Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Benfica é peça-chave para a NOS combater ataque do MEO

  • 333

GUERRA ABERTA A disputa pelo exclusivo da bola saltou dos relvados para o mercado de telecomunicações. FOTO REUTERS

reuters

MEO já tem princípio de acordo com o Boavista e está a sondar outros clubes com ofertas entre dois a três milhões de euros por ano. Propostas aos clubes mais pequenos duplicam o valor dos contratos atuais para emissão de jogos na SportTV e prevê a rescisão dos vínculos em vigor, que têm duração até à época 2017/18. Acordo da NOS com o Benfica, por 400 milhões, foi fundamental para a operadora contra-atacar

Na gíria desportiva, o posicionamento da Altice, dona da PT Portugal, poderia ser descrito como “uma entrada a pés juntos”. Foi dessa forma que várias pessoas ligadas ao mundo do futebol, das telecomunicações e do mercado de direitos televisivos encararam a atitude da nova dona do MEO na disputa pelos direitos de emissão de futebol em Portugal.

De acordo com as informações recolhidas pelo Expresso, a ronda de abordagens que a Altice tem feito a vários clubes portugueses de pequena e média dimensão nas últimas semanas inclui, nalguns casos, a duplicação dos valores atualmente pagos pela PPTV de Joaquim Oliveira para a emissão dos jogos na SportTV (que o empresário detém a meias com a NOS). A ideia é garantir para o MEO o exclusivo destes conteúdos e retirá-los da oferta de concorrentes como a NOS, a Vodafone TV ou a Cabovisão.

As propostas feitas aos clubes pela dona do MEO pelo exclusivo destes direitos oscilam entre os dois e três milhões de euros. Mas, mais do que isso, a operadora está mesmo a propor a esses clubes a rescisão dos vínculos atuais, que só deveriam terminar em 2017/18. O objetivo será começar já a emitir em exclusivo no MEO os jogos destas equipas a partir da próxima época. Fora desta estratégia está, de momento, uma abordagem por parte do MEO ao FC Porto e ao Sporting , que também têm vinculo com a SportTV até 2018.

Patrick Drahi, o milionário franco-israelita dono da Altice

Patrick Drahi, o milionário franco-israelita dono da Altice

PHILIPPE WOJAZER / Reuters

Segundo apurou o Expresso, o Boavista terá sido o primeiro clube a aceitar os termos da proposta do MEO e estabelecido um princípio de acordo para a emissão dos seus jogos em exclusivo nesta operadora. A administração da Boavista SAD não confirma, neste momento, a existência de qualquer contrato ou princípio de acordo nesse sentido, nem se o mesmo é válido já para a próxima época ou apenas para o final do acordo atualmente em vigor com a SportTV. A edição desta quinta-feira do "Jornal de Negócios" acrescenta que Belenenses e Vitória de Guimarães serão outros dos alvos da Altice.

O facto de os contratos atuais terem cláusulas que preveem o pagamento de indemnizações por parte dos clubes à PPTV de Joaquim Oliveira em caso de rescisão unilateral dos vínculos não parece obstáculo suficiente para demover a dona do MEO. O objetivo, dizem as fontes ouvidas pelo Expresso, será desconstruir os equilíbrios atuais do mercado de televisão paga e garantir uma posição dominante na área dos conteúdos em Portugal através dos exclusivos do futebol nacional - um dos conteúdos mais importantes para garantir a fidelização de subscritores de pacotes de pay tv. Um mercado onde a NOS é líder de mercado, seguida de perto pelo MEO, da PT Portugal.

Miguel Almeida, o CEO da NOS

Miguel Almeida, o CEO da NOS

Nuno Botelho

O contra-ataque da NOS

À luz destas informações ganham, de resto, outra dimensão as palavras do CEO da NOS, Miguel Almeida, que numa conferência recente da APDC prometeu que a sua operadora iria “agir em conformidade se um concorrente quebrar nas palavras e nas ações um equilíbrio que existe hoje”. Ficou claro que havia uma guerra entre as operadoras pelos conteúdos e quem a estava a desencadear, usando métodos pouco habituais no mercado português, era a PT Portugal, agora nas mãos da franco-israelita Altice. A forma de fazer contratos da PT Portugal alterou-se desde que a Altice tomou conta da gestão, e tem estado a haver uma renegociação generalizada dos contratos com os fornecedores, proposta de forma unilateral.

Conhecedora das abordagens e sondagens do MEO aos clubes portugueses - incluindo o Benfica, que é o único clube que não tem contrato em vigor com a PPTV de Joaquim Oliveira - , a NOS (que detém também 50% da SportTV), entrou em campo. E predispôs-se a assinar um contrato válido por 10 anos com o clube encarnado, por 400 milhões de euros. Ou seja, o maior negócio de sempre no futebol português.

A confirmação da operação chegou ontem à noite, em forma de comunicado da NOS enviado à CMVM. A NOS pode pagar até 400 milhões de euros ao Benfica ao longo de dez anos, em troca da transmissão dos jogos do Benfica em casa e da distribuição da BTV. O acordo fica fechado para os primeiros três anos, podendo ser renovável até dez anos. A renovação depende da decisão de qualquer das partes. Por saber fica ainda se os jogos do Benfica serão emitidos a partir da próxima época na BTV ou se passam para a SportTV. E, também, se a NOS avançará para a exlusividade destes conteúdos na sua plataforma, vedando o acesso aos subscritores das concorrentes MEO, Vodafone ou Cabovisão.

Certo é que valor investido pela NOS nesta operação é considerável e mais do que duplica os montantes atualmente pagos pela Olivedesportos ao FC Porto e ao Sporting (na ordem dos 17 milhões por época, acrescidos de direitos de exploração publicitária). Mas, diluído este investimento a 10 anos, fontes do mercado admitem que é perfeitamente suportável pela NOS, uma empresa que em 2014 apresentou receitas de exploração de quase 1,4 mil milhões de euros.

Além disso, a contabilização do negócio não deve ser feita apenas pelo custo que ele representa. Este investimento permite à empresa impedir a sua concorrente mais direta, o MEO, de garantir a exclusividade da emissão de um dos conteúdos de futebol mais importantes do país. Se eventualmente a MEO ficasse com o Benfica em exclusivo na sua plataforma de televisão, o dano que isso poderia causar em perda de subscritores da NOS poderia ser significativo.

Acresce que com este movimento, a operadora dá também um passo importante para assegurar a viabilidade da operação da sua participada SportTV (onde tem 50%). Simultaneamente, os direitos dos jogos do Benfica e da Benfica TV podem ser também canalizados para a operadora ZAP, de Isabel dos Santos, que emite em Angola e Moçambique e onde a NOS tem uma participação de 30%. O operador português poderá igualmente vender o conteúdo para outras plataformas internacionais. Nada impede a NOS, por exemplo, de vender para as outras regiões do Mundo os jogos do Benfica e a Benfica TV, seja em África ou na Europa. Gerando assim uma nova fonte de receita.

Mário Figueiredo, o ex-homem forte da Liga de Clubes

Mário Figueiredo, o ex-homem forte da Liga de Clubes

Foto Nuno Botelho

Um estudo premonitório da Liga

Curiosamente, a guerra a que o mercado de direitos televisivos está a assistir neste momento já tinha sido antecipada como provável. Em 2012, um estudo encomendado pela direção da Liga de Clubes - então liderada por Mário Figueiredo - tinha já previsto que os clubes portugueses seriam os principais beneficiados por uma eventual entrada em campo dos operadores de telecomunicações na disputa pelos direitos de emissão de futebol.

Segundo esse documento, o valor do mercado português de direitos de futebol, que então se situava na ordem dos 90 milhões de euros, poderia disparar para mais de 170 milhões com esse acréscimo de concorrência.

Na base deste cálculo - feito pela consultora Oliver & Ohlbaum Associates - estava a convicção de que o panorama até então vigente, e que se sustentava no domínio do mercado pela Olivedesportos de Joaquim Oliveira, não poderia manter-se, por razões legais. E que quebradas as barreiras contratuais que impediam a entrada de novos operadores neste mercado, a competição por estes conteúdos faria naturalmente subir o preço do mercado. Nomeadamente se, como indicava o estudo, os operadores de telecomunicações entrassem em campo para disputar diretamente a compra destes conteúdos.

“Se uma plataforma, como por exemplo a Portugal Telecom, decidir comprar os direitos para usá-los de forma exclusiva na sua plataforma de televisão” e assim suscitar a migração de clientes de outros operadores concorrentes, isto “aumentaria o valor do mercado doméstico para 123 milhões de euros por ano”, referia o estudo.

Numa análise premonitória, o estudo antecipava mesmo que “se a Portugal Telecom seguir uma estratégia destas” a ZON (que entretanto deu origem à NOS) “pode ter de defender-se”. O que está de facto a acontecer agora.

Segundo as estimativas então feitas pela Oliver & Ohlbaum, esta concorrência na disputa pelos direitos, acrescida da negociação de acordos comerciais e da negociação de direitos para emissão noutros países e em suportes multimédia poderia aumentar o valor total do mercado para perto dos 150 milhões por ano. E com margem para crescer ainda mais, consoante a evolução do mercado de telecomunicações e do mercado publicitário.

No melhor dos cenários, a consultora entendia que o valor dos direitos televisivos poderia crescer para “os 172 milhões de euros na época 2017/18”, se “o mercado publicitário crescer e a Liga de futebol for um conteúdo chave para a escolha dos consumidores em relação à sua subscrição de Pay TV”.

Centralização comprometida

O estudo então divulgado sustentou parte da contestação legal feita pela direção da Liga de Mário Figueiredo à Olivedesportos de Joaquim Oliveira. Em causa estava o papel do empresário (que detém a SportTV a 50% com a NOS) na compra, intermediação, revenda e emissão dos direitos dos jogos das Ligas profissionais portuguesas. A esse respeito, aliás, Figueiredo invocava números que sustentavam que entre 2008 e 2010, os direitos dos jogos dos clubes movimentaram cerca de 90 milhões de euros, dos quais apenas 60 milhões entraram nos cofres dos clubes.

Joaquim Oliveira, o patrão da SportTV

Joaquim Oliveira, o patrão da SportTV

António Pedro Ferreira

O facto de a Olivedesportos ter criado uma rede de contratos de longa duração com os clubes, com termo assimétrico ao longo dos anos e com cláusulas de preferência para a renovação dos vínculos eram os grandes obstáculos à entrada de concorrentes neste mercado. E também à eventual negociação centralizada dos direitos de todos os clubes, uma situação que Figueiredo defendia que permitiria aumentar o valor conjunto do mercado, face aos encaixes recebidos por cada clube através da negociação individual dos seus contratos.

As queixas entretanto entregues pela Liga à Autoridade da Concorrência sobre este assunto - por alegado monopólio e obstrução à concorrência - , levaram a Olivedesportos a assumir de forma voluntária a renegociação de contratos com durações inferiores com os clubes, com termo nos mesmos anos e com a supressão das cláusulas de preferência. Estes novos contratos assinados pela Olivedesportos com a maioria dos clubes profissionais em Portugal têm vigência até ao final da temporada 2017/18.

Foi este horizonte temporal que esteve na cabeça do novo presidente da Liga de Clubes, Pedro Proença, quando assumiu como um dos grandes objetivos do seu mandato a negociação em bloco dos direitos de TV de todos os clubes. Mas para isso era necessário conjugar duas coisas que se revelaram impossíveis: primeiro, criar consensos para um acordo entre Benfica, FC Porto e Sporting para o modelo de repartição das receitas; depois, convencer o Benfica - que é o único clube sem contrato em vigor com a Olivedesportos e a SportTV - a negociar os seus direitos de forma conjunta.

Se existiam já fundamentadas dúvidas sobre a viabilidade dessa negociação centralizada destes direitos, as últimas semanas foram decisivas para assinar a certidão de óbito dessa ideia. O novo posicionamento do MEO - agora detido pelos franceses da Altice - na tentativa de comprar conteúdos em regime de exclusividade foi o primeiro passo nesse sentido. A resposta da NOS e a confirmação do acordo com o Benfica fez o resto.

A partir daqui, seja qual for o desfecho desta corrida a dois, este será seguramente um rombo para a estratégia da Liga de Clubes, que reconhece que a ideia da centralização morre a partir do momento em que o Benfica e outros clubes estão a negociar em nome individual com as operadores. No entanto, o Expresso sabe que o organismo continua a estar disponível para uma negociação centralizada. Isto, porque, no bolo total dos direitos da Liga estão, por exemplo, a publicidade e as plataformas digitais. Pedro Proença estaria disposto a ajudar os clubes mais pequenos a negociar estes pacotes à margem dos direitos de transmissão televisivos.

[Atualização de texto publicado no Expresso Diário de 2 de dezembro]