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Uma língua com muitas pátrias é tema de debate em Coimbra

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Universidade realiza a partir desta quarta e até sexta-feira congresso dedicado ao português como língua de futuro

Num mundo globalizado, com o inglês a assumir o papel de língua franca, com as línguas nacionais cada vez mais ameaçadas, com as comunidades científicas a apostarem quase em exclusivo na língua de Shakespeare como veículo de comunicação, há quem resista e assuma o português, não apenas como uma língua de futuro, mas sobretudo como uma língua na qual é crucial apostar para criar a vantagem pela diferença. É o caso da Universidade de Coimbra, que, para assinalar o fecho das comemorações dos seus 725 anos de existência, resolveu organizar até sexta-feira, no Convento de S. Francisco, um congresso intitulado “Língua Portuguesa - Uma Língua de Futuro”.

São muitas as interrogações para as quais é necessário encontrar resposta. São inúmeras as perplexidades. São infindáveis os desafios, mas em conversa com o Expresso, João Gabriel Silva, reitor da Universidade, defende que, não obstante as dificuldades criadas num mundo onde impera o inglês como uma espécie de língua franca, e quando se debate em que língua se deve ensinar numa universidade como a de Coimbra, interessada em cativar estudantes estrangeiros, a resposta só pode ser uma: “queremos lecionar em língua portuguesa”.

Para o reitor, essa não será “uma dificuldade, mas uma vantagem competitiva. Aqueles que possam estar interessados na língua portuguesa não terão melhor local para aprender do que vir à fonte”. Ao contrário da tendência assumida em inúmeros estabelecimentos de ensino superior, nacionais ou estrangeiros, em Coimbra os cursos são todos ministrados em português, e com excelentes resultados. A capacidade de atração de estudantes estrangeiros continua em alta e João Gabriel Silva defende que se forem uma universidade em língua portuguesa serão únicos. “Será um fator de distinção”, garante.

Défice de oferta na lusofonia

Passa por aí o conceito de língua de futuro. A existência de uma universidade global em língua portuguesa “é uma opção estratégica”, acrescenta. De resto, prossegue, “há uma grande procura de ensino superior em língua portuguesa, desde logo porque a oferta universitária nos países lusófonos é deficitária”. Só para dar um exemplo, bastará referir que no Brasil, assegura o reitor, “o défice de oferta é tão grande que ficam seis milhões de candidatos de fora da universidade por falta de vagas nas públicas e nas melhores privadas”. Ainda assim, o objetivo de Coimbra não é captar as sobras. Acontece que a Universidade está no “top 10” das melhores classificadas, o que constitui um fator suplementar para justificar a opção de muitos estudantes estrangeiros.

Acresce ainda a circunstância de o hemisfério sul ser uma zona de grande potencial económico, com inúmeros recursos naturais. Isso suscita o interesse de outras potências, como a China, onde de uma existência residual se passou agora para uns 30 cursos de língua portuguesa em diferentes universidades.

Há, ainda assim, passos que terão de ser dados. O português, para lá de uma língua de cultura ou de literatura, terá de se afirmar também como língua de conhecimento.

Percebe-se um inevitável peso simbólico nesta decisão de celebrar o português como língua de futuro numa universidade que durante muitos séculos foi a única no espaço lusófono. Até ao século XVIII o ensino era em latim, “mas continuamos sempre a falar português em todos os outros contextos e não é por acaso que todos os grandes vultos da cultura portuguesa passaram pela Universidade de Coimbra”, diz João Gabriel Silva. Houve esse papel central na formação da língua e da cultura portuguesa, o que deu a Coimbra uma centralidade esmagadora.

A palavra dos escritores

O Congresso começa esta quarta-feira às 15h com uma conferência intitulada “Em busca de um cânone literário para a língua portuguesa”, por Vítor Manuel Aguiar e Silva. Seguem-se várias comunicações sobre a língua portuguesa na era digital e na sociedade de informação, bem como sobre as dinâmicas de inovação na língua portuguesa.

Os trabalhos prosseguem na quinta-feira com abordagens relacionadas com a literatura infantil, o português como língua de conhecimento científico e a pluralidade e diversidade do português.

Na sexta-feira, de manhã, haverá espaço para abordar o multilinguismo em sociedades pós-coloniais e para falar da pluralidade e diversidade da língua portuguesa. À tarde, e antes da sessão de encerramento, realiza-se uma mesa plenária subordinada ao tema “O português como língua literária: inovação, pluralidade, diversidade”. Participam os escritores Lídia Jorge, Germano Almeida (Cabo verde), Luís Cardoso (Timor-Leste) e João Melo (Angola). O moderador é Carlos Reis.