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As toleradas

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LÍNGUA A grande diversidade e o futuro do português estarão em debate na Universidade de Coimbra. Jodie Foster em “Taxi Driver”

d.r.

Está por demonstrar a existência de uma relação necessária entre pobreza de vocabulário e escassez de ideias. Embora abundem os escritores carregados de ideias cujos livros evidenciam uma confrangedora escassez de vocabulário, não é menos verdadeira a constatação da existência, nos mais diversos domínios, de muitos protagonistas de verbo fácil, mas incapazes de se distinguirem pelo brilhantismo dos conceitos.

O modo como falamos, ou a utilização dada à língua contribuem, em muito, para construir fundamentais traços de identidade. Não precisamos de ir tão longe como Gogol, que em “Almas Mortas”, creio, - um título desde logo alvo de violentas censuras, visto que, por definição, as almas não falecem - se atira aos leitores oriundos da alta sociedade russa do seu tempo para os acusar de serem aqueles de cujas bocas dificilmente se ouviria uma só palavra em bom russo. Em contrapartida, poderiam brindar os seus interlocutores com inúmeros vocábulos franceses, ingleses ou alemães.

Apesar de acutilante, da crítica de Gogol não se pode escamotear a circunstância de, no século XIX, a língua comum da corte russa ser o francês. Não por acaso, “Guerra e Paz”, esse absoluto monumento da literatura universal, escrito por Tolstoi, aparece, na sua versão original, com as primeiras linhas escritas naquela língua.

Biblioteca do Palácio da Ajuda

Biblioteca do Palácio da Ajuda

ana baião

No discurso televisivo, a linguagem é em geral pobre, seja nos programas de informação, seja nas rubricas destinadas a ocupar donas de casa e reformados. Para não assustar as massas, depreende-se. Este bloqueio da reflexão não é um exclusivo da natureza de alguns meios de comunicação social. Também nos livros há a tendência para acondicionar tudo no segmento ouro, apenas pela caução cultural dada pelo suporte onde estão as letras impressas. É a diferença entre falarmos de autores e escritores. Um escritor pode não ser um autor. Posto um leitor comum perante uma obra de Dan Brown por oposição a uma de José Saramago (sem ofensa para nenhum dos dois), não será difícil de constatar o quão mais cómodo poderá sentir-se a ler “O Código da Vinci” face a “Memorial do Convento”. Percebe-se. Em Brown não há questões éticas, morais, políticas ou outras por resolver. De alguma forma, está tudo resolvido. Logo, está tudo facilitado. Estamos perante a antítese da literatura, cuja função é, através da linguagem, questionar, levantar problemas, suscitar dúvidas e angústias, partir à procura de respostas, e provavelmente não as encontrar.

A língua é um veículo crucial para a construção do mundo em que nos movemos. Orgulhamo-nos do facto de haver em todo o mundo perto de 250 milhões de falantes de português, nas suas múltiplas variantes.

José Saramago

José Saramago

rui duarte silva

Falta perceber a real importância do número e de que forma há uma verdadeira valorização da língua, em particular no seu espaço geográfico de origem, Portugal. Dizia Óscar Lopes, um dos grandes linguistas portugueses, que ninguém é dono da língua, numa alusão ao necessário respeito pelas variantes do português falado em África ou no Brasil.

Ao fazer essa viagem linguística percebemos a dimensão da enorme riqueza do português. Existirão à volta de 300 a 400 mil verbetes, ou seja, palavras em português com o seu significado inscrito no dicionário. Uma enormidade, dir-se-á. Desde logo porque o vocabulário ativo de um cidadão português com um nível de instrução médio dificilmente englobará as 1 500 palavras.

Talvez bastasse esta constatação para entender o português como uma língua a precisar de trabalhar o futuro, tal como o equaciona a Universidade de Coimbra no Congresso que organizará na próxima semana, entre quarta e sexta-feira, no âmbito dos 725 anos da sua fundação.

Da mesa plenária, no último dia, farão parte escritores como Lídia Jorge, Germano Almeida (Cabo Verde), Luís Cardoso (Timor-Leste) e João Melo (Angola). Qualquer deles terá já, por certo, sido confrontado com a frequente observação dirigida a diferentes autores sobre o entrave provocado pelas “palavras difíceis” utilizadas nos seus romances. Aquilino Ribeiro será porventura um caso extremo e uma das maiores vítimas desse estigma, sobretudo decorrente do crescente estreitamento do vocabulário quotidiano e da pouca apetência para ler na companhia de um dicionário. Mas outros, numa lista infindável, têm experimentado do mesmo fel, como Mário Cláudio, José Saramago, ou até Camilo Castelo Branco, onde não é impossível ler sobre a vontade de uma qualquer personagem oscular as toleradas.

“Toleradas” é, de resto, um termo também utilizado por Mário Cláudio numa ou noutra das suas obras, tal como “bácoro” ou “bazulaque”, só como exemplo, ou o “engonço” em Saramago, bem como tantos outros suculentos termos da nossa língua adormecidos no esquecimento da vulgaridade quotidiana.
Qualquer dicionário esclarecerá o significado de “oscular”, “bazulaque”, "engonço" ou “bácoro”.

Audrey Hepburn em “Breakfast at Tiffanys”

Audrey Hepburn em “Breakfast at Tiffanys”

d.r.

Quanto a “toleradas”, temos de recuar às vivências sociais dos finais do século XIX para entender que ao “tolerar” algo permitido tacitamente, do que se está a falar é dos inevitáveis bordéis, onde, para usar linguagem popular consagrada nos dicionários, só podia ser puta quem estivesse registada. Era a forma de, sendo vigiadas, poderem ser toleradas. Através deste modo tolerante se revela a criatividade contida nos aconchegos da língua portuguesa.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras