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Quando o trabalho obriga a viver com os patrões

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Maria Aparecido da Silva não se enquadra entre os casos das mulheres que foram para internas numa situação de desespero

José Caria

Já foram mais de um quarto das mulheres portuguesas empregadas. Agora são incomparavelmente menos e as meninas que vinham da província para a cidade, para serem empregadas de servir, deram lugar às imigrantes que veem no trabalho interno a hipótese da sobrevivência no nosso país. Entre o presente e o passado, o Expresso conta a experiência de quatro empregadas internas

Luís Barra

Luís Barra

Fotojornalista

José Caria

José Caria

Fotojornalista

Quase todas dizem que foram para empregadas internas porque não tiveram grandes alternativas. Algumas consideram que apesar da dureza do trabalho tiveram sorte com os patrões e que não se podem queixar, mas outras não hesitam dizer tratar-se de uma espécie de “escravatura”, da qual não veem a hora de conseguir escapar.

Após a estreia de “Que Horas Ela Volta?”, o filme brasileiro sobre uma nordestina que trabalha como interna na periferia de São Paulo, e algumas semanas antes da estreia de “Diário de Uma Criada”, que apresenta a história de uma rapariga que vai da província para Paris, no século XIX, para trabalhar numa casa de família, o Expresso foi ouvir três mulheres que ainda trabalham atualmente dentro desse moldes em Portugal. Ouviu também uma mulher que executou esses tipo de funções nos anos 60, quando isso ainda era a realidade de largos milhares de meninas que vinham do interior do país para as grandes cidades, assim como o testemunho de técnicos e teóricos que trabalham neste sector.

De trabalho desempenhado por portuguesas migrantes, passou nas últimas décadas a ser realizado sobretudo por imigrantes. “Quem mais se presta atualmente ao trabalho interno são mulheres que acabaram de chegar (a Portugal). Muitas vezes porque precisam de um contrato para regularizar a sua situação junto dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras”, esclarece Aurora Doana, do Grupo de Apoio às Mulheres Imigrantes (GAMI). “O valor que se paga hoje em dia para uma empregada interna não compensa, só para alguém desesperado”, acrescenta, referindo que tem contactado com casos muito diversos de “boas e más experiências”.

Casas de família com idosos ou crianças, onde para além da companhia têm de tratar de todas as outras tarefas de lida da casa, são situações muito comuns. Frequentemente, o problema não está no tipo de trabalho em causa, que consideram digno, mas antes na forma humilhante como são tratadas. “É um trabalho em espaço fechado, em que é muito difícil comprovar as condições de trabalho e de acomodação”, explica a técnica do GAMI.

Maria Aparecido da Silva conseguiu comprar uma casa e um terreno no Brasil com a ajuda do dinheiro que ganhou a trabalhar como interna

Maria Aparecido da Silva conseguiu comprar uma casa e um terreno no Brasil com a ajuda do dinheiro que ganhou a trabalhar como interna

José Caria

A brasileira Maria Aparecido da Silva não se enquadra dentro dos casos de mulheres que foram para internas devido a uma situação de desespero ou que têm uma perspetiva negativa da experiência. Atualmente com 64 anos, veio para Portugal há 10 anos, de férias com um casal amigo que pretendia depois ficar cá a trabalhar, e acabou por ficar também.

No Brasil tinha sido empregada doméstica e zeladora de uma igreja. Por cá, primeiro trabalhou uma semana num restaurante no Algarve, depois uma amiga falou-lhe de um trabalho de interna na zona do Saldanha, em Lisboa. Era uma família com cinco crianças, o que “implicava muita responsabilidade”. Ao fim de cinco meses decidiu demitir-se para ir trabalhar com idosos – algo que já tinha, de algum modo, experienciado nos últimos anos da vida do seu pai, no Brasil.

Nos anos seguintes passou por duas casas em Lisboa, onde acompanhou o final da vida de dois idosos. Depois disso ficou desempregada, regressou por um breve período ao Brasil, trabalhou em part-time em limpezas, até há seis meses ter entrado para a casa onde agora trabalha, na Avenida Infante Santo, em Lisboa, novamente para acompanhar um idoso.

“Gostei muito, graças a Deus tenho sido muito bem tratada, tenho tido sorte, não tenho que reclamar”, afirma. Folga dois dias por semana, às terças e sextas feiras, nos restantes diz estar disponível 24 horas por dia. Ganha mil euros brutos por mês e com a ajuda do trabalho interno em Portugal conseguiu comprar uma casa e um terreno em Santa Fé, no estado brasileiro do Paraná, para onde tenciona regressar em breve, para gozar a reforma.

A experiência muito negativa de duas guineenses

Radicalmente diferente é a realidade das guineenses Adélia Vieira Costa e Binto Câmara. Ambas ganham 600 euros brutos por mês pelo mesmo tipo de funções. Adélia, de 54 anos, diz ter sido recrutada por uma empresa de ajudantes familiares, que lhe paga a recibos verdes. Não tem direito a baixa e é-lhe descontado no ordenado sempre que tem de faltar para ir ao médico, como ainda recentemente lhe aconteceu.

Recorda que na primeira casa onde trabalhou, em 2009 na linha de Cascais, só lá ficou dois meses. Dava assistência a um idoso que vivia com o filho. “Eu não podia aguentar mais. Durante a semana corria tudo bem, mas ao fim de semana chegavam mais membros da família e eu não podia aguentar” (a carga de trabalho). Posteriormente, passou a trabalhar como doméstica em Lisboa, na zona de Alvalade, até que a senhora da casa teve um AVC e acabou por passar também a ser interna nessa casa para lhe dar assistência, durante três anos, até à morte da idosa.

Depois Adélia Costa deixou de ser interna por alguns anos, trabalhando a efetuar limpezas para a Santa Casa da Misericórdia. Recentemente, a sua situação voltou contudo a complicar-se e viu-se obrigada a voltar para o trabalho de empregada interna, acompanhando agora na Amadora um casal de octogenários, um dos quais doente de Parkinson. “Não gosto, só o faço porque não tenho alternativa. Quem é que não gosta de dormir na sua casa, com a sua família?”, questiona, lamentando só poder estar com as filhas, de 18 e 21 anos, aos fins de semana.

A sua amiga Binto Câmara, de 49 anos, tem tido uma experiência semelhante. Desde que chegou a Portugal em 2010, já passou por quatro casas, sempre a dar assistência a idosos. Atualmente, e desde há perto de dois anos, está colocada no bairro lisboeta de Campo de Ourique, numa casa com dois idosos, um deles tendo de mover-se através de cadeira de rodas devido a um AVC.

Para além de os acompanhar e tratar da a lida da casa, tem ainda de cuidar de uma segunda habitação, que o casal de idosos possui na Costa de Caparica, para onde se desloca aos fins de semana. Folga entre as 15h30 de quinta-feira e sexta-feira à noite, mas vê-se obrigada a regressar antes por falta de transportes. “Este trabalho que estou fazendo é de duas casas. É muito difícil, só o faço porque não tenho outro. Mas quero sair no fim de dezembro, mesmo que não tenha trabalho. De escravatura, já chega”, desabafa.

Olívia Castro veio trabalhar como interna para Lisboa com apenas 12 anos

Olívia Castro veio trabalhar como interna para Lisboa com apenas 12 anos

Luis Barra

Numa análise efetuada sobre a imigração em Portugal, com recurso a inquéritos efetuados à população portuguesa, o antropólogo Igor José de Renó Machado notou, em 2006, existir uma hierarquização, em que os vindos do leste europeu surgiam como os mais valorizados, seguidos pelos brasileiros e com os dos países africanos de língua oficial portuguesa a surgirem no fundo da tabela, como os mais descriminados e estigmatizados.

Timóteo Macedo, presidente da associação Solidariedade Imigrante, recorda-se de receber pedidos para contratação de empregadas que procuravam nacionalidades especificas. Nota que entretanto o número de imigrantes diminuiu (nomeadamente com a redução dos de Leste) o que se repercutiu com menos gente disponível para o trabalho doméstico e na possibilidade de obtenção de melhores condições. Por outro lado, diz que o aumento das subcontratações, através de empresas de trabalho temporário, tem contribuído para agravar novamente o cenário.

Macedo lamenta que o trabalho doméstico seja regido por um regime especial criado para o sector em 1992, que considera deixar mais desprotegidas estas trabalhadoras, defendendo em contrapartida que passe para o âmbito da legislação geral do trabalho. Ao mesmo tempo, refere que o Sindicato dos Trabalhadores de Serviços de Portaria, Vigilância, Limpeza, Domésticas e Atividades Diversas (STAD) considera ser muito difícil trabalhar neste sector, por as relações entre os patrões e empregados serem de teor mais informal e próximo, supostamente mais no campo da amizade.

O Expresso tentou ao longo de um mês obter informações do STAD sobre as empregadas internas mas não obteve qualquer informação.

Aurora Doana diz que as situações “irregulares” por vezes existem, porventura, dado o simples desconhecimento dos direitos e deveres, tanto da parte das empregadas, como das famílias que as decidem contratar, o que levou o GAMI a criar um pequeno livro de esclarecimento sobre as condições pelas quais se deve reger o trabalho doméstico.

Quando o trabalho interno era a saída “inevitável” das mulheres que vinham do interior

A situação atual é radicalmente diferente da existente há algumas décadas, quando as internas representavam uma parte significativa das mulheres portuguesas empregadas. O livro “O Tempo das Criadas – a condição servil em Portugal (1940-1970)” (Tinta da China) da socióloga Inês Brasão, refere como centenas de milhares de meninas vieram do interior do país para as cidades, para trabalharem como internas.

“As mulheres que viajavam do interior para o litoral do país encontravam no serviço doméstico interno uma saída 'inevitável' (…) entravam pela estação de Santa Apolónia mas não se instalavam em pré-fabricados, ou na cintura suburbana com outras famílias de migrantes. Chegavam à cidade e ocupavam o seu centro nevrálgico, em casas de família, em prédios ainda desenhados para as albergar de forma permanente”. O livro descreve o modo como estas meninas chegavam à cidade com medo de tudo e as condições de subserviência para o qual ficaram relegadas. Eram encaradas como uma força da natureza, com a sua inocência associada a uma conotação erótica e de subjugação, que muitas vezes dava lugar a assédios sexuais (problema que ainda atualmente se verifica).

Em 1940 havia cerca de 188 mil empregadas de servir, representando 28,9% das mulheres registadas como trabalhadoras, em 1950 eram cerca de 199 mil (27,4%), em 1960 eram 175 mil (29%) e em 1970 o número já descera para 110 mil (representando apenas 13,3%), segundo os dados oficiais apresentados na obra. Não há dados que permitam saber quantas empregadas internas existem atualmente no nosso país, pois as inscrições na Segurança Social não as permitem diferenciar das empregadas domésticas que não residem nas habitações onde trabalham, o que corresponderá agora à larga maioria dos casos.

Olívia Castro diz que a alegria que sentiu quando aos 19 anos deixou de ser interna seria equivalente à de ter ganho o Euromilhões

Olívia Castro diz que a alegria que sentiu quando aos 19 anos deixou de ser interna seria equivalente à de ter ganho o Euromilhões

Luis Barra

O relato de quem foi interna nos anos 1960

Olívia Castro foi uma das inúmeras meninas que noutros tempos vieram da província para Lisboa para trabalhar como internas. Chegou à capital no início dos anos 1960, com apenas 12 anos de idade e lembra-se que nas casas onde esteve, na zona das Avenidas Novas, todos os inquilinos tinham empregada interna. “Eu era uma miúda que praticamente nunca tinha saído da minha aldeia no interior. Ao chegar à cidade achei tudo deslumbrante. A novidade de tudo. Mas tinha de trabalhar e só podia sair aos domingos (de tarde), quando ia visitar os meus pais e irmãos”, recorda.

Atualmente com 66 anos, foi interna (ou empregada de servir como na altura se designava) até aos 19 anos. Veio com os pais, de Trás-os-Montes para Lisboa. Começou por trabalhar numa casa do bairro de São Miguel, onde foi substituir a irmã que se ia casar. “Era uma menina que mal chegava às torneiras”, diz a rir, referindo que nos primeiros dois anos ainda teve alguma ajuda das senhoras, mas que a partir dos 14 anos teve por sua conta todo o trabalho da casa: limpar, lavar, engomar, cozinhar e dar assistência às crianças, que eram pouco mais novas do que ela.

Na casa moravam seis pessoas - pais, filha, genro e netos. “O trabalho era muito e tinha de ser feito. Às vezes adormecia encostada à tábua de engomar”. Chegava a deitar-se à uma e duas da madrugada e tinha de levantar-se, o mais tardar, até às 6h45, pois “às 7 da manhã a mesinha do pequeno-almoço tinha de estar pronta para os patrões e para os meninos”.

Apesar disso, não poupa elogios aos patrões, que descreve como pessoas “impecáveis e muito humanas”, em especial os da segunda casa, na Avenida Madrid, onde trabalhou dos 15 aos 19 anos. Foi aliás por insistência da senhora dessa casa que se candidatou a um emprego como administrativa numa empresa de panificação, onde viria a trabalhar até aos 55 anos. “Foi assim como ter ganho o Euromilhões. Um sonho que se concretizou”, descreve, sobre o momento que representou para si deixar definitivamente para trás o trabalho interno. “ A vida era difícil, mas não era impossível”, lembra, frisando que ainda mantém relações de amizade com as pessoas das casas onde trabalhou.

  • “O Brasil tem tanto afeto que sobra pouco espaço para a revolta”

    A realizadora Anna Muylart fala sobre “Que Horas Ela Volta?”, o filme que estreia esta quinta-feira em Portugal e que originou no Brasil uma vaga de debates em torno da sua história, a de uma empregada interna que cria o filho dos patrões enquanto deixa a sua própria filha aos cuidados de outrem