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Apologia da caça, por Miguel Sousa Tavares

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Mais do que o prazer de matar, que não existe, o ritual da caça é uma celebração do prazer de viver

É de prever que dentro de algum tempo, e aproveitando a onda do politicamente correcto das “questões fracturantes”, vamos ver o deputado do PAN a propor sucessivamente a constitucionalização dos direitos dos animais e a criminalização dos maus-tratos a eles e depois a proibição das touradas e, talvez, das caçadas. Antes que isso aconteça, e em causa própria, aqui fica um breve registo do que é uma jornada de caça — toda ela e não apenas o momento da morte da peça, que tanto incomoda os urbanodepressivos politicamente correctos. Para que se possa tentar entender, estando de boa-fé, o que é a caça como demonstração de amizade e companheirismo (num tempo em que essas coisas se passam fundamentalmente nas redes sociais), qual a importância da caça como acto cultural de fusão com a natureza, com as suas regras, os seus ciclos e os dos animais, e qual a íntima relação entre a caça e a preservação da natureza e da agricultura. E para que se entenda também a importância que a caça, e tudo o que à volta dela se move, tem para a sustentação do que resta da actividade económica de um interior cada vez mais despovoado e moribundo. Esta jornada de caça decorreu na região de Moura, junto à barragem de Alqueva, na margem esquerda e coração do Alentejo. Foi em Novembro deste ano e quase a meio da época de “caça geral” — a que mais adeptos reúne e que vai do início de Outubro até ameados de Janeiro, três escassos meses e meio em que se pode caçar todas as espécies de penas (pombos, patos, rolas, codornizes, tordos, perdizes, galinholas) e coelhos, lebres e javalis. Infelizmente, tudo isto vem rareando, por diversas razões, que não o excesso de caçadores, que todos os anos diminuem (eram 300 mil há uns 15 anos, são 97 mil este ano). E os caçadores diminuem por várias razões: a crise económica, as alterações climáticas responsáveis pelo desaparecimento de espécies de arribação, como os pombos bravos ou as galinholas, o abandono da agricultura, afastando rolas ou perdizes, a doença devastadora dos coelhos e lebres, ainda sem solução à vista, ou o cansaço dos próprios caçadores, desalentados por uma perseguição burocrática na obtenção de licenças que parece destinada a extinguir de vez esta última espécie.

Oxana Ianin

Foi a minha terceira caçada este ano e a primeira que não decorreu debaixo de um temporal, com os campos transformados em lameiros e uma chuva desabrida castigando esta insubstituível paixão de Outono. Um dia de sol, como este, é o que os caçadores mais querem, mas, para efeitos de reportagem fotográfica, melhor seria um desses outros dias em que às sete da manhã já estamos ensopados até aos ossos, patinando na lama e maldizendo o vício que nos faz saltar da cama de madrugada num sábado de manhã, mal dormidos e maldispostos, para ir campos fora, com os cães à frente, ou ficar de tocaia debaixo da enxurrada a ver se alguma coisa voa. “Fazem tudo isso só pelo prazer de matar”, é o que dizem os que não sabem nem querem saber. Não, digo eu, fazemos tudo isso, e bem mais (centenas de quilómetros de estrada, para cima e para baixo, infinitos trabalhos com os cães, com as armas, com o material todo), pelo prazer de estarmos uns com os outros, por vezes tão diferentes mas sempre tão juntos, por nos vermos a envelhecer assim, cúmplices desta paixão, ano após ano, pelo prazer de rever o restaurantezinho onde vamos jantar na véspera, de Outubro a Janeiro, o pequeno hotel de província de que já conhecemos todos os cantos, a mercearia onde compramos azeite, queijos ou enchidos, e por vivermos cada Outono como ele merece ser vivido — a ver outra vez os ribeiros a correr, as estevas a florir, os agriões de água e os cogumelos selvagens a renascer, o sol a levantar-se de manhãzinha rente aos outeiros ou um dilúvio de água a abater-se sobre os nossos ossos cada ano mais húmidos. Quanto ao “prazer de matar”, o acto final da caçada, ele, pura e simplesmente, não existe. O que existe, sim, é o prazer do tiro certeiro, a perdiz que se lança lá de cima, em voo silencioso e fugidio, e a fracção de segundo em que calculamos simultaneamente as três variantes que contam — a distância dela, a sua trajectória e a velocidade do seu voo — e, nesse exacto ponto geométrico, o nosso tiro a encontra.

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1. À saída de Lisboa é preciso telefonar para o senhor Manuel Cavalheiro, dono da mercearia Cavalheiro, em Moura, para que ele prolongue o horário de funcionamento do estabelecimento a tempo de lá chegarmos. O senhor Manuel é o terceiro de uma geração que há quase cem anos explora esta extraordinária loja, que faria corar de pudor a Catarina Portas. Aqui cabe não apenas toda a “Vida Portuguesa” (sim, o Restaurador Olex, a Pasta Medicinal Couto ou o sabão azul e branco, dito “sabão-macaco”, e mais outras sagradas reminiscências dos tempos que já não voltam) mas também o Atum Tenório, o mais selvagem do mercado, e alcofas de vime, lenços coloridos, jarros de barro e uma profusão de produtos locais seleccionados: vinho, azeite, melões, aguardentes, figos secos, feijão e grão ensacados, queijos de toda a espécie e, sobretudo, um estendal de enchidos que ele e a mulher produzem nas traseiras — a tal horrenda “carne processada”, nova maravilha fatal da nossa idade — e que faria morrer de vergonha qualquer secção de enchidos dos nossos supermercados urbanoplastificados, que a ASAE os abençoe! Para que não nos limitemos a comer com os olhos e a comprar no escuro, assim que assomamos à porta o senhor Manuel Cavalheiro e a esposa começam logo afanosamente a cortar lascas de queijos, chouriços e paios, para não partirmos ao engano, de alcofa cheia. Assim se chega a Moura, assim começa a caçada.

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Ultimamente, nas vindas a Moura, fixámo-nos para jantar no Restaurante Vermelhudo, da dona Fernanda. A sala é agradável, mas o nosso grupo, que sofre de vícios escondidos, prefere utilizar um simpático pátio ao ar livre nas traseiras ou uma pequena sala quase exterior nas noites mais frias. O único senão é a iluminação vinda de cima, agressiva e forte de mais, tão infelizmente característica de 90% dos restaurantezinhos do país (a Secretaria de Estado do Turismo bem que podia dar cursos básicos de iluminação e decoração, que, com tão pouco dinheiro, tanto melhorariam o aspecto e ambiente das casas). Esta noite, e por encomenda, jantámos sopa do cozido, que é um prato diário, e um cabrito assado no forno. Como sempre nas véspera das caçadas, a conversa gira à volta das raras anedotas que ainda não sabemos de cor e das piadas sobre os dotes de caçador de cada um. Parece que em Lisboa há uma crise politica, mas quem quer saber disso agora? Bom é estarmos juntos mais uma vez, deixar para trás os dramas gerais e pessoais, sentir que somos uma família diferente, que acresce à de cada um e onde quem chega de novo é sempre bem recebido e quem está faz a festa.

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2. Das coisas melhores que guardo de 14 anos de caçador são os pequenos hotéis e pensões de província onde passamos as “veladas de armas”. É um mundo antigo, submerso, resiliente, comovente. E, de todos esses hoteizinhos, outrora grandiosos e hoje tantas vezes apenas nostálgicos, o meu preferido é o de Moura, adaptado a hotel em 1899 no que fora o Convento da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, construído no século XVII. Antes, quando na província havia vida pujante, com tertúlias políticas, saraus musicais e conspirações militares a sério, chamava-se Grande Hotel de Moura. O “Grande” caiu com o tempo, mas a sua delicada e honestíssima grandeza permaneceu. Fica numa pequena praça, com um jardim encantado, de árvores altivas, um lago e uma fonte de mármore. À noite, costumo sentar-me no jardim a fumar um cigarro e a olhar para a fachada, imaginando o que seria a vida aqui em 1920, quando o hotel deveria ser o centro da vida social desta lindíssima terra alentejana. Mas, depois, há também a magnífica escadaria em mármore e ferro forjado com a sua clarabóia em vidro e, sobretudo, o extraordinário pátio das traseiras, à maneira árabe, com retoques em azul alentejano, e a varanda suspensa sobre ele, para beber um último copo antes de ir para a cama. Os quartos, actualmente em remodelação, são de soalho de madeira, camas paralelas apenas suficientes para uma noite rapidamente dormida e sofás antigos decorados com tecido de flores esbatidas pelo tempo. Tem ainda um imenso e encantado jardim, com uma piscina que, por falta de tempo, nunca visitei e duas salinhas interiores, de passagem, onde, por falta de pessoal, a lareira infelizmente nunca está acesa. No Outono e Inverno, vive dos caçadores, e no Verão, dos espanhóis. Por mais que saiba que o despertador me espera a horas de tortura, é uma dor de alma ir-me deitar sabendo que nunca ficarei aqui as vezes suficientes que precisaria até me fundir na memória das suas paredes. E tudo isto, este imenso prazer de aqui ficar, três a quatro vezes por ano, custa uns 40 euros, com pequeno-almoço incluído.

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3. As chuvas abundantes que caíram durante todo o mês de Outubro, mesmo na margem esquerda do Guadiana, devolveram a água aos ribeiros, córregos e charcas, que são a fonte de vida essencial à vida selvagem nestes campos. Caçar depois de terem caído as primeiras chuvas do Outono é um prazer que faz da chegada ao terreno um deslumbramento sempre renovado. É encontrar a natureza a renascer, tudo a acordar de novo para a vida, depois dos áridos meses de Verão. É também no Outono que se fica a saber como correu a criação das perdizes ou dos coelhos — e, sobretudo, se estes sobreviveram à nova moléstia que os dizima justamente em Julho e Agosto, quando a caça à espécie está interdita. Mas é também na panela, quando chega o acto final de cozinhar o que se caçou, que se sente a diferença entre as condições no terreno e o sabor da caça: as perdizes sabem melhor se já comeram erva, os pombos se já comeram bolota, os tordos se já comeram azeitonas, e por aí fora. Quando morrer de vez a agricultura, morre de vez a caça.

Fundamentalmente, existem três modalidades de caça: de perseguição, de salto e de espera. Entre nós, a de perseguição, típica de África, apenas se pratica na caça ao veado ou ao corço — e, em minha opinião, é falseada, pois não temos montanhas que permitam uma verdadeira aproximação ao alvo, como no filme “Dear Hunter”. A caçada de salto (a pé, procurando a presa) é a mais clássica e a preferida dos puristas, porque é aquela em que há mais trabalho de equipa e uma relação íntima entre o caçador e o cão. A caçada de espera — que se pratica a quase todas as espécies de penas e também a coelhos ou lebres, raposas e javalis — dispensa os cães e as caminhadas, mas permite os tiros mais variados e inesquecíveis, daqueles que, depois, quando vamos dormir, derreados de cansaço, não nos deixam adormecer, revendo mil vezes esse tiro perfeito. Aqui, neste tipo de caçada de espera, chamado “batida”, quanto mais “quebrado” — isto é, ondulado — for o terreno melhor é para a caçada e, principalmente, para as perdizes. De quanto mais alto elas se lançam, quantos mais vales entre os montes encontram para acelerar o voo, mais difíceis e bonitos são os tiros (sendo que, obviamente, constitui motivo de vergonha absoluta matar perdizes ou outras aves sem ser em voo).

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4. Os três elementos essenciais para o acto da caça são os caçadores, os cães e as armas. A discussão sobre as armas e as munições, assim como sobre os cães, ocupa grande parte das conversas. Um arma de caça bem estimada e bem mantida dura uma vida e é passada de geração em geração, acumulando histórias e memórias que, para um caçador, a fazem quase deter o estatuto de membro da família. 70 ou 80 anos depois, as espingardas de caça mais reputadas, feitas à mão por artífices do aço e da madeira — as Purdey ou as Holland and Holland —, valem umas dezenas de milhares de euros nos leilões em Londres ou Bruxelas. Não é o caso de uma banal Browning, calibre 12, de canos sobrepostos e monogatilho, que custa cerca de 1300 euros, nova. Mas seja qual for a arma ou o cão, o caçador passa grande parte do tempo de uma caçada a acariciar ambos. Como se assim os três elementos se pudessem melhor fundir num só, numa sociedade perfeita.

São muitas as raças de cães nascidos e treinados para caçar. Nascidos porque, se não é de uma raça de caça, não há treino que o transforme em tal; e, inversamente, se é um cão de caça, o dono pode fazer tudo o que quiser para o desviar do seu instinto e compensá-lo dando-lhe papas na boca, embrulhando-o em cobertores para dormir ou cumulando-o de beijos e abraços que nunca fará dele um cão feliz. E treinados porque só o instinto não chega: é preciso treinar o cão para ele fazer uma dupla com o caçador. De outro modo, ele caça para si próprio e tudo o que vai conseguir é espantar a caça e estragar uma “linha” de caçadores. Há raças especializadas conforme as espécies, mas na caça menor as principais são as que se usam na caça ao coelho (podengo) e na caça de penas. E, nesta última, reinam as raças de “cães de parar” (que farejam, encontram a presa e param-na para o caçador): é o perdigueiro português, o braque francês ou alemão, o épagneul breton, o setter inglês e o pointer. Todos eles são também bons “cães de cobro” — que encontram e “trazem à mão” do dono a peça morta —, concorrendo nisto com o golden retriever (imbatível na cobrança de patos). Mas a raça e o pedigree não são tudo: o treino e a relação com o dono são determinantes. E, sim, sei que vou chocar muitos espíritos correctamente formatados: nunca conheci uma relação entre pessoas e animais tão próxima, tão cúmplice e tão amiga como a de alguns caçadores com os seus cães. E são cães que só comem ração, nunca entram em casa e correm até perderem o fôlego quilómetros após quilómetros, ao frio, à chuva ou ao calor. Quando comecei a caçar, e por pura sorte, tornei-me dono de uma cadela épagneul breton, que caçava infinitamente melhor do que eu (tão bem que criou fama e ma roubaram). A sua paixão pela caça e o seu instinto eram de tal maneira extremados que ela adivinhava, pela minha cara, que íamos caçar no dia seguinte e punha-se à porta da casa à espera do instante em que eu iria abrir a mala do carro. Então, saltava lá para dentro, como se não houvesse mais mundo do que aquela manhã de caça.

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5. Em termos de caça, o dia podia ter corrido melhor: poucos coelhos, poucas perdizes e só duas lebres. Mas isso, acredite-se ou não, está longe de ser o principal. Felizmente, longe vão os tempos em que, na estrada de regresso, tínhamos de nos cruzar com as carrinhas e jipes dos caçadores ostentando, orgulhosa e imbecilmente, as peças de caça (algumas compradas localmente) penduradas nas traseiras. A lei proibiu isso, e os caçadores foram mudando de mentalidade para melhor sobreviver: apesar de ser verdade que em cada caçador há um mentiroso, no fim da caçada não há ninguém a gabar-se de quantas peças matou, mas, quanto muito, a falar de um tiro bem dado ou de uma bela cobrança do cão. O almoço espera na mesa, e esse é um dos momentos mais aguardados de uma caçada. Uma fraternidade de homens cansados, mal dormidos e sujos vai sentar-se à mesa com a alegria dos tempos das cantinas da escola ou da tropa. Mãozinhas de vaca com grão e febras de porco preto. Alface da horta e laranjas do pomar. Depois, partilha-se entre todos e por igual o monte da caça, trocam-se coelhos por perdizes e perdizes por garrafas de azeite ou de medronho artesanal. Tudo longe do olhar purificador da ASAE, da lei e dos bons costumes. E, como um bando de conspiradores após uma reunião secreta, dispersamo-nos, cada um a caminho da sua cidade, onde ninguém sabe nem sonha que também existem manhãs de sábado mais felizes do que as manhãs dos centros comerciais.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de 14 novembro 2015