as autoridades norte-americanas anunciaram a detenção de sete funcionários da FIFA acusados de fraude, suborno e lavagem de dinheiro, apenas dois dias antes do 65º Congresso que reelegeu Joseph Blatter como presidente do organismo que rege o futebol mundial. Apesar de se dizer inocente, Blatter teve um mandato curto: apresentou a demissão e marcou novas eleições para fevereiro de 2016, entre ameaças dos principais patrocinadores (Coca-Cola, McDonald's, Visa e Budweiser), que questionavam a imagem da FIFA, mergulhada num buraco negro. Nem Michel Platini, presidente da UEFA, escapou: a procuradoria suíça acusou-o de receber um pagamento ilegal de Blatter e ambos foram acusados pela justiça e suspensos pelo Comité de Ética da FIFA.   

GUERRAS AO ESTADO ISLÂMICO

Um inimigo multifacetado que conseguiu ressuscitar a velha aliança de 1945 contra Hitler: EUA, Rússia, França e Reino Unido. É combatido localmente no Iraque e Síria e à distância na Europa (prevenção e combate ao terrorismo; neutralização das redes de recrutamento jiadistas). No Iraque o Daesh é combatido pelo governo de Bagdade, pelas milícias xiitas e pelos curdos, havendo cobertura aérea de americanos e entre franceses. Na Síria é combatido pelos rebeldes moderados e islamitas e ocasionalmente pelas tropas de Assad, sendo o adversário mais tenaz os curdos sírios do YPG. Há cobertura aérea franco-jordano-anericana e mais recentemente russa.     

INSTABILIDADE NA BOLSA CHINESA

Fica para a história dos mercados o dia 24 de agosto de 2015. Foi o pico de uma crise na China que arrastou o mundo para um crash. Não se via nada assim desde 2008 quando rebentou a crise financeira na sequência do colapso do Lehman Brothers. Só o índice Xangai Composite perdeu cinco biliões de dólares entre meados de junho e agosto. Além da desvalorização, a volatilidade atingiu o máximo desde 1997. Xangai fechou a cair 8,46%, a segunda maior queda do ano depois do crash de 27 de julho em que registou uma descida de 8,48%. Depois de uma 'bolha' que fez disparar em mais de 150% o índice de Xangai entre 19 de junho do ano passado e 12 de junho do ano em curso, a capitalização bolsista emagreceu quase 38% até meados de agosto. Em apenas cinco dias, as ações na China desvalorizaram 20%. Em Lisboa, o índice PSI-20 chegou a descer 8,09%, a quarta maior queda diária de sempre, segundo dados da Euronext. Na principal fonte dos problemas que assolaram os países ocidentais (e não só) nos últimos anos - os mercados financeiros - emergiu agora na China um novo fator de turbulência, que a repetir-se pode arrastar economias mundiais para novas crises.

RESTABELECIMENTO DAS RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS EUA/CUBA

A 15 de agosto deste ano, três marines hastearam a bandeira dos EUA em Havana, a mesma que os próprios tinham arriado a 4 de janeiro de 1961, quando os Estados Unidos e Cuba cortaram relações diplomáticas. A cerimónia marcou a reabertura da embaixada americana em Havana e é a sequência lógica do anúncio feito por Barack Obama a 17 de dezembro de 2014. Já em abril deste ano, Cuba é retirada da lista americana de países que apoiam o terrorismo, um gesto decisivo para a normalização das relações. Porém, o embargo decretado pelos EUA em 1962 ainda se faz sentir. Obama já levantou restrições de viagens aos americanos, autorizou empresas de telecomunicações a operarem em Cuba e permitiu mesmo relações comerciais com o pequeno mas crescente setor privado cubano, entre outras medidas. Mas a empresas cubanas não podem ainda utilizar dólares em moeda ou notas de crédito. O principal obstáculo é a maioria republicana no Congresso, ferozmente contra o levantamento do embargo. Em todo o caso, a aproximação entre os dois países parece ser irreversível. Até Mike Jagger já esteve em Havana no início de outubro, provavelmente para preparar um concerto.

VITÓRIAS DO SYRIZA

Foi o primeiro caso, na Europa, da chegada ao poder de um partido considerado anti-sistema. Em janeiro, a coligação de várias forças de extrema-esquerda venceu as legislativas gregas com 36% dos votos, um resultado surpreendente lido como um grito de revolta contra a troika. Houve até quem visse na vitória do Syriza o primeiro sinal de uma espécie de "primavera dos povos", a que se seguiria, por exemplo, a vitória do Podemos, em Espanha. Na altura, o Syriza anunciava o fim da austeridade, o que não veio a acontecer. Pelo contrário. Bruxelas e Berlim não cederam, mesmo depois de o povo grego ter rejeitado, em referendo, o acordo proposto pelos credores, e acabaram por impor condições ainda mais duras para o terceiro resgate ao país. A assinatura do acordo por parte de Tsipras provocou uma cisão no partido e conduziu à realização de eleições antecipadas, em setembro. Apesar de ter sido "derrotado" pela troika, o Syriza voltou a merecer a confiança dos gregos e mantém-se no poder.