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A Cidade Luz vai manter-se o maior destino do mundo?

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PARIS 'AO RALENTI.' Numa altura de compras de Natal, o movimento caiu para metade em grandes armazéns como Printemps ou Galerie Lafayette

BENOIT TESSIER/REUTERS

O turismo é dos sectores mais afetados pelos atentados em França, o país que mais turistas recebe e receia quedas a pique na passagem do ano. Mas já há vozes a defender que a 'joie de vivre' vai voltar a Paris

Foi um duro golpe para o turismo, o sector que (sem surpresas) mais diretamente sofreu com os atentados terroristas em Paris na noite de 13 de novembro. Com o disparar do cancelamento de reservas de última hora, os hotéis, em todas a categorias, estimam perdas de 50% no volume de negócio, segundo a Câmara de Comércio e Indústria de Paris. As quebras estendem-se aos restaurantes, cafés, salas de espetáculos, museus e monumentos.

“A nossa primeira mensagem é a de assegurar a segurança aos turistas que visitam França ”, afiançou esta segunda-feira o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, ao reunir-se de emergência com os representantes do sector turístico, desde a hotelaria e restauração aos operadores, agentes de viagens e de transportes, a quem garantiu ajudas e “medidas de acompanhamento financeiro” por parte do Bpifrance, o banco público de investimento.

“França continua a ser o primeiro destino turístico e o mais belo país do mundo, e conserva os seus valores de acolhimento”, sublinhou Valls. À mesa, nesta reunião com os agentes do turismo, também esteve a necessidade de avançar, a curto prazo, com ações de comunicação destinadas a minimizar o impacto dos acontecimentos junto dos turistas externos e a reforçar a promoção do destino França.

TRANQUILIZAR. O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, deu na segunda-feira uma mensagem de segurança aos turistas que visitam França

TRANQUILIZAR. O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, deu na segunda-feira uma mensagem de segurança aos turistas que visitam França

EPA/CHRISTOPHE PETIT TESSON

Em janeiro, a Cidade Luz já tinha visto o seu esplendor ameaçado com os ataques ao jornal satírico “Charlie Hebdo”. “Desta vez a amplitude do acontecimento é maior, mas também temos uma forte determinação em seguir o nosso trabalho, que é receber o mundo inteiro, vender sonhos e oferecer diversão”, sublinhou François Navarro, presidente do Comité Regional du Tourisme (CRT), que apelou aos estabelecimentos para se manterem abertos como forma de resistência.

“Os nossos estabelecimentos turísticos são lugares de encontro, de expressão e de liberdade. Ao atacar os nossos clientes, os terroristas atacaram esses valores, e através deles também a própria identidade francesa”, lamentou François Navarro.

A ambição de chegar aos 100 milhões de turistas

Há longos anos que França ocupa um destacado primeiro lugar no podium dos países que mais recebem turistas no mundo, segundo o 'ranking' da Organização Mundial do Turismo. As previsões de 2015 apontam para mais de 85 milhões de visitantes externos e a ambição para 2020 é chegar aos 100 milhões, face às perspetivas de crescimento turístico à escala global.

O destaque vai para Paris, que recebe cerca de 46 milhões de visitantes por ano, incluindo toda sua área envolvente, e é um destino de eleição para o chamado turismo de negócios, recebendo as maiores feiras, salões e congressos do mundo, desde o imobiliário à moda.

PESAR. Minuto de silêncio em frente à Torre Eiffel, em homenagem às vítimas dos atentados de 13 de novembro

PESAR. Minuto de silêncio em frente à Torre Eiffel, em homenagem às vítimas dos atentados de 13 de novembro

REUTERS/PHILIPPE WOJAZER

A confortável posição do maior destino turístico do mundo foi duramente abalada com os atentados de 13 de novembro em Paris. A par dos cancelamentos de voos do grupo Air France-KLM, grandes atrações turísticas da cidade, como a Torre Eiffel ou o parque de diversões Eurodisney, estiveram vários dias encerrados alegando os “trágicos atentados terroristas”.

A cidade está a retomar a atividade normal, mas como enfatiza a imprensa francesa, “ao ralenti”.

Segundo o jornal France Info, os comerciantes de Paris estão com uma “diminuição muito acentuada” da clientela, num período do ano habitualmente de intenso negócio, tendo em conta as compras de Natal e a aproximação das festas de passagem do ano.

Grandes armazéns da cidade, como Printemps ou Galerie Lafayette, estão com a frequência de clientes reduzida em 30 a 50%, e não são só os turistas a originar esta quebra, mas os próprios franceses. “Para as compras de Natal é esperado um forte aumento de encomendas via internet, apesar deste efeito ainda não estar quantificado”, refere o jornal francês.

Já quantificado, está o “impacto colossal” do tiroteio no Le Bataclan sobre a venda de bilhetes de concertos nas salas parisienses, que segundo o Sindicato dos Produtores está com quebras da ordem dos 80%.

Estados Unidos avisam viajantes: “atentados vão continuar”

Agentes de viagem locais dão conta do efeito que o patrulhamento ostensivo nos pontos turísticos e o “ar grave” dos polícias nos transportes públicos ou museus.

PATRULHAMENTOS. O reforço da polícia e de militares nas ruas, transportes públicos e monumentos mudou a face da cidade

PATRULHAMENTOS. O reforço da polícia e de militares nas ruas, transportes públicos e monumentos mudou a face da cidade

EPA/YOAN VALAT

“Os turistas ficam um pouco assustados com tantos polícias e militares nas ruas, mas eu explico-lhes que está mais seguro passear agora em Paris do que antes dos atentados”, adianta Ricardo Blanche, proprietário da agência Minha Paris, especializada em turismo brasileiro.

Os Estados Unidos emitiram um alerta aos viajantes na segunda-feira, 23 de novembro, com um aviso claro: “Isis, al-Qaeda, Boko Haram e outros grupos terroristas continuam a planear ataques terroristas em múltiplas regiões. Estes ataques podem recorrer a uma grande variedade de táticas, utilizando armas convencionais e não convencionais, e tendo como alvo tanto interesses oficiais como privados”.

Aos cidadãos norte-americanos que viajam, é recomendado “evitar grandes multidões ou locais com muita gente”, a permanecer “em vigilância em locais públicos ou em transportes” e a permanecer “em contacto com a família”, entre outros.

Segundo especialistas do mercado, o turismo deverá ser o sector mais afetado com os recentes ataques terroristas em Paris, mas à semelhança de anteriores atentados em Londres ou em Madrid, os respetivos impactos económicos, embora fortes no curto prazo, são temporários e limitados na duração. De acordo com a consultora MKG Hospitality, “a situação ainda é muito volátil”, mas os impactos dos atentados de 13 de novembro no turismo serão maiores que os efeitos sentidos em janeiro com o “Charlie Hebdo”, que foram “de curto prazo”.

Com o turismo em franco crescimento, o maior fator de ansiedade dos viajantes antes destes ataques era saber quanto deveriam dar de gorjeta no local para onde iam viajar, lembra o “The Independent”. Mas o jornal britânico também frisa que “apesar dos ataques terroristas de Paris, viajar hoje é mais seguro que nunca”, e conclui: “Não nos devemos intimidar nem viver com medo. A 'joie de vivre' vai voltar a Paris, e nós também o devemos fazer”.