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A cruzada dos Anonymous é para levar a sério?

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DECLARAÇÃO. Um membro do Anonymous anunciando a ciberguerra ao Daesh

Reuters

A semana passada, depois dos ataques de Paris, o grupo de hackers Anonymous declarou guerra ao Daesh. Não é uma guerra dita convencional. Aqui, as linhas de código tomam o lugar das balas e dos cintos de bombas. E os Anonymous, que consideram esta a sua maior operação de sempre, podem ter provocado estragos desde o primeiro minuto em que declararam a sua ciberguerra, batizada “Operação ISIS”. A semana passada, revelaram e bloquearam milhares de contas de Twitter e de sites que, alegadamente, pertenciam a membros do Estado Islâmico.

A luta “digital” do Anonymous contra o Daesh não começou agora. Em janeiro, após as mortes no “Charlie Hebdo”, os hackers arregaçaram as mangas e começaram a investigar o rasto eletrónico deixado online pelos terroristas. E não estavam sozinhos nesta causa. Vários ativistas com valências em cibersegurança espalhados pelo planeta também fizeram o mesmo e em março foram publicadas vastas listas de sites e contas usadas nas mais variadas redes sociais que, alegadamente, reforço, pertenceriam a terroristas. Claro que, como sempre nestas coisas, foram identificadas contas erradamente. Perfis que pertenciam, por exemplo, a um jornalista árabe e a um ativista pela defesa dos direitos dos palestinianos. Aliás, há quem escreva que a campanha dos Anonymous está, basicamente, a atacar indiscriminadamente contas de Twitter que pertencem a árabes.

A informação torna-se mais confusa quando os média noticiaram que os Anonymous terão alertado as autoridades sobre vários ataques terroristas. Um deveria ter ocorrido ontem nos EUA num evento desportivo e outro em Paris. O FBI, citado por alguns órgãos de comunicação, declarou não ter informações fidedignas sobre um ataque iminente nas localizações avançadas pelo Anonymous. Ficamos na mesma e sem resposta à questão fundamental: a declaração de guerra dos hackers ao Daesh é para levar a sério ou trata-se apenas de um golpe publicitário?

É reconhecida a forma pouco hierarquizada que rege o Anonymous e a dificuldade, acredito, que deve ser definir uma ação conjunta entre pessoas que estão espalhadas por todo o planeta e muitas das quais têm, certamente, o “complexo de Deus”.

Aliás, é ingénuo pensar que só agora, com a declaração do Anonymous, é que a guerra (e é de uma guerra que se trata) com o ISIS passou para o ciberespaço. Há, de certeza, centenas (milhares?) de analistas das forças de segurança dos mais variados países que fazem vida a farejar os vários círculos da Internet – os que estão à vista e os que se escondem na sombra.

Sim, porque se é verdade que este conflito tem a sua génese na história das civilizações, também é verdade que o capítulo mais recente que opõe o Ocidente a este novo Daesh começou em simultâneo na Internet e nos territórios do Iraque e da Síria. Desde o momento zero que os terroristas recorrem ao ciberespaço para encontrar simpatizantes para a sua causa. Usam as redes sociais para radicalizar os mais incautos e para espalhar o terror. E é impossível esquecer os vídeos horríveis carregados no YouTube pelo terrorista Jihadi John.

Ontem, o pedido das autoridades belgas para a não divulgação de dados sobre as operações militares que decorriam naquele país levou a uma resposta espontânea nas redes sociais que se materializou em milhares de posts com gatos. Sim, é verdade que nunca foi tão fácil aos terroristas ganhar adeptos para as suas causas, mas também é verdade que a onda de indignação e contestação aos atos bárbaros do Daesh assume proporções de uma onda daquelas da Nazaré a uma velocidade nunca antes vista. Sim, também no ciberespaço, os terroristas vão perder esta guerra.

A grande dificuldade para as forças de cibersegurança é lidar com o volume de informação produzida. E, pior, há que ter em consideração que um qualquer imbecil pode dizer (escrever) as maiores alarvidades que atentem contra o mais básico dos Direitos Humanos por se saber protegido pelo anonimato do ecrã. Daí a colocar um cinto de bombas à cintura vai uma grande distância.

É a perda de tempo com estes “falsos positivos” que dificulta a tarefa aos investigadores. São demasiadas pistas para seguir em tempo útil. E contra isto a tecnologia pode fazer muito pouco. Só milhares de Hercules Poirot poderiam distinguir o trigo do joio. Como isso é impossível, acho que, mesmo que não o admitam, as forças de segurança devem apreciar a ajuda do Anonymous e de outros hacktivistas que se juntam ao combate eletrónico ao Daesh.

Por isso, mesmo perante todos os condicionalismos que orientam a forma de atuar do Anonymous, espero, anseio, que a participação do grupo de hackers nesta luta seja o mais sincera possível e não tenha nada, de nada, de marketing.