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Libertado após 44 anos na cadeia, a tecnologia atual surpreende-o e choca-o

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Otis Johnson não consegue perceber como as pessoas se orientam na rua sem olharem à volta

Luís M. Faria

Jornalista

Quando um homem volta à sociedade normal após décadas fechado numa cadeia, é normal que algumas coisas o surpreendam. Pode ser a variedade de alimentos disponíveis numa mercearia, ou algo tão aparentemente insignificante como o facto de os telefones públicos terem caído em desuso (e, onde ainda existem, uma chamada local custar agora quatro vezes mais do que nos anos 70).

Uma vasta série de inovações tecnológicas também hão de ter o seu quê de chocante, sobretudo quando se vê até que ponto transformaram a atitude dos transeuntes. Vê-los ir na rua de cabeça baixa e sem olharem para os outros é estranho.

Inicialmente, o nosso incauto desprevenido pensa que vão a falar consigo próprios. Muitos deles gente nova... Chega a imaginar que trabalham para a CIA, todos eles. Só depois repara que têm um aparelho na mão, e que nos seus ouvidos há auriculares a reforçar o isolamento que já os separa do mundo.

Foi esta a experiência vivida por Otis Johnson, um homem cujo encarceramento terminou o ano passado ao fim de 44 anos. Em 1971, prenderam-no ter tentado matar um polícia durante um assalto-crime que ele admite, garantindo que o pagou integralmente, se não em excesso. Na altura tinha 25 anos.

Ao longo das décadas seguintes passou muito tempo isolado, e em 1998 o contacto que ainda mantinha com a família terminou. Foi o que mais lhe custou. Diz que fez questão de não alimentar ressentimentos com nada nem com ninguém, ciente de que a vida tinha de ir em frente. A mesma atitude ajudou-o no verão do ano passado, quando lhe entregaram o seu bilhete de identidade, 40 dólares (37,7 euros) e dois bilhetes de autocarro, devolvendo-o à liberdade e à sua sorte.

A bem dizer, Johnson não ficou completamente sozinho no mundo. Uma organização humanitária que ajuda ex-presos, a Fortune Society, arranjou-lhe um sítio para ficar e não o deixa passar fome. A troco da assistência, ele tem de regressar a casa até às nove da noite. Não lhe custa cumprir a promessa. Mas tem o desejo de fazer algo mais com a sua vida.

Em especial, gostava de criar um refúgio para mulheres, sonho que a sua total falta de meios e de crédito deverá tornar difícil nos próximos tempos. Mas para quem passou quase dois terços da sua vida fora da sociedade, cada dia neste momento é um dia ganho. E de qualquer modo, conforme constata, as coisas essenciais nunca mudam.

Os problemas dos prisioneiros idosos

Johnson contou agora a sua história à estação AlJazeera nos Estados Unidos. É um relato que, além do seu interesse em si mesmo, surge numa altura importante. Entre as áreas onde o Presidente Barack Obama ainda gostaria de deixar um relato na parte final do seu mandato, conta-se a reforma penal.

Existe uma noção cada vez mais generalizada de que os abusos de encarceramento atingiram extremos inaceitáveis, e fiscalmente inaceitáveis, em particular desde os anos 80, quando o Presidente Ronald Reagan e outros políticos assumiram uma linha draconiana na matéria. Mesmo do lado conservador, hoje em dia parece ser aceite que dezenas de milhares de pessoas presas por crimes não extraordinariamente graves devem ser restituídas à liberdade.O problema é que isso nem sempre é fácil. Os hábitos de sociabilidade demoram a recriar, e o contexto ou a sua falta podem ser decisivos.

No caso de Johnson, a ausência de família provoca um isolamento que lhe custa aguentar. Ele gasta os dias a caminhar pelas ruas de Nova Iorque, vai à mesquita, faz tai-chi, medita. Mesmo com a sua atitude positiva, é altamente provável que existam questões psicológicas a tratar. Quanto mais não seja, pelo facto de os seus dias agora já não serem decididos por outros do princípio ao fim.

Conforme explicou à Aljazeera uma investigadora de Harvard, Marieke Liem, mesmo usar transporte público ou decidir o que comprar na mercearia pode ser difícil. “A prisão decide quando as luzes se acendem e quando se apagam. Quando alguém esteve dentro do sistema a maior parte da vida, como se pode esperar que funcione enquanto membro da sociedade? E faça um plano?”.

Em 1999, os presos idosos eram 3% do total nos EUA; hoje em dia são 10%, cerca de um quarto de milhão. As dificuldades que os mais novos têm aplicam-se a eles em dobro ou triplicado. E, contudo, as suas necessidades são largamente ignoradas. Em parte, talvez porque tão poucos são libertados. As autoridades não saberiam o que fazer com a maioria deles. A sua confusão seria tão grande como a de Johnson, quando não percebe como os peões se conseguem orientar sem olharem à sua volta.