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Newshold despede dois terços dos trabalhadores do “Sol” e do “i”

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Redação única com cerca de 60 trabalhadores vai manter edição dos dois títulos, que a médio prazo poderão ser substituídos por um novo projeto. Além dos despedimentos, reestruturação implica cortes nos vencimentos dos funcionários que se mantêm. Álvaro Sobrinho sai da estrutura acionista dos títulos

A administração da Newshold anunciou esta segunda-feira aos trabalhadores do "Sol" e do "i" que vai despedir cerca de dois terços dos trabalhadores dos dois títulos. A informação foi avançada num plenário realizado durante a manhã, onde foi confirmada a intenção da família Madaleno, de Álvaro Sobrinho, de deixar de ser acionista dos dois projetos.

Mário Ramires, administrador da Newshold - e interlocutor dos trabalhadores no plenário -, deverá manter-se como líder da futura estrutura acionista dos dois jornais. Mas a manutenção de ambos os títulos vai implicar uma forte reestruturação, a começar pelo despedimento de mais de 100 trabalhadores das atuais empresas do universo de media da Newshold, holding que mudará também de nome nesta nova fase.

Segundo as informações recolhidas pelo Expresso, a administração anunciou que deverá começar ainda esta segunda-feira a chamar os trabalhadores selecionados para rescindirem contrato. Mário Ramires terá assumido ainda o compromisso de garantir indemnização a todos os funcionários que se voluntariem para negociar a rescisão. No plenário, o administrador da empresa explicou ainda que os salários de dezembro deverão ser pagos até ao final desta semana e o subsídio de Natal até ao dia 25.

Além do despedimento de mais de 100 pessoas, a reestruturação nas empresas que produzem o "Sol" e o "i" vai ainda implicar cortes salariais nos trabalhadores que transitem para a próxima fase da empresa. No caso dos diretores, esses cortes podem atingir 50% do vencimento atual. Regalias como os telemóveis até agora pagos pela empresa ou a carrinha que garantia a ligação gratuita entre Lisboa e a sede dos jornais (em Queijas) também serão cortadas.

Até ao momento não foi possível contactar a administração da Newshold para confirmar estas informações e saber mais pormenores sobre o futuro do "Sol" e do "i". Ao que o Expresso apurou, a curto prazo o "i" deverá passar a ter edição apenas durante os dias de semana, passando o "Sol" a ser publicado ao sábado, numa versão reformulada. A médio prazo, e se a empresa conseguir garantir a sua viabilidade económica nesta nova fase, em cima da mesa estará a intenção de lançar um novo projeto que substitua estes dois títulos.

Na origem da decisão da família Madaleno de desinvestir na área dos media em Portugal terá estado a constatação de que dificilmente seria possível garantir a sustentabilidade financeira de dois jornais que no ano passado geraram um resultado negativo conjunto na ordem dos 8 milhões de euros.

Um diário em sobressalto permanente

Lançado em maio de 2009 pelo grupo Lena, o diário "i" tem tido uma vida marcada por sucessivas mudanças de propriedade e de direção editorial: em pouco mais de seis anos de vida, o jornal já teve quatro proprietários e sete direções (fora as interinas).

Menos de um ano após o lançamento, e numa altura em que o "i" vendia uma média de mais 9 mil exemplares por edição, o grupo de Leiria - que detinha também vários meios regionais - decidiu desinvestir na área dos media e colocar o diário à venda.

Em junho de 2011, o empresário Jaime Antunes assumiu a propriedade do título, mas oito meses e uma forte reestruturação depois, o título voltou a mudar de mãos: em fevereiro de 2012, o dono da gráfica Sogapal, Manuel Cruz, acordou a compra da participação de Jaime Antunes no título.

Embora tenha assumido na altura que tinha um parceiro internacional e que a compra do "i" poderia ser a primeira de outras aquisições nos media, o dono da Sogapal acabou, no entanto, por também não ficar muito tempo como proprietário do jornal: em setembro de 2014, a Newshold, que já tinha uma parceria para a exploração comercial do "i", acabou por assumir a propriedade do diário, juntando-o assim ao seu portefólio de media que incluía então o semanário "Sol" em Portugal ou o semanário "Expansão" em Angola.

Entre janeiro e agosto deste ano, o diário "i" teve uma média de circulação paga de cerca de 4.500 exemplares por edição.

Um projeto para a lusofonia

O semanário "Sol" foi lançado em setembro de 2006 por um conjunto de jornalistas que tinham deixado o Expresso cerca de um ano antes, liderados pelo ex-diretor do jornal da Impresa, José António Saraiva. O empresário Joaquim Coimbra, o BCP e a Imosider foram os acionistas que entraram com o capital para viabilizar o lançamento do projeto, com um investimento na ordem dos 5 milhões de euros no primeiro ano.

O objetivo assumido desde o início era bater o Expresso em vendas e cimentar o "Sol" como líder de mercado no segmento de semanários. Mas essa meta ficou, no entanto, sempre longe de ser alcançada: no final de 2008, a média de vendas do "Sol" era de cerca de 50 mil exemplares, menos de metade do que então vendia o Expresso por semana. E a tendência foi-se acentuando com o passar do tempo: entre janeiro e agosto deste ano, o "Sol" vendeu uma média de circulação paga na ordem dos 20 mil exemplares semanais, contra 95 mil do Expresso.

Além de nunca ter descolado em vendas, o semanário foi também sofrendo algumas complicações financeiras, fruto do desequilíbrio que apresentou quase desde o primeiro ano de vida. Em 2009, o BCP e a Imosider decidiram vender as suas participações no jornal à Newshold.

O objetivo da empresa angolana foi fazer do "Sol" o pilar de um projeto editorial para a lusofonia. Nos anos seguintes - e antes mesmo de comprar também o "i" - a Newshold investiu na entrada do capital da Cofina (dona do "CM") e da Impresa (dona do Expresso) e chegou a manifestar a intenção de candidatar-se à privatização entretanto cancelada da RTP. Depois acabou por alienar as suas participações nessas empresas e agora decidiu desinvestir nos únicos dois jornais que tinha no país.